A oratória da sedução fala para o coração, como a oratória da argumentação fala para o cérebro. A primeira busca seduzir e conquistar, a segunda busca a aprovação.

Veja-se, como exemplo antológico da oratória da sedução, o comentário do clássico discurso de Marco Antônio, descrito por Plutarco (Vidas) e transposto para o teatro pela pena genial de Shakespeare.

Morto Cézar, pela conspiração de Brutus, a este compete vir a público explicar, nas escadarias do Senado, as razões para o assassinato de Cézar.

Seu discurso (dentro da oratória tradicional) alinhou razões lógicas para o regicídio: ele e seus amigos desejavam salvar Roma da ditadura, o que, segundo ele, somente seria possível com a eliminação de Cézar.

O povo aceitou a justificativa e acatou os argumentos. Afinal, Brutus era um homem reputado como honrado, e era filho de Cézar.

É então que Marco Antônio, depois do discurso de Brutus, toma a palavra. Ele começa seu discurso concordando com Brutus e com a massa (O discurso da sedução focaliza naquilo que as pessoas querem ouvir. Não há outra porta por onde entrar no mundo do outro sem chamar a atenção e sem provocar reações defensivas).

A cada frase em que Marco Antônio declara concordância com Brutus termina repetindo, como numa litania: “Mas Brutus é um homem honrado.

Pouco a pouco, Marco Antônio começa a introduzir, como contraponto às acusações feitas a Cezar por Brutus um, “mas” que introduz relatos sobre o lado bom de Cézar.

A partir de então sua linguagem fica emocionada. Ele fala do amor de Cezar pelo povo romano, pelos amigos, por Brutus. Na sequência, a passagem da concordância com as acusações, para o elogio a Cézar, e, ato contínuo, para a “sugestão” sobre as intenções dos que o mataram, se completa.

Marco Antônio começou agradando o público e repetindo as acusações a Cézar, sempre enfatizando que foram feitas por Brutus e que Brutus é um homem honrado.

Ele acaba por inverter a estrutura do discurso, e depois de mostrar que, “apesar das acusações, Cézar havia feito muito bem para Roma e os romanos” (já então com a anuência e aceitação do público), ele transita para o elogio aberto de Cézar e faz um suspense sobre o seu testamento.

Marco Antônio cria um clima de expectativa e curiosidade sobre o testamento ao dizer que, se eles (o povo) conhecessem o testamento que ele tinha em mãos, então reconheceriam toda a grandeza de Cézar e a mesquinhez e ambição de seus assassinos (momento em que ele já possui o domínio do auditório, e pode então passar para a acusação).

A provocação produz o resultado esperado e o povo passa a exigir que ele mostre o testamento, o que ele reiteradamente se recusa a fazer.

Por fim, Marco Antônio, então já com total domínio da audiência, manda que todos se aproximem do corpo, ergue o manto de Cézar, mostra o sangue, as perfurações por onde os punhais haviam passado, em especial mostra onde o punhal de Brutus atingiu Cézar, e lê o testamento no qual Cézar deixava sua fortuna para o povo romano.

Foi o “coup de grâce”. O povo revoltado vira-se contra os agressores de Cézar, o mesmo povo que no inicio do seu discurso, ao ouvir as explicações de Brutus, aprovara o regicídio.

A peça oratória de Marco Antônio é um clássico dos clássicos da oratória da sedução. Como o povo aceitara as acusações a Cézar, ele também fingiu que aceitava, ainda que sempre focando em Brutus (Brutus é um homem honrado).

Sem jamais afastar-se da aprovação popular, introduziu, em paralelo à acusação, aspectos positivos de Cézar – de natureza emocional – que o povo também aceitou.

A seguir, aumentou os positivos e pôs em dúvida os negativos, e o povo o acompanhou, para finalmente remover os negativos e mostrar a grande injustiça.

A peça oratória é de grande dramaticidade. Marco Antônio não se limita a falar. Ele produz toda uma dramaturgia para acompanhar suas palavras. Faz o povo se aproximar do corpo morto de Cézar, teatralmente apresenta o manto perfurado e molhado de sangue, e finalmente revela o conteúdo do testamento.

Todo o discurso é o oposto da oratória da persuasão racional, e um marco da oratória da sedução. Na verdade, se tentasse um discurso racional, não teria sucesso.

Assim, ele não contra-argumentou o discurso de Brutus. Ele não afirma, sugere; não acusa, lança dúvidas; ele não justifica Cezar o estadista, fala do Cézar que amava seu povo; não convoca o povo contra os conspiradores, deixa para eles completar o raciocínio e chegar a esta conclusão; o ritmo do discurso, cadenciado pela frase, “Mas Brutus é um homem honrado”, tem qualquer coisa de hipnótico; suas palavras são “untuosas”, vagas, ambíguas; e, quando a temperatura do povo está alta, recorre, sem qualquer hesitação, à dramaturgia do corpo e do manto.

Muitas vezes, ao longo da história, este tipo de peça oratória fúnebre, com objetivos políticos, será usada. No Brasil o mesmo povo que condenava Vargas e o “mar de lama” em 1954, após o suicídio e os inflamados discursos, muda de posição e volta-se contra os inimigos dele, com os quais, até há pouco concordavam.

O discurso fúnebre como uma peça típica da oratória da sedução, é apenas um entre muitos outros. O que há de comum a todos é a arte de envolver o público pela emoção e pelos sentimentos, conduzindo-os para o rumo desejado pelo orador.

É fundamental deixar este espaço para o alvo da sedução completar. Ao completá-lo, o círculo da sedução se fecha. O alvo espontaneamente se “envolveu”, passo indispensável para a “entrega”.