Sob qualquer ângulo que se encare, política e guerra são duas atividades humanas muito próximas. Tornou-se clássica a frase sobre a guerra: “A guerra é a continuação da política por outros meios”, de Carl von Clausewitz (1780-1831), militar prussiano, historiador e teórico militar (Sobre a Guerra).

Carl von Clausewitz
Carl von Clausewitz

Se Clausewitz tratou da guerra como uma extensão da política, para Maquiavel, a política era indissociável da guerra. O príncipe, treinava para governar, adestrando-se nas artes da guerra, e a estratégia militar era também uma estratégia política.

Maquiavel, na sua obra e com bastante frequência, tende a assimilar a dimensão política na militar e as leis, no uso da força.

Veja-se a propósito o texto mais importante escrito por Maquiavel sobre as leis:

“Os fundamentos do poder de qualquer estado, seja ele novo, antigo ou misto, são as boas leis e as boas armas. Como não pode haver boas leis onde não há boas armas, e, onde há boas armas deve haver boas leis, eu não vou discutir leis, vou discutir armas.”(N.Maquiavel- Príncipe- Cap XII).

A guerra, no contexto histórico em que Maquiavel viveu, era guerra mesmo. Os principados italianos no período do renascimento frequentemente estavam em guerra entre si, além de lidar com a violência política internamente.

Neste ambiente social, segundo Maquiavel, o político lúcido deve ser capaz de prever, com a devida antecipação, aquelas situações de conflito que, mais cedo ou mais tarde, eclodirão como guerras.

Diante deste quadro, ele adverte que há duas maneiras de lidar com o conflito anunciado: “ganhar tempo” ou “tomar a iniciativa”. Usando o exemplo dos romanos ele dizia:

“Precavidos, os romanos conjuraram sempre os perigos antes que eles aumentassem, mesmo ao custo de uma guerra, pois sabiam que as guerras não se evitam adiando-as, e se forem adiadas, beneficiarão o adversário. Guerrearam contra Felipe e Antíoco na Grécia para não ter mais tarde que lutar contra ambos na Itália. Era fácil para eles evitar as guerras, mas não o fizeram, nem deram importância à antiga máxima dos sábio dos nossos dias de que “convém ganhar tempo…”

Busto de Maquiavel
Busto de Maquiavel

Maquiavel, escrevendo na Itália e para a Itália, não concebia como separar a guerra da política. A adaptação do pensamento político de Maquiavel, para os atuais regimes democráticos, depende, entretanto, de uma redefinição do seu conceito de guerra.

É preciso, então, ampliar-se o significado do que ele chama de guerra, para que a lição seja útil para a política que se pratica numa democracia.

O conceito de guerra para Maquiavel poderia então ser redefinido para a política numa democracia para algo como

“Um conflito político grave, radical e intenso que contrapõe dois adversários numa disputa decisiva (isto é uma disputa na qual o derrotado perde, além do poder, as condições de competitividade) na qual os concorrentes usam todos os meios possíveis, para derrotar e submeter seus adversários, à exceção do recurso aberto à violência.”

Portanto, o único meio ou recurso político com o qual uma democracia não pode conviver é a violência. Democracia é um sistema político que substitui o uso da força física por votos. Com ressalvas como essas, o pensamento de Maquiavel pode ser convertido do campo militar para o político, como se vê na seguinte advertência de Maquiavel, muito conhecida pela expressão: “Não se adiam guerras inevitáveis”.

Numa democracia há sempre muitos conflitos, a maioria dos quais pode e deve ser evitada.

Há entretanto também certos conflitos que são inevitáveis, porque :  (a) os adversários não admitem espaço para negociação e transigência; (b) a situação de conflito está estruturada sob a forma de uma relação de “soma zero”, isto é, o que um perde é exatamente o que o outro ganha; (c) seu desfecho é decisivo para o resultado da competição, e para o futuro dos combatentes.

Para esses casos a lição de Maquiavel é clara:

Tentar apaziguar o adversário, ”ganhar tempo”, são procedimentos arriscados porque, a qualquer momento, o adversário pode romper a trégua e assumir a ofensiva.

Assim, é preferível preparar-se por antecipação, escolher o melhor momento, municiar-se dos elementos necessários para vencer e, na ocasião certa tomar a iniciativa e assumir a ofensiva.

O mesmo procedimento pode ser usado também para a aplicação do pensamento militar de Sun Tzu à política.

arte da guerra

Sun Tzu (500?AC-400AC?) é considerado o autor da Arte da Guerra, obra que continua a exercer influência nos dias atuais. Assim como o Príncipe de Maquiavel, e outras obras políticas clássicas, são feitas incontáveis novas edições a cada ano.

Durante os séculos XIX e XX a Arte da Guerra tornou-se muito popular no Ocidente e foi largamente utilizada pelos exércitos ocidentais daquele período. Para se ter uma idéia da atualidade desta obra, a Arte da Guerra de Sun Tzu, ainda hoje é leitura obrigatória da Academia dos Fuzileiros Navais dos EUA.

Mas também é utilizada no mundo político. Raros são os cursos de estratégia política que não usam o texto de Sun Tzu como leitura programada, ou como fonte de instrução.

Para Sun Tzu a guerra é, sobretudo um confronto entre dois generais.

Para tal, ele supõe que o general conta com o respaldo e apoio do seu soberano e o absoluto comando sobre seu respectivo exército. Por isso, depois de enumerar os quatro fatores para ganhar uma batalha, no quinto ele adverte:

“Vencerá a batalha aquele que tiver capacidade militar e não sofrer a interferência do seu soberano”

As lições de Sun Tzu, assim como os conselhos de Maquiavel para a guerra, quando redefinidos para uso numa democracia, assumem uma natureza política. Atente-se, neste sentido, para o que Sun Tzu tem a dizer sobre vitória e derrota, e sobre estratégia e tática:

“Proteger-nos contra a derrota está em nossas mãos, mas a oportunidade de derrotar o inimigo é proporcionada pelo próprio inimigo.”

Isto por quê:

“Vence a batalha quem não comete erros. Não cometer erros é o que estabelece a certeza da vitória, pois significa derrotar um inimigo que já está derrotado” (… porque ele cometerá os erros)

O grande objetivo, entretanto, não pode ser não errar nunca. Erros acontecem e são inevitáveis. O que se busca é errar pouco, errar em questões menos importantes e, sobretudo, manter sempre a possibilidade de corrigir o erro cometido.

Sobre a importância da estratégia, Sun Tzu menciona:

“Todos podem ver as suas táticas, mas assegure-se que ninguém possa descobrir a sua estratégia.”

Em outras palavras, as táticas sempre são visíveis e poderão ser compreensíveis para seu adversário. Elas sempre são ações de operacionalização de uma estratégia.

Não se chega, porém, ao conhecimento de uma estratégia, apenas pelo entendimento das táticas usadas. O que o general e o político não podem deixar acontecer nunca é que o adversário venha a conhecer a sua estratégia.