O comercial Elvis foi realizado em 1992, por Russ Feingold, candidato ao Senado dos EUA pelo estado de Wisconsin. A peça era insólita e inusitada e tinha como objetivo auto imunizar-se contra ataques futuros. Não se tratava de uma imunização para um ataque específico, mas para qualquer ataque.

Em outras palavras, a peça buscava abalar, por antecipação, a credibilidade de seu adversário, para efeitos de ataques à sua pessoa. A peça é caracterizada como insólita e inusitada porque não é nada comum agir-se desta forma. Como regra, cada campanha tende a começar pelo propositivo, e somente adota a tática de atacar ou de defender-se quando o(s) adversário(s) dá razões para tal.

Feingold estava disputando a eleição primária no seu estado e seu principal adversário era o senador Robert Kasten, que concorria à reeleição. A tentativa de auto-imunização é uma forma de pré-determinar o comportamento do adversário. Equivale a dizer aos eleitores: ele vai me atacar, mas quando o fizer não dêm ouvidos ao que ele disser.

Russ Feingold
Russ Feingold, candidato ao Senado dos EUA usou o comercial Elvis para se auto imunizar contra ataques futuros

Como a auto-imunização já traz embutida uma crítica ao adversário, é óbvio que ele terá que adotar uma providência para defender a sua credibilidade, que será necessariamente um ataque. Fechado assim o círculo, o comercial de auto-imunização funciona como “uma profecia que se auto-cumpre”, isto é, o mero fato de ela ter sido feita cria as condições para que o comportamento que ela prevê ocorra.

O comercial

O comercial abria com Feingold sentado à mesa com vários jornais espalhados sobre ela. As manchetes dos jornais eram: “Azarão Feingold tenta aproximar-se dos eleitores, Bob Kasten vem fazendo campanha suja há muito tempo, Kasten defende suas táticas de campanha”.

Enquanto a câmera passeia pelos jornais, ficando-se em close nas manchetes, aparece Feingold falando o seguinte: “O azarão candidatando-se ao Senado dos Estados Unidos… Se quisermos que as coisas mudem por aqui, este homem, o atual senador Robert Kasten, precisa ser derrotado em novembro. Eu prefiro fazer uma campanha positiva, mas o senador não. É por isso que os que apóiam Kasten esperam que eu perca. Vocês sabem que não há nada escrito sobre Russ Feingold para atacá-lo. Então a única saída é inventar alguma coisa contra ele. Mas vocês, eleitores, sabem muito bem que não se pode acreditar em tudo que se lê”.

Ao dizer a última frase Feingold levanta um cartaz onde está escrito: “Elvis apóia Feingold”.

Ao mencionar o “apoio” de Elvis Presley, morto já há vários anos, Feingold buscava um exemplo absurdo, absolutamente não crível, para caracterizar, por antecipação, os ataques que esperava.

Robert Kasten
Robert Kasten era o adversário de Russ Feingold ao senado norte-americano

O “enredo” do comercial era claro. Não há nada para falar dele, e muito para falar de seu adversário; como não há nada contra ele, seu adversário (“que faz campanhas sujas”) vai “inventar” alguma coisa para atacá-lo; e esta “alguma coisa” será tão mentirosa e falsa quanto um eventual anúncio de que Elvis Presley o está apoiando.

O “enredo”, portanto, “faz a profecia”, de forma que, quando ela ocorra, os eleitores a tratem da mesma forma que tratariam o anúncio do apoio de Elvis. Como era esperado, Kasten o atacou, usando um sósia de Elvis para denunciar Feingold, que por sua vez reatacou, com a fórmula clássica do “eu não disse” que ia acontecer, relembrando o comercial da “auto imunização”.

Há dúvidas entre os estudiosos do assunto sobre até que ponto auto imunização funcionou para Feingold. Mas, o final de história é que ele acabou se elegendo para o Senado.