Estou convencido de que, para se entender a política é mais conveniente ir em busca da verdade extraída dos fatos e não à imaginação dos mesmos, já que muitos conceberam repúblicas e principados jamais vistos ou conhecidos como se tivessem verdadeiramente existido.

Em verdade, há tanta diferença de como se vive e como se deveria viver que, aquele que abandone o que se faz por aquilo que se deveria fazer, aprenderá antes o caminho de sua ruína do que o de sua preservação; eis que um homem que queira em todas as suas palavras e ações fazer profissão de bondade, perder-se-á em meio a tantos que não são bons.

O príncipe, portanto, que queira se manter no poder deverá aprender a não ser bom e usar a não bondade, segundo a necessidade de manter-se no poder.

Deixando de lado os assuntos de um príncipe imaginário e falando daqueles que são verdadeiros, todos os homens, em especial os príncipes, por suas posições elevadas, possuem atributos pessoais que lhes acarretam ou reprovação ou louvor.

Assim é que alguns são tidos como liberais, alguns miseráveis; alguns são tidos como pródigos, alguns rapaces; alguns cruéis, alguns piedosos; um desleal o outro fiel; um efeminado e pusilânime; o outro feroz e animoso; um humano, o outro soberbo; um lascivo, o outro casto; um simples, o outro astuto; um duro, o outro fácil; um grave, o outro leviano; um religioso, o outro incrédulo…

Sei que cada um confessará que seria sumamente louvável encontrarem-se em um príncipe, de todos os atributos acima referidos, apenas aqueles que são considerados bons.

Mas, desde que não os podem possuir todos nem inteiramente observá-los, em razão das contingências humanas não o permitirem, é necessário seja o príncipe tão prudente que saiba fugir à infâmia daqueles vícios que o fariam perder o poder e, não hesite nem evite o príncipe de incorrer na má fama daqueles vícios que, sem os quais, se tornaria muito difícil salvar o Estado.

Pois, se tudo for considerado devidamente sempre se encontrará alguma coisa que, parecendo virtude, praticada acarretará ruína, e alguma outra que, com aparência de vício, seguida dará origem à segurança e ao bem-estar.

Esta é a complicada condição em que a vida real acontece.

Sei que muitos que lerem este último parágrafo não concordarão comigo. Não se entende que a prática da virtude cause a ruína, ou que a prática do vício pode produzir um bem. Peço a V. Alteza que tenha paciência que mais adiante explicarei claramente por que e como esta contradição acontece.

Blog do MaquiavelTextos escritos pelo prof. Francisco Ferraz nos quais um fictício Maquiavel responde dúvidas, questões e sentimentos que sua obra “O Príncipe” causou em quem a leu, e na quase totalidade o criticam por sua concepção negativa da natureza humana e sua brutalidade e amoralismo na política.