“Só as pessoas inteligentes procuram para auxiliá-las pessoas mais inteligentes do que elas”.
(Baltasar Gracian – jesuíta 1601-1658)

A citação refere-se a uma regra de prudência política de grande e venerável tradição. Ela faz parte do que se chamava sobretudo nos séculos XVI, XVII e XVIII “a educação do príncipe”.

Estas obras formavam um corpo de conhecimentos voltado para o aconselhamento e advertência aos governantes, escrito por sábios de grande cultura histórica, e especial sensibilidade para o lado prático e real da política.

Os jesuítas e religiosos foram, durante muito tempo, os principais conselheiros dos reis e príncipes, produzindo peças notáveis deste tipo de literatura política. Gracián, Mazzarin e Richelieu são os nomes mais ilustres dessa categoria de pensadores, mas nem de longe os únicos.

Gracián
Gracián: os jesuítas talvez tenham sido os principais responsáveis pelos conhecimentos transmitidos na “educação do príncipe”.

No Brasil, por exemplo, embora o Pe. Anchieta se tornasse o mais conhecido e famoso sacerdote dos primeiros tempos, Manuel da Nóbrega era quem tinha notável visão política e administrativa e quem mais influenciou as autoridades daquele tempo.

O aconselhamento contido na citação, alerta para o fato de que o governante sábio devia cercar-se de auxiliares qualificados. Tão qualificados que Gracián escolhe a expressão “mais inteligentes do que eles”.

A advertência fazia sentido na época pelo fato de que havia o risco, sempre presente, de o monarca pretender exercer seu poder absoluto de forma absolutamente individual e arbitrária. Não se deve esquecer que esta é a época do Direito Divino dos Reis, da Monarquia Absoluta.

Maquiavel já havia, um século antes, enfatizado este principio. No capítulo XXII “Dos secretários do príncipe”, ele dizia:

“Quantos conheceram Antonio Venafro, ministro de Pandolfo Petrucci, príncipe de Siena, o julgavam um homem prudentíssimo, por causa do ministro que havia escolhido”

“De sua parte o príncipe, para conservar o bom ministro deve honra-lo, enriquece-lo, mostrar-se agradecido, concedendo-lhe honras e cargos, para que a abundância de dignidades e riquezas faça com que não deseje mais do que já tem. E, por via dos cargos que lhe oferece, tema alguma mudança que o faça perder os que já possui.”

Qual a lição que podemos extrair, então, desta expressão para o nosso tempo?

Em primeiro lugar devemos entender o conceito de inteligência de maneira mais ampla que o usual. Os atributos pessoais que correspondem hoje em dia ao termo inteligência, à época em que Gracián escreveu, eram outros. Não se restringem à mera qualificação técnica. Tampouco são vistos como independes de algumas virtudes básicas como a lealdade a experiência e o sentido prático.

Não importa se a opinião for pessimista. Se houver honestidade, inteligência e conhecimento baseado em dados objetivos. Ela deve ser levada a sério.

A advertência contida no título da coluna deve alertar-nos para o fato de que o candidato, e, com mais razões o governante, deverão tomar algumas decisões chaves na escolha de seus auxiliares.

Em torno de cada candidato – como um projeto de poder – e de cada governante – como uma realidade do poder -, orbitam pessoas de variada conformação moral, intelectual, política ou profissional. Na seleção dos auxiliares, na atribuição de funções e, acima de tudo, na delegação de autoridade, o político toma aquelas que talvez sejam as mais importantes das suas decisões.

Por mais que o político tome precauções ao escolhê-los, esta é uma decisão que sempre incorpora uma margem de incerteza e risco. É o mesmo Maquiavel quem alerta ao Príncipe:

“Há um método infalível para que o príncipe venha a conhecer o seu ministro. Sempre que perceber que ele se preocupa mais e pensa mais em si mesmo do que no Príncipe, e que, em todos os atos procura sempre a sua vantagem, não é um bom ministro, e não podes confiar nele, pois quem tem em suas mãos a governação de um Estado jamais deve pensar em si, e sim no Príncipe”

É o princípio da prioridade que Maquiavel sustenta com este argumento. Prioritário não é o que se declara. Prioritário aparece no tempo real que alguém dedica a uma ação em detrimento de muitas outras. Prioritário não acompanhar o chefe nos bons momentos. Prioridade se prova na solidariedade nos maus momentos. Prioridade se revela naquilo que ocupa o primeiro plano nas preocupações de uma pessoa.

A advertência de Maquiavel continua válida, para quem tiver a sensibilidade de perceber se as preocupações e os afazeres das atividades de governo ou eleitorais estão em primeiro plano ou, na prática, isto é, no comportamento, estão relegadas a um plano secundário.

Na escolha de auxiliares há uma tendência muito forte no político, como em qualquer pessoa, de preferir, confiar mais, e atribuir maior importância, àquelas pessoas que pensam como ele, dizem o que ele gostaria de ouvir. Afinal, tanto a campanha como o exercício do poder, são tão desgastantes do ponto de vista emocional, que o político vive na expectativa de boas notícias.

Exatamente na contramão desta tendência situam-se aqueles auxiliares que se atrevem a dizer a ele o que ele não gostaria de ouvir. Não há como evitá-los – nem se deve – porque qualquer campanha ou governo, (salvo aquelas situações excepcionais) sempre tem falhas, e sempre está aquém dos objetivos buscados.

Se o candidato não exercitar seu senso crítico em relação aos primeiros, e não assegurar a legitimidade das críticas dos segundos, sua campanha ou sua administração vai se dividir (como ordinariamente ocorre e de forma muito simplista) entre os “otimistas” e os “pessimistas”, deslocando a discussão das questões concretas para questões pessoais.

A guerra pelo “ouvido do candidato” torna-se uma guerra quase tão importante quanto a disputa eleitoral

Qualquer matéria submetida à discussão passa então a ser encarada por esta ótica, e a guerra pelo “ouvido do candidato” torna-se uma guerra quase tão importante quanto a disputa eleitoral.

O candidato não deve aceitar a implícita imposição que lhe é feita para decidir entre uns e outros. O candidato deve exigir de todos que substanciem seus argumentos com fatos, e não apenas com opiniões.

Deve acautelar-se, por igual, com os que sempre dizem aquilo que ele gostaria de ouvir, assim como os que sempre dizem o que não gostaria. A realidade política não se sujeita a esquemas tão simplistas assim. Sempre e nunca são conceitos que não se deve usar na política….nunca.

Os critérios básicos para julgar quem escolher devem ser os mesmos para todos : Lealdade, honestidade, inteligência e conhecimento baseado em dados objetivos. Atendidos estes atributos, a opinião deve ser levada a sério, não importando se quem a profere é chamado pelos outros de otimista ou pessimista.

É neste sentido então que o conselho de Gracián deve ser entendido. Não se trata propriamente de pessoas mais inteligentes que o candidato.

Trata-se é claro de pessoas que, além dos atributos de lealdade e confiança, sabem mais que o candidato nas suas áreas de especialização, ou de pessoas maduras e sensatas com mais experiência que ele, ou ainda de pessoas que possuem maior cultura que ele. Isto tudo não implica necessariamente em ter maior inteligência que o “príncipe”. Estes são os auxiliares que o candidato e governante precisam ter em sua volta. Ao “príncipe” incumbe dirigir este conjunto complexo de talentos e personalidades, com suas qualidades e falhas, e tomar decisões corretas. Quem consegue alcançar o sucesso nesta tarefa é obviamente muito inteligente