A política lida com um valor que é muito cobiçado: o poder.

No interior do mundo político encontram-se os poderosos, pontos focais das atenções, dos agrados, da bajulação, da busca de acesso e proximidade, tanto pela capacidade de usar seu poder para gratificar, escolher, promover, prestigiar, como para prejudicar, perseguir, punir, excluir. Para a maioria das pessoas — em todos os tempos e lugares —, a bajulação, o elogio e a adulação são considerados o caminho mais curto e seguro para chegar ao coração do poderoso.

A importância da função de governar, as responsabilidades indelegáveis e os riscos pessoais e políticos do governante legitimam aquela cobiçada condição superior além da correspondente deferência e respeito com que são tratados.

A bajulação e a adulação são as caricaturas das atitudes cívicas e viris de consideração, respeito e deferência para com a autoridade.

Maquiavel, encarando o problema do ângulo do governante, define como “uma peste”: “Refiro-me aos aduladores, tão abundantes nas cortes; porque tanto compraz aos homens serem elogiados, e de tal forma se enganam, que dificilmente se defendem desta peste”. (O Príncipe, cap. XXIII)

O fato é que, como diz Maquiavel, “compraz aos homens serem elogiados”. Como tal, não há como ignorar que são os poderosos, as autoridades, que geram os aduladores.

Fossem eles mais resistentes e indiferentes às adulações, elas não seriam praticadas com tanta frequência. O são porque, por certo, produzem os resultados desejados.

Esta é uma das grandes lições de Maquiavel: advertir o príncipe (governante/autoridade) para os riscos de ceder à tentação de cultivar a adulação em torno de sua pessoa. Ela é um daqueles doces venenos que o governante gosta de ingerir.

O cardeal Mazarin, sucessor de Richelieu na Corte Francesa, ao dar conselhos aos aduladores, pode servir de contraponto ao texto de Maquiavel.

Pois Maquiavel aconselha o príncipe, e Mazarin os aduladores: “Fala sempre com um ar de sinceridade, faz crer que cada frase saída de tua boca vem diretamente do coração, e que tua única preocupação é o bem comum. Afirma, além disso, que nada te é mais odioso que a bajulação. (…)… exercita-te em simular cada um dos sentimentos que pode ser útil manifestares, até estares como impregnado deles. Não mostres a ninguém teus sentimentos reais. Disfarça teu coração como se disfarça um rosto. Que as palavras que pronuncias, as próprias inflexões de tua voz, participem do mesmo disfarce. Jamais esqueças que a maior parte das emoções se leem no rosto.”
(Breviário dos Políticos — Cardeal Mazarin — apresentação de Bolivar Lamounier).

Como disse antes, para Maquiavel, a bajulação é uma “peste”. O governante prudente sabe que a maioria dos elogios que recebe são falsos — atos de bajulação interessada. Mais ainda, seguindo o conselho de Maquiavel, ele procurará evitar que se crie, em torno de sua “corte”, uma atmosfera de bajulação.

“O único modo de evitar as bajulações consiste em que as pessoas entendam que não o ofendem por dizer-lhe a verdade.”

Mas, atenção, Maquiavel apressa-se a alertar: “Entretanto, quando todos podem dizer-te a verdade perderão o respeito por ti. O Príncipe prudente deve escolher homens sábios que dele tenham a permissão de dizer a verdade, mas somente a respeito daquilo que lhes é perguntado. (…) O Príncipe deve aconselhar-se sempre, mas somente quando deseje e não quando os outros queiram. Convém que se lhes tire o hábito de dar conselhos que não foram solicitados. Mas, ao mesmo tempo, pedir conselhos quando necessite, sem impor restrições, e ouvir com muita paciência e atenção as respostas que seus conselheiros dão às suas perguntas, para que a perturbação que o respeito impõe não impeça nenhum deles de expressar suas opiniões”.