No início de dezembro de 1513, Maquiavel concluiu a redação do Príncipe, sua mais importante obra e o mais influente livro sobre política na história ocidental.

  • Quem foi Maquiavel?
  • Por que o Príncipe continua, cinco séculos mais tarde, atual e controvertido?
  • Qual é o seu pensamento político?
  • Seria Maquiavel um maquiavélico?

“Vivemos à sombra de um florentino.”

Maquiavel nasceu em 3 de maio de 1469 em Florença, filho de Bernardo Maquiavel e de Bartollomea Nelli. Seu pai era advogado e, embora não fosse rico, possuía uma condição econômica satisfatória, tendo deixado bens que permitiram a Maquiavel, mesmo na fase mais difícil de sua vida, garantir-se com uma honrada subsistência.

Nada se sabe sobre sua infância e juventude. Supõe-se que, além do Latim, devia conhecer o grego e que tivera uma boa formação intelectual.

Em 1498, com 29 anos, ingressa no serviço público da República de Florença (instaurada após a derrota e expulsão dos Médicis) e um mês após a execução pública do Frei Girolamo Savonarola, que comandara as últimas décadas da política de Florença, com seu carisma, seus sermões, suas profecias, seus seguidores e suas ações.

Savonarola aparecerá no Príncipe no trecho em que Maquiavel discorre sobre o “profeta armado e o desarmado”. Ele será o exemplo vivo, e de lembrança recente, dos dilemas que cercam os visionários na política.

Assumiu Maquiavel o cargo de Chanceler para assuntos externos e militares, diretamente subordinado ao Conselho dos Dez, órgão de governo da república florentina. Nessa função Maquiavel permaneceu por 15 anos, tendo viajado em missão por praticamente todas as principais cidades italianas, junto ao papado, ao Imperador, a lideranças políticas, e junto a cortes europeias, especialmente a francesa, unida por aliança com Florença.

Também se encarregou da organização do exército, tarefa em que criou uma milícia de cidadãos, já que havia aprendido para sempre a ineficácia das tropas mercenárias no cerco da cidade de Pisa, matéria tratada no capítulo XII do Príncipe.

Esta fase da vida de Maquiavel se encerra com a escolha do Cardeal dela Rovere como Papa Júlio II. Ligado aos Medicis o Papa consegue derrotar a república florentina e reinstalá-los no poder (1512).

Um dos imediatamente demitidos foi Maquiavel. O novo governo o privou dos seus cargos e o manteve confinado dentro do território da República.


No ano seguinte Maquiavel, cujo nome constava de uma lista de suspeitos de conjura contra o novo governo foi preso com grilhões amarrados aos pés, e torturado no pêndulo com seis trechos de cordas. O relato de sua prisão dá conta de que suportou com coragem e com dignidade a tortura. 

O filme “Goya’s ghosts”, com Javier Barden e Natalie Portman, dirigido por Milos Forman, cuja trama ocorre na Espanha pouco antes e depois da invasão de Napoleão, contém cenas de tortura por pêndulo determinada pela inquisição

Tendo apenas 43 anos, mas com larga experiência nas atividades de governo; com enorme conhecimento das relações externas na Itália e na Europa; tendo acumulado um lastro de relacionamentos com autoridades, líderes, monarcas, papas, imperadores, reis os quais submetia à sua penetrante análise sempre em busca da compreensão da natureza do poder; Maquiavel encontra-se desempregado, sem poder usar o vasto conhecimento que acumulara.

Inicia-se então a fase final de sua vida que será dedicada a escrever suas obras políticas, e suas cartas.

Ele descreve para Francisco Vetttori, embaixador de Florença junto ao Vaticano, como era sua vida no exílio de San Casciano:

 Relato de sua vida em “prisão domiciliar”

“Eu vivo, portanto, em minha casa de campo. Desde minhas desventuras (…) não passei mais que 20 dias em Florença. Levanto-me com o sol e vou até meus bosques (…) e passo a matar o tempo com meus lenhadores (…)

Caída a noite volto para casa. Penetro em meu gabinete e já na soleira da porta, tiro a roupa usada todos os dias, coberta de lama e lodo, para vestir-me com os hábitos de corte real e pontifícia: assim, dignamente ataviado, penetro nos antigos recintos dos homens da Antiguidade. Afavelmente acolhido por eles sacio-me com o alimento que oé por excelência o meu e para o qual nasci. Nesse encontro, não sinto vergonha alguma em falar com eles, em interrogá-los sobre os motivos de suas ações; e eles, em virtude de sua humanidade, me respondem. E assim, pelo espaço de quatro horas, não sinto o menor aborrecimento, esqueço todos os tormentos, deixo de temer a pobreza, e a própria morte não me atemoriza mais.”

Nessa mesma carta a Vettori ele apela para que o ajude a conseguir um trabalho junto aos Medici, mesmo que seja apenas para “rolar uma pedra”:

Maquiavel pede a Vettori que interceda por em um emprego junto a Lorenzo de medici.

“Além disso, desejo vivamente que os Medici se decidam a empregar-me, mesmo que eles tivessem de começar por me fazer rolar uma pedra(…). Quanto à obra referida (O Príncipe) se tão somente a lessem, veriam que os 15 anos que devotei ao trato dos negócios de Estado, eu não passei dormindo nem brincando. E todos deveriam empenhar-se em se servir de um homem cheio de uma experiência que nada lhes custou.” 

Neste ano de 1513, um ano após a derrota da república que servia, ele escreve o Príncipe e dedica-o a Lorenzo de Medici, numa tentativa frustrada de convencê-lo a recontratá-lo, como revela em sua correspondência.

Trecho da dedicatória do Príncipe a Lorenzo

“No meu desejo de oferecer à Vossa Magnificência um humilde testemunho de minha devoção, não encontrei entre minhas posses nada que eu aprecie tanto ou valorize tanto como o conhecimento das ações dos grandes homens que eu adquiri na longa experiência que tive com os acontecimentos contemporâneos e com um constante estudo do passado. (…) assim sendo, se V. Magnificência dignar-se a olhar, do alto de sua elevada posição para minha humilde condição perceberá o quanto sofro, com os grandes e imerecidos castigos de um destino cruel.”  

Escritório de Maquiavel no Palazzo della Signoria ficava na Esquina da esquerda da fachada, próxima à fonte de Netuno

De 1513 até sua morte em 1527 ele produz suas obras políticas: O Príncipe, A Arte da Guerra, Os Discursos sobre os primeiros dez livros de Tito Lívio e a História de Florença.

Ao fim da vida uma ironia cruel. Em 1527 os Medici são derrotados e a república e o governo democrático são restaurados em Florença. Maquiavel imediatamente se dirige à Florença, convicto de que o novo governo vai reinstalá-lo no seu cargo de secretário. A essa altura o Príncipe, que circulava em versões manuscritas, assustara os poderosos. A obra prima de Maquiavel iniciava, 14 anos após a publicação, sua trajetória secular como obra subversiva.