Resolvi escrever esta pequena e despretensiosa pequena obra por causa de uma situação que não previ, com relação ao livro O Príncipe que escrevi e dediquei a Messer Lorenzo de Medici, como uma homenagem a um grande homem, feita em vida.

A situação imprevista e não esperada por mim foi a maneira como minhas observações sobre príncipes e principados, sobre reinos e repúblicas foram recebidas por muitos que as leram e que passaram a me condenar como ímpio, ateu, brutal, sem princípios, cínico e outras expressões semelhantes.

Embora uma verdadeira tormenta tenha caído sobre minha singela obra nela eu não disse nada muito além do que se ouve nas ruas e conversas em Florença, Milão, Roma, Veneza, Nápoles e outras cidades da Itália; nela não descrevi nada que fosse estranho aos nossos governantes e mesmo altas autoridades de outros países como a França e a Espanha.

Não fui eu quem inventou o salão de cadáveres de inimigos que o rei Ferrante de Nápoles mantinha em seu palácio e apresentava aos visitantes; também não fui eu quem, para anular o casamento da filha Lucrezia urdiu contra seu adversário, como fez o Papa Alexandre VI a Giovani Sforza de Pesaro a maldosa acusação de que seu casamento não se havia consumado porque ele era impotente; menos ainda fui eu quem, em frente ao Castelo de Forli, levantando a saia e mostrando o sexo gritava aos que sitiavam o castelo e torturavam à sua vista seu filho que: “podiam mata-lo porque faria outro”; era a bela guerreira Caterina Sforza; ou, por fim que dizer de Oliverotto da Fermo que sendo órfão foi criado por seu tio Giovanni Fogliani que o encaminhou para a carreira militar. Já adulto avisou seu tio que ia visita-lo em Fermo. O tio feliz por receber seu sobrinho ofereceu a ele e seus auxiliares um jantar. Na conversa Oliverotto sugeriu que fossem para uma outra peça para poderem falar à vontade. Lá chegados vieram os soldados e mataram o tio Giovanni e todos os demais homens importantes da cidade que Oliverotto passou a governar.

Assim era a vida política na Itália onde nasci e vivi. Não me limitei a descreve-la apenas. Procurei, como fizeram os grandes e sábios historiadores de Roma, entender as razões, as ideias e os motivos que levavam os romanos a se comportarem daquela maneira. Ao descobrir as razões podia então entender quais suas ideias sobre a vida, a história e a própria natureza humana.

O mesmo fiz ao escrever sobre a política dos principados na Itália, seus principais políticos e militares, e o que considero minha mais útil descoberta, a própria natureza da política e como ela realmente acontece que é muito diferente de como a desejaríamos.

Blog do MaquiavelTextos escritos pelo prof. Francisco Ferraz nos quais um fictício Maquiavel responde dúvidas, questões e sentimentos que sua obra “O Príncipe” causou em quem a leu, e na quase totalidade o criticam por sua concepção negativa da natureza humana e sua brutalidade e amoralismo na política.