Os principados de que se conserva memória, têm sido governados de duas formas
diversas: ou por um príncipe, sendo todos os demais servos que, como se fossem
ministros por graça e concessão próprias, ajudam a governar o Estado, ou por um
príncipe e por barões, os quais, não por graça do senhor mas por antiguidade de
sangue e poder, têm aquele grau de ministros. Estes barões têm propriedades,
tradição e súditos próprios que os reconhecem por senhores e a eles dedicam
natural afeição.

Os exemplos dessas duas espécies de governo são, nos nossos tempos, o Turco e o
rei de França. Toda a monarquia da Turquia é dirigida por um senhor: os outros
são seus servos. Mas o rei de França está em meio a uma multidão de antigos
senhores que, nessa qualidade, são reconhecidos pelos seus súditos e por eles
respeitados: têm as suas preeminências e não pode o rei privá-los das mesmas
sem perigo para si próprio. Quem tiver em mira conquistar um ou outro desses
governos, encontrará dificuldades para conquistar o Estado Turco, mas uma vez
vencido encontrará grande facilidade para conservá-lo. Ao contrário, encontrar-se-á em todos os sentidos maior facilidade para ocupar o Estado da
França, mas grande dificuldade para mantê-lo.

É sinal de prudência e sabedoria, um príncipe que decide conquistar uma cidade,
derrotando seu governo pelas armas, pensar sempre se suas ações irão tornar
mais fácil ou mais difícil a manutenção do poder; e, evitar sempre que possível
aquelas ações que tornarão mais difícil sua permanência no poder.

Antes de tudo deve o príncipe se acautelar para o que parece fácil de realizar. Como alertei várias vezes é preciso estar atento para não confundir uma contradição
de linguagem com uma contradição política: muitas vezes o que é fácil de
conquistar é difícil de manter e o que é difícil de conquistar é fácil de
manter.

Blog do MaquiavelTextos escritos pelo prof. Francisco Ferraz nos quais um fictício Maquiavel responde dúvidas, questões e sentimentos que sua obra “O Príncipe” causou em quem a leu, e na quase totalidade o criticam por sua concepção negativa da natureza humana e sua brutalidade e amoralismo na política.