Louis XIV, o Rei Sol, o construtor de Versalhes, que reinou por 72 anos, tinha uma corte numerosa, composta de aduladores ambiciosos em busca do poder e da riqueza. Seu reinado foi esplêndido e em torno de sua pessoa construiu-se o “mais moderno” trabalho de produção de imagem do período pré-moderno.

Não surpreende, pois, a sua queixa. Nada era mais cobiçado, e com mais “engenho e arte” procurado pelos cortesãos, do que uma nomeação real. Era o símbolo do prestígio, provindo da única fonte inabalável de prestígio existente na França: o Rei. O problema que a citação de Louis XIV suscita, entretanto, não está limitado à sua época e à sua corte.

Ao longo do tempo, os mais diferentes governantes têm descoberto que o poder de nomear, o poder da “caneta”, gera mais descontentamentos do que satisfações. O poder de nomear implica no poder de escolher, o que, por sua vez, não pode ocorrer sem o exercício da exclusão.

Os 100 descontentes de Louis XIV são 100 amigos

Os cargos sempre serão em menor número que as ambições. Ambições, por sua vez, definem objetivos (cargos específicos), criam expectativas e usam os meios ao seu alcance para lograr sucesso. A escolha do governante, portanto, sempre vai frustrar mais expectativas do que gratificá-las. A questão é ainda mais delicada quando se considera que as pessoas que ambicionam os cargos são aliados e amigos do titular do governo. Em suma, os 100 descontentes de Louis XIV são 100 amigos, auxiliares ou aliados que se sentiram pessoalmente preteridos pelo chefe.

A exclusão tende a ser vivida dolorosamente como injustiça ou como uma desvalorização pessoal, frente a qual a oferta de outro cargo, como regra, não terá o poder de apagar aquele sentimento de desencanto e ressentimento que se instalou. De outro lado, o escolhido também fica numa posição muito peculiar.

Quanto mais disputado tenha sido o cargo para o qual foi nomeado, maior o preço que o governante teve que pagar, junto aos aliados e amigos, para nomeá-lo. Sua presença é a lembrança viva daquele preço: amizades que se romperam, intrigas, desentendimentos, pessoas ofendidas, novas “dívidas” políticas contraídas…

O “ingrato” de Louis XIV pode chegar a este sentimento em razão da insegurança que sente no cargo que conquistou. Cercado de rivais, consciente do custo pago pelo governante para nomeá-lo, ele permanece numa posição vulnerável, necessitando, periodicamente, de sinais de prestigiamento da parte do chefe, para manter-se. Como tal, busca respaldos fora da esfera de poder de quem o nomeou, para diminuir a sua insegurança.

Somente conquistará mais segurança e poder se conseguir respaldos externos que tenham o poder de influir junto ao governante. Ora, na medida em que busca reforço político fora do governo, torna-se menos confiável, sujeito a todo o tipo de desconfianças, e, no limite, um “ingrato”.

Nomear, como qualquer governante sabe, é um ônus político. Muitos governantes encontram enormes dificuldades para compor a sua administração em razão dos escrúpulos e bloqueios pessoais gerados pelo desejo de não se incompatibilizar com amigos e aliados. Esta fase acaba por retirar muito da alegria da vitória e do entusiasmo com o novo governo. Não se deve esquecer, entretanto, que há sempre mais “amigos” junto ao governante eleito, do que junto ao que perdeu a eleição. O problema está no fato de que você normalmente não conhece seus “amigos” tão bem quanto imagina.

Na hora de governar pessoas competentes são mais importantes do que amigos

Os “amigos” em geral vão concordar com você, mesmo que no seu interior discordem; seus “amigos” terão seus projetos pessoais que, na maioria das vezes, seguem rotas diferentes, quando não opostas aos seus; além disso tudo, seus “amigos” vão sempre exigir uma quota extra de paciência e tolerância com erros, que você não teria com pessoas escolhidas em função de sua qualificação pessoal.

Finalmente, o indivíduo que deve sua nomeação aos laços de amizade não se sente agradecido pelo ato. Você fez o que devia fazer. A satisfação inicial é logo substituída por sentimentos negativos que, pouco a pouco, vão crescendo dentro dele.

O favor que você lhe fez torna-se opressivo. A autoestima fica atingida: você o nomeou porque ele é um amigo, não porque você achava que ele merecia por seus méritos próprios. Esta é a “rota da ingratidão”. A relação vai se tornando mais distante, desconfianças são frequentes, e, quanto mais consideração você tiver com ele, quanto mais gestos de amizade você fizer, menos gratidão e reconhecimento você receberá.

É paradoxal, mas é real. Você não tem tantos amigos quanto imagina e nem eles são tão fiéis a você. Cuidado com os “amigos”, eles podem trai-lo mais facilmente do que você imagina. Governe com os mais capazes, sejam amigos ou não, e não se perturbe pela insatisfação dos amigos. Guarde os amigos para as situações de amizade pessoal e governe com os competentes.