O comercial antipolítica parece um contrassenso, mas não é. Muitos candidatos fazem da sua campanha uma condenação “à política e aos políticos”. Cortejam um sentimento de avaliação negativa da política e dos políticos, muito vivo no eleitorado.

O eleitor médio tende a ter muitas reservas com a política. São os escândalos que volta e meia aparecem, denúncias de corrupção contra governantes e parlamentares, é a percepção de que se trabalha pouco na política e se fala muito. Estes sentimentos e avaliações, feitas pelo eleitor, constituem o “caldo de cultura” para o aparecimento de candidaturas antipolíticas.

O candidato que adota esta estratégia visa dois objetivos:

  • Identificar-se com o sentimento do eleitor, captando desta forma a sua boa vontade e simpatia;
  • Apresentar-se como o oposto daquilo que o eleitor condena, qualificando-se assim para receber o seu apoio.
Comercial de campanha do senador Rick Santorum mostrou-o como alguém muito diferente da “manada”

Muitas vezes esta estratégia é coroada de sucesso, no curto prazo da eleição, mas dificilmente o candidato eleito nesta plataforma conseguirá manter a imagem com a qual se elegeu. Se a mantiver, persistindo, durante o mandato, na condenação da atividade que pratica e dos órgãos que integra, será muito pouco produtivo, porque não contará com o apoio dos colegas. Não obstante esta realidade, a fórmula é atraente. Vai ao encontro de sentimentos fortes dos eleitores, proporciona uma linha de campanha fácil de ser sustentada, e, como a opinião pública, em larga medida, coincide com este sentimento, não encontrará adversários que se animem a contestá-lo.

Sua campanha se assemelha a uma pregação, não tem maiores compromissos com realizações concretas, e a condição de “Catão” confere-lhe uma certa superioridade sobre os adversários, “políticos como todos os outros”. O candidato que com maior frequência adota a campanha antipolítica é o “outsider”, isto é, aquele que ainda não cumpriu mandato, e que está tentando naquela eleição conquistá-lo pela primeira vez. Sua candidatura é apresentada como uma mudança, como a eleição de alguém “diferente” dos outros, independente, honesto e trabalhador. O fato de não ter passado político agrega credibilidade à sua pretensão.

Há, entretanto, candidatos que adotam esta campanha para a sua reeleição. São casos mais raros, mas existem. Este é o caso do comercial de campanha do senador Rick Santorum, do estado da Pennsylvania, nos EUA, na eleição de 1992. Ele se apresentou como se fosse um “outsider”, alguém muito diferente da “manada” de candidatos buscando reeleição, embora estivesse no exercício do mandato de Senador. Foi um comercial “anti-Washington” no qual ele se apresentava como um virtuoso Washington “outsider” que estava dentro do Congresso.

O comercial

O comercial abre com a imagem do edifício do Capitólio, sede do Congresso americano. Simultaneamente ouvem-se ruídos de teletipos em background como se fosse a abertura de um programa de notícias. O locutor em off diz o seguinte: “Rick Santorum foi advertido pelos líderes do Congresso que o deputado de primeira eleição deve ser visto, mas não ouvido”.

Corta para a câmera que focaliza a frase em letras brancas sobre um fundo negro: “Visto mas não ouvido”.

No comercial, Rick Santorum se apresentava como um virtuoso Washington “outsider” que estava dentro do Congresso.

Na sequência, novas frases são apresentadas na tela: “Santorum apresenta lei de assistência médica; Rick Santorum exige que Congresso torne público os valores dos cheques dos congressistas; Santorum introduz legislação para poupar os contribuintes de ter que contribuir com 10 bilhões em impostos; Santorum exige imediata e completa divulgação sobre verbas secretas do Congresso”.

Enquanto as frases vão se sucedendo, o locutor em off faz os seguintes comentários: “Santorum propôs a lei de assistência médica. Rick Santorum exige a imediata revelação dos valores pagos aos congressistas Santorum propõe lei que vai evitar que os contribuintes paguem 10 bilhões de dólares em impostos. Santorum exige pronta e completa divulgação das verbas secretas do Congresso. O que os líderes do Congresso não pensaram é que Rick Santorum não dá importância para o que eles dizem, ele não os ouve. Ele ouve você. Junte-se à luta por melhor governo. Vote em Santorum para o Congresso”.

Na tela aparecem as frases: “Junte-se à luta, Santorum para o Congresso”.