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Campanhas para perder

campanhas para perder

O título deste texto é insólito, mas muito mais real do que se imagina. Há candidatos que estão predestinados para a derrota, por suas próprias características pessoais. São candidatos, cujos traços pessoais mais fortes afastam-no do eleitor, colidem, contrariam, quando não antagonizam, as disposições e sentimentos do eleitor.

Chega a ser um contrassenso que essas pessoas se disponham a ser candidatos e que, em número expressivo, efetivamente sejam escolhidos para tal, pelos partidos políticos.

Eles estão em todos os partidos, aparecem em todos os anos eleitorais, embora só muito raramente aconteça que algum deles vença a eleição.

A motivação para disputar a eleição provém, muitas vezes, de pressões de amigos ou colegas de partido, ou do sucesso pessoal na atividade privada, ou de uma alegada superioridade intelectual, social ou econômica, ou ainda de um otimismo ingênuo, uma ilusão poderosa, ou mesmo de um voluntarismo exacerbado.

Em todos os casos, entretanto, os argumentos que o levam a ser candidato conseguem ultrapassar a barreira da sua autocrítica.

Se gasta mais dinheiro e perde-se mais tempo em campanhas para perder, do que em campanhas para ganhar.

Essa é uma verdade que não decorre, exclusivamente, do fato de que há sempre mais candidatos que vagas, na luta pelas funções públicas e, como decorrência, há sempre mais derrotas que vitórias.

Ela se refere àquelas campanhas que nascem estigmatizadas por vícios de origem, que as impedem de tornarem-se competitivas e que as encaminham inevitavelmente para a derrota.

Parece um contrassenso, mas não é. A intenção de acertar (e, por conseqüência de ganhar) não é suficiente para suprir aquelas falhas e deficiências fatais, embutidas na candidatura e na campanha.

intenção é um ato de vontade individual. O resultado é um ato coletivo, produzido por milhares (milhões) de vontades individuais.

Entre uma e outro, desdobra-se, no curto prazo de alguns meses, a construção, gerenciamento e operação de máquinas políticas, montadas especialmente para disputar a eleição.

A campanha eleitoral como uma “máquina política”

Cada candidato monta a sua campanha, e a máquina que a executa, isto é, a organização mediante a qual, os recursos materiais e humanos que dispõe, são usados para produzir votos no dia da eleição.

Esse já é um desafio organizacional de tais proporções que é dificilmente alcançável, de forma satisfatória, pela maioria das campanhas. A maioria das campanhas eleitorais fracassa antes de começar, ao montar uma máquina de campanha ineficiente. Esta não é uma falha que deva surpreender, nem um desafio a ser subestimado.

Não basta ser capaz de conceber a máquina.

É preciso também escolher as pessoas certas para as funções respectivas, e ter a competência executiva para operá-la. Em outras palavras, é um desafio equivalente a financiar e organizar uma empresa, e produzir e comercializar a sua produção, num espaço de poucos meses.

Reduzida ao essencial, sua estrutura é basicamente a mesma para qualquer campanha. Entretanto, dependendo dos recursos com que conta e da qualificação dos que a operam, pode chegar a reunir milhares de pessoas, centenas de especialistas, e movimentar um volume de recursos financeiros extraordinário.

Sua função é claramente definida: produzir e sustentar uma candidatura, e conquistar os votos necessários para levá-la à vitória.

Cada candidato monta a sua campanha, e a máquina que a executa, isto é, a organização mediante a qual, os recursos materiais e humanos que dispõe, são usados para produzir votos no dia da eleição.

Convém, então, não esquecer as características básicas dessa organização:

  • Organização complexa
  • Metas definidas quantitativamente (votos necessários para vencer)
  • Prazo curto de funcionamento (período da campanha).

A máquina de campanha, como qualquer organização complexa, precisa construir a sua unidade, por meio de uma articulação harmoniosa entre diferentes setores, que respondem por diferenciadas tarefas de uma sofisticada divisão do trabalho.  Cada um desses setores é responsável por produtos que, por sua vez, se constituem em insumos indispensáveis para o produto final: os votos.

Assim, a qualidade do produto final depende, diretamente, da qualidade dos insumos do qual é feito. Na expressão do padeiro vencedor do prêmio da melhor “baguette” de Paris:

“Pour faire du bon, il faut partir du très bon”.

Isto é, para ‘fazer o bom’ é necessário usar materiais muito bons.

Tal qual uma “baguette”, ou qualquer produto humanamente construído, se se começar o trabalho usando recursos materiais e humanos deficientes não se chegará nunca ao nível bom.

Essa organização complexa equivale a uma empresa. Divide-se internamente em setores especializados, que se responsabilizam por diferentes tarefas como, por exemplo, os seguintes:

  • Captação de recursos (setor financeiro)
  • Produção de informações (setor de pesquisas)
  • Análise de informações e conteúdo da candidatura (estratégia)
  • Formatação e apresentação da candidatura (publicidade)
  • Comunicação do produto aos eleitores (mídias, trabalho de campo, ação do candidato, programas de radio e TV)
  • Escolha de alternativas e tomada de decisão (comando da campanha, estratégia)
  • Administração das atividades meio para colocar e manter o produto no mercado político (comando executivo operacional, coordenador de campanha).

Com exceção, então, apenas das campanhas muito modestas, feitas para eleitorados muito pequenos, o tamanho, custo, e complexidade da organização eleitoral será gritantemente desproporcional ao tempo em que vai operar.

Eleitorados a partir de 20.000 eleitores já demandam organizações de campanha razoavelmente complexas e onerosas.

Essa organização complexa – por si só um desafio de enorme proporção, para conceber, montar e financiar – vai operar no mais inóspito dos ambientes: a campanha eleitoral.

A campanha eleitoral ocorre num período de tempo muito reduzido (alguns meses); em condições extremamente competitivas, (nas quais é tão válido atacar os concorrentes, quanto promover o seu produto); em um ambiente de intensa tensão, nervosismo, incertezas e ansiedade; com um desfecho radicalmente resolutivo (pelo menos para cargos executivos) tudo isso em um único dia.

Em outras palavras, trata-se de uma situação extremamente favorável a decisões impulsivas, passionais, casuísticas e, hostil às decisões racionais, equilibradas e estratégicas.

Talvez seja interessante, por ilustrativo, comparar a campanha eleitoral com a situação de empresas competindo no mercado.

Contrariamente a essas, a organização eleitoral equivaleria a uma empresa que jogasse sua sobrevivência econômica numa única campanha de vendas, restrita a um único produto, e cuja venda fosse realizada num único dia.

Estaria assim sujeita à mais selvagem forma de competição que se pode imaginar. Não se trataria de ocupar um espaço no mercado, de deter uma fatia do mercado e continuar competindo.

Ou se ganha a competição, aufere-se os lucros devidos e, de modo excludente, coloca-se seu produto como único (por um período fixo de tempo – mandato), ou perde-se a competição, assume-se o prejuízo, liquida-se a empresa e retira-se o produto das prateleiras, pelo menos até a próxima campanha de vendas.

Por essas razões costuma-se dizer que as campanhas eleitorais são organizações que tendem para o caos. São como cavalos selvagens ou mal domados que, a qualquer momento, podem escapar do controle e sair em louca disparada.

Quem já participou de campanhas eleitorais há de se lembrar que, na medida em que a data da eleição se aproxima; e/ou que as pesquisas tragam más notícias; e/ou que a competição se acirre sob a forma de ataque; e/ou comece a faltar recursos indispensáveis; a atmosfera da campanha muda, tornando-se intensamente nervosa, internamente dividida, muito suscetível a atitudes passionais e impulsivas.

Nestes momentos está em curso uma dinâmica autodestrutiva, fácil de entrar, mas difícil de sair. O foco da campanha desloca-se do eleitor para a equipe, na busca de culpados e responsáveis pelos maus resultados; perdendo-se o precioso tempo de campanha em discussões estéreis e divisivas; tendo seu rumo pautado pelos adversários; tomando decisões impulsivas, emocionais e que resultam na fragilização do candidato e da candidatura.

Esta é a história das campanhas para perder, aquelas que fracassam antes de começar, em razão da montagem e operação de uma estrutura organizacional de campanha ineficiente, ou da escolha de uma equipe e/ou de um candidato “destinado à derrota”.

É fácil apontar o dedo acusador e imputar, à deficiente estrutura organizacional da campanha, a responsabilidade principal pelo insucesso eleitoral.

Como foi exposto, não há nada de fácil no desafio da montagem de uma estrutura de campanha moderna e eficiente.

Pelo contrário, trata-se de um desafio de grandes proporções, agravado, sobretudo pelo ambiente inóspito da disputa eleitoral, no interior do qual esta organização será concebida, criada e operada.