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Como pensar a política: A analogia orgânica.

Os pensadores políticos sempre procuraram analogias para descrever a política. A mais antiga e duradoura destas analogias é a orgânica. De acordo com ela, a organização política é um corpo vivo, em tudo semelhante ao corpo físico dos seres humanos. Como o ser humano, o organismo político é composto de partes (órgãos), que estão em relação de interdependência entre si.

O funcionamento saudável de cada um destes órgãos (partes) resulta na saúde (ordem paz) do organismo. Inversamente, o mau funcionamento de um dos órgãos acarreta consequências negativas para os demais, que, em graus diferentes, também passam a funcionar mal, o que resulta na doença (desordem, conflitos).

Tanto o organismo humano como o político mantêm relações de intercâmbio com o seu meio ambiente, dele extraindo os elementos necessários à sua sobrevivência. Ambos possuem história, passado e memória. Ambos possuem dinâmicas de desenvolvimento e de adaptação às novas circunstâncias, e a infinidade de órgãos, sistemas, processos internos se acomodam dentro de uma unidade, o corpo/a sociedade politicamente organizada.

Não resta dúvida de que a analogia é pertinente e apropriada. Há muitas semelhanças entre ambos os organismos, e a maioria dos processos políticos consegue ser descrita de maneira plausível com o uso desta analogia. Tanto é assim que, ao longo dos 2.300 anos da história da política como campo de conhecimento, a analogia orgânica nunca foi abandonada e ainda hoje é comum o recurso a ela nos discursos políticos, em todos os países.

Ilustração de órgãos do corpo humano

A organização política pode ser comparada a um corpo vivo, em tudo semelhante ao corpo físico

A analogia orgânica se caracteriza, ainda, pela ênfase que atribui a características de:

  • Unidade e completude do organismo
  • Inter-relação e interdependência dos órgãos
  • Desenvolvimento e adaptação
  • Evolução

A concepção orgânica da sociedade e da política, portanto, sempre se revelou atraente para os governantes que pretendiam enfatizar aquelas características nos seus governos. A forma de governo mais harmônica e compatível com esta concepção foi, e é, a monarquia.

Grande parte dos teóricos da monarquia usaram esta analogia, praticando muitas vezes uma interpretação literal das semelhanças entre os dois organismos.

De acordo com esta concepção de monarquia, o Rei equivalia à cabeça no corpo humano (dotada de razão e vontade), sede da sabedoria, e, por consequência, o órgão de comando do corpo físico ou político. Esta a razão para a escolha da decapitação como a punição extrema aplicada aos reis. Decapitar é separar a cabeça do corpo, eliminando o seu poder de comandar o corpo.

Decapitar um Rei foi sempre a maneira simbólica de remover a “cabeça do reino”, o seu governante, rompendo todos os vínculos de hierarquia e comando que dele partiam para a sociedade.

Do ponto de vista teórico, do ângulo de quem pretende explicar a política mediante esta analogia, o grande problema sempre esteve no fato de que um organismo muda e evolui por adaptações. Isto é, havendo mudanças externas a ele que o afetem, ou mesmo internas, desencadeia-se um processo de compensação pelos seus órgãos que leva o organismo a se adaptar aqueles estímulos e, desta forma, produzir uma mudança.

Uma pessoa que vive num deserto, quando comparada com outra que vive numa zona gelada, por certo exibirão diferenças nos seus sistemas circulatórios, no revestimento do corpo pela pele, nos sistemas reguladores de temperatura, etc. São mudanças que os dois respectivos organismos tiveram que produzir para adaptar-se a dois climas completamente opostos. De forma análoga, a mudança social, dentro desta concepção da política, será sempre adaptativa, evolutiva, reformista, gradual.

Organismo político: composto de partes interdependência entre si

O organismo, seja ele qual for, está sujeito à dinâmica da homesostasis, isto é, a retornar a um ponto de equilíbrio natural. O princípio da homesostasis, portanto, implica na existência de um estado de equilíbrio natural no organismo, que corresponde ao satisfatório funcionamento dos seus órgãos. Qualquer distúrbio que altere este equilíbrio provoca mudanças adaptativas para recuperá-lo.

No organismo humano, este ponto de equilíbrio corresponderia ao estado de saúde do corpo. Já na sociedade, este ponto de equilíbrio tenderia a valorizar, de maneira excessiva, a estabilidade sobre a mudança. Em outras palavras, a concepção organicista da sociedade e da política tende a privilegiar uma visão conservadora, onde a homeostasis funciona para a preservação do “status quo“.

Mudanças de maior porte, assim como criação de novos órgãos, ou remanejo de funções entre órgãos, acomodam-se com dificuldade dentro desta concepção. Será outra analogia, a mecânica, preponderante durante os séculos XVI e XVII, que será usada pelos homens que vão construir novas nações (Revolução Americana) ou reformar profundamente as estruturas políticas de nações antigas, como a Inglaterra e a França.