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Cícero: A primeira “Catilinária”

Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência
Frase inicial do discurso de Cícero

Ao reproduzir trechos do discurso In L. Catilinam Oratio Prima estamos diante do que certamente é um dos mais brilhantes discursos políticos de todos os tempos, e, sem dúvida, de enorme influência na política romana de sua época.

Socialmente, Roma atravessa uma crise de grandes proporções, em boa parte como resultado do sucesso de suas conquistas. O enorme afluxo de recursos, vindos de todas as partes do mundo, cria um capitalismo voraz, apoiado na grande propriedade, (que dizima a anterior estrutura baseada na pequena propriedade) no capital financeiro, com juros escorchantes, nos grandes fornecedores do exército romano, e na privatização da cobrança de impostos. Foi pronunciado por Marco Túlio Cícero, no Templo de Jupiter Stator, onde o Senado Romano estava reunido. Estamos no ano 63 AC. Esta é uma época de instabilidade política em Roma, embora de grande sucesso pelas conquistas de suas legiões, que já dominavam a bacia do mediterrâneo, e faziam suas incursões na África e Ásia.

A Roma desta época possui 400.000 cidadãos mobilizáveis, e apenas 2.000 proprietários. A proletarização do campo empurra para a cidade pessoas que não encontram o que fazer. No campo não mais podem trabalhar, porque, nas grandes propriedades trabalham escravos, que Roma possui em abundância.

Concentrados na grande urbe, esta massa de cidadãos romanos sem trabalho digno, arruinados, dedicam-se a assistir os espetáculos públicos (que por certos períodos ocorriam diariamente), ilustrados pela a famosa expressão panem et circenses (Pão e Circo), e, acima de tudo, lançar mão de um recurso que podia ser usado na luta pela vida: seu voto nos Comícios.

Politicamente, então, a Roma clássica, da Constituição Mista que Políbio analisou, onde as três formas tradicionais de governo se mesclavam e se equilibravam mutuamente – a realeza nos Cônsules, a aristocracia no Senado, e a democracia nos comícios da “plebe”- deixara de existir, e fora substituída por uma oligarquia poderosa, e uma plebe desenraizada, disponível para manipulação demagógica, e dependente de quem pagava mais por seus votos.

Salustio, o grande historiador romano, na sua obra Catilina, a guerra de Yugurta, encontrada intacta, apresenta para nós as dramatis personae deste episódio da história romana.

Catilina, nascido de nobre família, audaz, pérfido, tortuoso, apto a usar e abusar do fingimento e da dissimulação, ardente em suas paixões, eloquente, mas pouco inteligente, e muito corajoso. Seus aliados, segundo Salustio, os piores elementos de Roma. Senadores ambiciosos, alguns nobres, a juventude ociosa, ingênua ou decadente, mulheres como Sempronia, culta, devassa, desonesta, envolvida em assassinatos.

Sua massa de manobra, a plebe romana, sempre disposta a seguir um líder ousado, que se opõe aos dirigentes e aos ricos, e que lhes promete vantagens. Seu programa– Catilina lhes promete a todos a abolição das dívidas, a proscrição dos ricos, dos magistrados, a liberdade de pilhagem dos bens dos inimigos, etc.

Cícero, em seu discurso, desmarcara Catilina que decide fugir de Roma

A conspiração de Catilina é uma reunião de rancores, ambições, e desejo de vingança. É também, não se pode ignorar, a expressão de muitas reivindicações, nascidas da opressão e da miséria. Derrotado na eleição para o Consulado, Catilina decide lançar sua ofensiva, começando pela tentativa de assassinato de Cícero em sua própria casa, que Cícero, alertado, consegue evitar.

Desmascarado por Cícero no seu discurso, Catilina decide fugir de Roma para unir-se ao exército de Manlio, deixando seus asseclas com a tarefa de provocar o caos na cidade com incêndios, assassinatos e pilhagens, enquanto ele com Manlio, e seu exército, se dirigiriam para Roma. Os planos de Catilina são frustrados pelas providências tomadas por Cícero, e Catilina é derrotado em Roma e morto em Pistóia, depois de combater valentemente.

In L. Catilinam Oratio Prima” (1a. Catilinária)

“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?! Até quando este teu furor nos perturbará?! Até que ponto vai tua descontrolada audácia?! Será que não te intimidam a guarda noturna do Palatino, a vigilância urbana, o temor da reação do povo, o consenso de todos os homens bons, nem mesmo o ambiente do Senado, e os olhares dos senadores?!

Não vês que todos já têm conhecimento de tua conspiração?!

Julgas que alguém aqui ignora o que fizeste ontem à noite, e na noite anterior, onde foste, com quem te encontraste, o que deliberaram?!

Ó tempo, ó costumes (“O tempora o mores”). O Senado tem pleno conhecimento, o cônsul tudo vê, e assim mesmo Catilina, vives.

Vives? Muito pior, vens ao Senado e participas de uma reunião sobre assuntos públicos. Assinalas e designas, pelos olhos, aqueles de nós que decidiste matar. Nós, entretanto, homens fortes e poderosos, julgamos satisfazer nossos deveres com a República, limitando-nos a evitar a tua fúria. Há muito tempo o Consul já deveria ter-te condenado à morte, fazendo com que sofresses o mal que tuas maquinações procuram nos causar. (…) temos contra ti um decreto do Senado (senatus consultum) veemente e grave.

Não nos falta autoridade para cumpri-lo. Nós, somente nós, os cônsules, digo abertamente, é que falhamos. (…) possuímos o mesmo decreto (que já foi usado no passado recente) no Senado, porém fechado num armário, da mesma forma como uma espada que se esconde na bainha. Mas vives, e vives não para te arrependeres de tua audácia, mas sim para confirmá-la. (…) mandarei matar-te quando não existir ninguém tão ímprobo, tão perdido, tão igual a ti, que não concorde que tua morte era justa.

Enquanto exista alguém que ouse te defender, viverás, e viverás assim, como agora vives, vigiado pela minha forte guarda, de tal forma que não possas ameaçar a república. Mas o que podes então esperar, Catilina, se nem as trevas da noite conseguem ocultar tuas reuniões; nem as paredes de uma casa privada podem aprisionar dentro delas as vozes da conspiração. (…) Ó Deuses imortais, que gente somos? Que república temos? Em que cidade vivemos? Aqui estamos, no mais santificado e venerável Conselho do mundo, e aqui mesmo estão os que tramaram a minha morte e de todos nós, e eu, cônsul, os vejo e peço-lhes a opinião e o voto. E eu que devia, com a espada, trucidá-los, nem com a voz os atinjo!

Discurso no Templo de Jupiter Stator, onde o Senado Romano estava reunido, foi decisivo para a história do Império Romano

Foste à casa de Leca naquela noite. Distribuiste partes da Itália para teus sócios, determinaste para onde cada um deles deveria se dirigir, escolheste os que ficariam em Roma e os que levarias contigo, descreveste quais as partes da cidade que deveriam ser incendiadas, confirmaste que ainda esperarias um pouco para sair de Roma, porque eu estava vivo.

Designaste dois cavaleiros romanos que te livrariam desta tarefa, matando-me em meu leito, antes do amanhecer. (…)

Sendo assim que tudo ocorreu, continua o que começaste: sai da cidade, as portas estão abertas. Não deixa de levar contigo os teus, purga esta cidade. Conosco não mais poderás viver, não o tolerarei, não o permitirei.

Mas o que é Catilina? Estás em dúvida de fazer o que te ordeno que é o que querias fazer por tua própria vontade? Quem sabe me perguntas se deves ir para o exílio. Não te ordeno, mas, se me consultas te aconselho. (…) agora, em verdade, pergunto, qual é esta tua vida? Vou agora falar contigo não levado pelo ódio o que deveria fazer, mas pela misericórdia que não mereces. Há pouco tempo chegaste ao Senado. Nesta grande assembléia quem dos teus amigos e parentes te saudou? (…)

Ouve-me. Como te sentiste quando com tua chegada ao Senado se esvaziaram os assentos próximos a ti? Porque todos os ex-cônsules, cuja morte havias determinado, abandonaram a reunião assim que entraste?

Se os meus escravos temessem a mim, como os teus concidadãos temem a ti, eu abandonaria a minha casa; porque então tu não abandonas Roma? Pedes-me para consultar o Senado e que obedecerás às suas decisões. Não o farei, mas sei como fazer que compreendas o sentimento dos senadores a teu respeito. Sai da cidade! Livra a república do temor! (…), mas o que há? Porque esperas? Que pensas do silêncio de todos? Calam-se porque aprovam minhas palavras.

Estava certo quando evitei que chegasses ao consulado, para que, se quisesses atacar a república, que o fizesses como exilado, e não usar o poder do Consul para oprimi-la. (…) assim, como já repeti tantas vezes, parte. Parte para a guerra criminosa que tramaste.

Vai reunir-te a Mânlio no seu acampamento, subleva cidadãos sediciosos, afasta-te dos bons, declara guerra à Pátria, para que os que ignoram tuas maldades não pensem que eu te desterrei, mas que os teus te chamaram para sua companhia.”