Poucos erros em política têm consequências tão arrasadoras para uma candidatura como cair no ridículo. Poucas armas são tão poderosas como expor seu adversário ao ridículo.

Cair no ridículo, tornar-se objeto de zombarias e piadas é um tipo de falha que o eleitor não esquece e não perdoa. Mais que isto, é uma marca que “gruda” na imagem do candidato. Mesmo que tente apresentar-se com seriedade, na memória dos eleitores surge logo o “recall” (lembrança) do episódio que o ridicularizou.

O eleitor convive bem com o candidato/político brincalhão, alegre, recatado, sisudo, mal-humorado, e até mesmo o candidato esquisito (vale lembrar a figura de Jânio Quadros), mas não aceita o político que caiu no ridículo.

Há duas causas principais para um candidato cair no ridículo numa campanha eleitoral: por obra dele mesmo, por obra de seus adversários ou da mídia.

As duas são igualmente graves. A segunda faz parte do jogo e você deve sempre estar preparado para ela, mas a primeira – cair por obra própria – é inaceitável por ser fatal.

O candidato que, por sua própria ação, expõe-se ao ridículo, seja por seus comportamentos, declarações ou sua publicidade, oferece, aos adversários e eleitores, uma demonstração definitiva da sua desqualificação.

Ele é logo percebido como inexperiente, pouco inteligente, e ingênuo: “Se for tão desastrado, a ponto de cometer um erro como este durante a campanha, imagine-se o que fará se estiver no poder…”

O problema é que ninguém assume uma posição ridícula porque assim deseja. Por isso o título da coluna é “cair” no ridículo, cai-se no ridículo sem perceber e sem pretender e, quando se descobre, já é muito tarde e os adversários não vão perdoar.

Há candidatos “borderlines”, isto é, candidatos que conduzem sua campanha no estreito limite entre a esquisitice, o espalhafato e o ridículo.

Existem razões para o candidato situar-se nesta posição perigosa. Antes de tudo, um candidato procura chamar atenção sobre si e, nada melhor para destacar-se do bloco do que a adoção de um comportamento/estilo único, diferente dos demais. Sem dúvida ele vai conseguir atrair a atenção, mas sempre no limite de tornar-se ridículo, pouco sério.

Em geral, candidatos “populistas” seguem este caminho. Alguns atingem tal maestria neste estilo que chegam a conseguir expressivo sucesso. Collor foi um exemplo de candidato que obteve sucesso percorrendo este perigoso trajeto.

Como regra, entretanto, é sempre aconselhável evitar esses riscos. Vigora aqui o princípio geral do circo: “qualquer descuido é fatal ao artista

Um exemplo antológico, de ridículo provocado pelo próprio candidato foi dado pela infeliz campanha de Dukakis contra Bush em 1988, nos EUA.

Na ânsia por uma “photo op” Dukakis deixou-se filmar dirigindo um tanque de guerra. Conseguiu sua “photo op”, mas entregou à campanha de Bush a oportunidade de explorar o insólito, tratado como ridículo, do seu comportamento.

Que o Presidente fosse fotografado dirigindo um tanque, embora implicasse em riscos, podia ser defendido. Afinal, ele é o comandante em chefe das Forças Armadas.

Já um candidato, governador de estado, dentro de um tanque de guerra é outra realidade, que convida a outra percepção.

Desde logo cabe perguntar: que mensagem ele está querendo passar ao posar para aquelas fotos? Que é favorável à valorização dos militares? Que defende soluções militares para problemas políticos?

No caso de um candidato democrata, que se opunha ao programa militar do governo Reagan “Star wars” (o milionário plano defensivo para colocar mísseis em órbita) e que defendia, em matéria de política externa, posições mais moderadas que Bush, a foto não acrescentava nada à sua imagem, além de confusão.

Na realidade o que Dukakis pretendia mostrar é que ele era a favor de armamentos convencionais enquanto Bush defendia gastos para o desenvolvimento de armas nucleares. Esta é uma matéria muito séria que exige um tratamento correspondentemente sério. É matéria para diagnóstico objetivo, argumentação e apresentação de dados e, certamente não para uma “cena de efeito”, inconsequente e leve.

Supor que o eleitor ao vê-lo no tanque entenderia que buscava diferenciar sua política de defesa da de Bush é exigir demais do eleitor.

A confusão inicial foi rapidamente substituída pelo ridículo. Bush, na sua propaganda, explorou a imagem que, dentro do novo contexto em que foi apresentada, mostrava um Dukakis abobalhado, dentro de um tanque, enquanto o locutor informava aos eleitores que ele sistematicamente se opunha aos sistemas de defesa da nação que o governo propunha.

O comercial Willie Horton derruba Dukakis
O comercial Willie Horton derruba Dukakis

Numa campanha eleitoral, uma imagem pode ser mais forte que uma centena de discursos, como ficou evidenciado na peça “Willie Horton” usada pela campanha de Bush contra o mesmo Dukakis, na mesma campanha.

Seja cuidadoso com as imagens, reflita muito sobre as “photo ops” que lhe aparecem e tenha extremo cuidado quando sua publicidade se orientar para lances ousados, cenas de efeito, trocadilhos e lances insólitos. Além do risco de não ser compreendido pelos eleitores, você corre o risco maior dela ser mal compreendida, e depois ser ridicularizada por seus adversários.