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A política como espetáculo

Além do poderoso arsenal de recursos e técnicas publicitárias, o marketing político possui a sua reserva especial de “truques”, lances e estratagemas para uso em situações especiais. Eles representam aquela área cinzenta, onde a ânsia de ganhar e aumentar o seu poder, ou ainda, de evitar as acusações, ataques e críticas contundentes, induz à adoção de práticas pouco ortodoxas – para ser ameno – em relação à verdade e à própria autenticidade da democracia.

Estes “truques” vão desde a inofensiva distorção de fatos em favor da versão que favoreça ao político até o limite da manipulação de uma população por motivos políticos.

Nos regimes totalitários, onde o Estado produz ou controla os veículos de comunicação de massa, penetra as organizações sociais intermediárias (entre a família e o Estado), com seus agentes, gera a atomização da vida individual, e, por via da negação dos direitos e garantias individuais, cria uma condição social de permanente temor e insegurança, não é tarefa muito difícil usar o instrumental e os recursos da publicidade para manipular uma população.

homem vendado e amordaçado

Nos regimes totalitários, existe a negação dos direitos e garantias individuais

A combinação da propaganda com a censura, assegura ao poder totalitário:

  • Absoluto controle sobre as informações que chegam ao cidadão;
  • A capacidade de direcionar a sua opinião no sentido desejado;
  • A manipulação de símbolos e crenças, de forma a associar àquelas opiniões um substrato de sentimentos e emoções, que confere a elas permanência e intensidade.

Nos regimes democráticos, entretanto, isto não deveria ocorrer. O pluralismo cultural e político, a garantia dos direitos individuais, a liberdade para buscar informações em diferentes veículos, livres da tutela ou censura do Estado, a existência e autonomia de um estrato, formado por organizações e associações intermediárias entre o indivíduo, seu mundo familiar e o Estado, deveriam se constituir num antídoto contra a manipulação política de uma população.

Na realidade, as modernas tendências da política nas mais avançadas democracias vêm demonstrando que a manipulação de uma população, sobretudo da parte dos governos, não só é possível como vem sendo praticada com preocupante frequência.

A adoção, por parte dos principais atores políticos, do conceito e da prática da “política como espetáculo”, criou as condições sociais que viabilizaram esta manipulação em escala societária.

A “política como espetáculo”, entretanto, não foi uma arbitrária criação de publicitários e políticos “maquiavélicos”. Ela corresponde ao tipo de sociedade gerada pela revolução nas comunicações e ao tipo de cidadão que a compõe.

A quantidade de informações que passou a ficar disponível para cada indivíduo, referentes à sua localidade, região, país e ao mundo, nos mais diferenciados campos do conhecimento, aumentou de forma exponencial.

No outro pólo, nem o dia ganhou mais horas, nem o tempo útil de uma pessoa para informar-se aumentou, em escala que sequer se aproxime daquela em que a quantidade de informações atingiu.

rapaz assistindo tv e comendo pipoca

Quem tem TV por assinatura perde horas zapeando entre todos os canais disponíveis

Atente-se para o fato singelo de que, para quem possui TV por assinatura, o ato de escolher o programa que vai assistir, zapeando entre os mais de 50 canais disponíveis, pode tomar 1 hora, se a pessoa gastar 1 minuto em cada canal. Tendo escolhido o programa desta forma, é muito provável que ao sintonizar o canal desejado o programa que escolheu já tenha terminado!

Entre esta massa de informações que cresce continuamente, de um lado, e o tempo útil do indivíduo para tomar conhecimento delas, que permaneceu o mesmo, de outro, originou-se um abismo intransponível.

No mundo da política, este abismo ainda é mais profundo, em razão do fato de que a política não é a preocupação e interesse mais importante para as pessoas. Muito ao contrário. O indivíduo gasta a maior parte do seu tempo útil em outras áreas: seu trabalho, família, lazer, descanso, saúde e seus problemas.

O tempo dedicado a se informar sobre política é o tempo que sobra da atenção que o indivíduo dedica ao seu mundo pessoal, familiar e associativo. Os veículos de comunicação social, de sua parte, passaram a lidar com esta realidade. Eles não se propuseram a modificá-la.

A divulgação da matéria política, portanto, somente receberia a atenção do espectador se se aproximasse, ao máximo, dos formatos consagrados de programação, isto é, aqueles que o espectador gosta e acompanha.

Assim, do mundo da cobertura criminal desenvolve-se o modelo de cobertura dos escândalos, dos conflitos políticos, das CPIs; da cobertura esportiva, o estilo de competição entre os adversários como uma “corrida de cavalos”; do reino da telenovela, a cobertura de situações políticas carregadas de melodrama; da apresentação de grandes eventos, a forma espetaculosa de cobrir sessões do Congresso, posses, coletivas; do “voyeurismo” em torno da vida dos artistas e pessoas famosas, a cobertura das curiosidades da vida dos personagens políticos, a cachorrinha do presidente Lula, o seu jogo de futebol, as camisetas de Collor, o rancho de Bush no Texas, seu quase tombo no patinete, etc.

Em outras palavras, para alcançar o cidadão, despertar seu interesse, transmitir mensagens a ele, provocar a sua identificação com as autoridades, a política tinha que se acomodar dentro do formato com o qual aquele indivíduo estava acostumado e em relação ao qual possui os códigos para entender e acompanhar.

A conclusão é, pois, auto evidente. A política tornou-se um espetáculo para ser assistido, valendo para ela as mesmas regras que valem para qualquer espetáculo.

No caso em que é o político quem produz o espetáculo: prévia divulgação, boas montagens, roteiros cuidadosamente elaborados, cenários atraentes, bons atores devidamente vestidos e maquiados, textos escritos por especialistas para serem lidos pelos atores, recursos audiovisuais, trilha sonora, cuidadosa iluminação e etc.

No caso em que o espetáculo é “patrocinado” pelo veículo, numa cobertura ao vivo: a busca do espetacular, do inusitado, do sensacionalismo (ao estilo das coberturas de desastres), a criação da intriga, a valorização do conflito entre os políticos, os flagrantes curiosos e embaraçosos, etc.

Em ambos os casos, a dimensão “espetáculo” se sobrepõe a qualquer outra consideração. Não há espaço (veículo), nem paciência (indivíduo) para uma análise mais objetiva, para uma discussão mais inteligente e informativa, para uma argumentação mais complexa.

Basta lembrar a estrutura dos debates eleitorais nas TVs e rádios para se confirmar esta afirmação. Tudo precisa ser dito em “soundbites” de alguns segundos. Esta é a disposição do veículo e a vontade (hábito) do espectador.

Foi a política como espetáculo que viabilizou a manipulação da população, numa democracia. Quem produz o espetáculo, se o fizer bem e agradar o público, pode conseguir manipular a população e conduzi-la na direção e rumo que deseja, pelo menos no curto prazo. E, como dizia Lord Keynes, “a longo prazo todos nós estaremos mortos…”.