A abertura deve buscar os seguintes objetivos:

  1. Captar a atenção do ouvinte;
  2. Despertar a sua curiosidade sobre o que você vai falar;
  3. Introduzir a temática do discurso. Se possível, deve ser formulada numa frase forte, elegante, e, em consequência, memorizável pelos ouvintes.

Como disse Mário Ferreira dos Santos, em sua obra “Técnica do Discurso Moderno” (Editora Logos – São Paulo – 5ª. Edição – 1960), a seguir citada apenas por seu título, “a habilidade nos exórdios é típica dos grandes oradores”.

Não vejo, pois, melhor forma de ilustrar praticamente este princípio que rege a escolha da abertura do discurso (exórdio) do que apresentar exemplos que se tornaram clássicos de grandes oradores da cultura ocidental.

Abertura “agressiva” perante um auditório simpático

“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?! Até quando este teu furor nos perturbará?! Até que ponto vai tua descontrolada audácia?!” (Cícero)

“Tudo, na Bahia, é grande, tudo, menos os que a governam. “ (Ruy Barbosa)

Convocação para o sacrifício

“Nessa crise eu espero que a Casa me perdoe por não estender-me por muito tempo hoje, na minha fala. Eu direi à Casa o mesmo que eu disse a aqueles que integram este governo: Eu nada tenho a oferecer-vos senão sangue, sacrifícios, suor e lágrimas. “ (Churchill)

“Há 87 anos, nossos pais criaram neste continente uma nova nação, concebida em liberdade e dedicada ao princípio de que todos os homens são criados iguais. (…). Agora estamos em plena guerra civil, sendo testados, se aquela nação, ou qualquer outra assim concebida e assim dedicada, é capaz de resistir e sobreviver. “ (Lincoln)

Abertura dramática: o discurso de quem vai morrer

“Minha voz, que tantas vezes se fez ouvir em prol da causa do povo para apoiar e defender seus interesses, não terá problema de repelir a calúnia. Os covardes que me caluniam ousariam me atacar frente à frente? Que se mostrem, e eu os cobrirei de ignomínia, do opróbio que os caracteriza. Eu já disse e repito: meu domicílio em breve será no Nada, e meu nome estará no Panteon. Minha cabeça aqui está! Ela responde por tudo! A vida me pesa, e se faz tarde a minha liberação. “ (Danton)

“Num Tribunal, como na guerra, nem eu nem ninguém deve usar suas artimanhas para escapar da morte a qualquer custo. Em qualquer tipo de perigo, há sempre muitos meios de escapar à morte, se você for suficientemente sem escrúpulos para não ser fiel a nada nem a ninguém. “ (Sócrates)

Reação imediata a um ataque

“Ontem, 7 de dezembro de 1941 – uma data que viverá na infâmia –, os Estados Unidos da América foram súbita e deliberadamente atacados pelas forças aéreas e navais do Império do Japão. “ (Franklin Roosevelt)

Abertura dramática: o réu torna-se o acusador

“Sr. Presidente, impedido de votar, estou no dever de depor. Não como acusado, porque não vejo acusação digna de honesta consideração. Até agora tenho ouvido apenas as razões do lobo, de uma alcateia faminta, cujos argumentos La Fontaine tornou clássicos. Venho a esta comissão como testemunha de um tempo de subversão de valores, no qual, como na sátira de George Orwell, fala-se em liberdade para matá-la, em democracia para destruí-la, em legalidade, para negá-la em sua própria essência. “ (Carlos Lacerda)

Abertura grandiosa: o anúncio de um novo tempo

“Celebramos hoje não a vitória de um partido, mas a comemoração da liberdade, simbolizando um fim, assim como um começo; significando renovação assim como mudança. (…) que a mensagem se espalhe, deste tempo e lugar, para amigos e inimigos, que a tocha passou para uma nova geração de americanos nascidos neste século, temperados pela guerra, disciplinados por uma paz dura e amarga, orgulhosos da sua herança e que não está disposta a assistir ou permitir que ocorra a gradativa destruição destes direitos humanos aos quais esta nação foi dedicada e em relação aos quais nós estamos comprometidos hoje, na nossa casa e no resto do mundo. “ (John Kennedy)

Abertura poética e grandiloquente, apelo à Utopia

“Ainda que enfrentemos as dificuldades de hoje e de amanhã, eu tenho um sonho. Eu ainda tenho um sonho. Eu tenho um sonho no qual vejo que um dia esta nação se levantará e cumprirá o seu princípio mais importante: ‘Nós acreditamos que estas verdades são auto evidentes, que os homens são criados iguais pelo seu Criador’. Eu tenho um sonho. Um sonho de que em algum dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos escravos e os filhos dos donos de escravos estarão sentados na mesa em que todos são irmãos. “ (Martin Luther King Junior)

Abertura cautelosa para um auditório hostil: o orador a milímetros da vaia ou da agressão

“Amigos, romanos, cidadãos dêm-me seus ouvidos.

Vim para enterrar Cesar, não para louvá-lo. 

O bem que se faz é enterrado com os nossos ossos. 

Que seja assim com Cesar. 

O nobre Brutus disse a vocês que Cesar era ambicioso. E se é verdade o que disse, a falta era muito grave, e Cesar pagou por ela com a vida, aqui, pelas mãos de Brutus e dos outros. 

Pois Brutus é um homem honrado, e assim são todos eles, todos homens honrados.

Venho para falar no funeral de Cesar. Ele era meu amigo, fiel e justo comigo. Mas Brutus diz que ele era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Ele trouxe muitos prisioneiros para Roma que, para serem libertados, encheram os cofres de Roma. Isto parecia uma atitude ambiciosa de Cesar? 

Quando os pobres sofriam Cesar chorava. Ora a ambição torna as pessoas duras e sem compaixão. 

Entretanto, Brutus diz que Cezar era ambicioso. E Brutus é um homem honrado. “ (Marco Antônio in Julius Ceasar – Shakespeare)

Abertura pela excitação da curiosidade

 “Porque nos reunimos? Para afirmar… E o que afirmamos? Uma homenagem. Mas quem pressuroso acode a recebê-la? Ninguém. “ (Basílio Machado – O chicote e a escravidão)