A Criméia foi sempre um dos pontos de atrito sensíveis com potencial para gerar guerras nas fronteiras da Europa com a Asia que fazem recordar inevitavelmente a grande guerra da Criméia de 1853.

Aquele conflito que, assim como a Guerra Civil dos Estados Unidos (em 1853 os EUA estavam ainda há 8 anos da sua guerra civil) antecipou as grandes tragédias bélicas do século XX, reuniu de um lado Inglaterra, França, Império Otomano e Sardenha e de outro os Russos do Tsar Nicolau I.

Guerra da Criméia -Batalha da Balaklava
A carga da Brigada Ligeira na Batalha da, Guerra da Criméia, 25 de de 1854.
Time Life Pictures/Mansell/Time Life Pictures/Getty Images

A guerra da Criméia viria a ser a primeira guerra moderna. Moderna nos armamentos (o fusil Minié; a poderosa artilharia); moderna no poder destrutivo (pelo menos 750 mil soldados mortos em batalha ou por doenças e ferimentos, sem contar as vítimas de bombardeios, da inanição, massacres e epidemias); moderna na tática da guerra de trincheiras que se tornaria ortodoxia militar na I Guerra Mundial.

Seria também moderna pelas novas tecnologias de comunicação disponíveis à época: telégrafo, correspondentes de guerra, fotografia, jornais cobrindo os combates, avanços na medicina, criação da enfermagem.

Ao mesmo tempo combinava esta modernidade com códigos de guerra tradicionais: tréguas nas batalhas para remover mortos e feridos, códigos de honra; e a Carga da Brigada Ligeira na planície de Balaklava, episódio militar cujo heroísmo em face da morte certa levaria Tennyson a escrever seu célebre poema e incendiaria a imaginação da geração dos nossos bisavós.

Este episódio tornou-se emblemático pelo seu conteúdo trágico, revestido de heroísmo e romantismo.

Tudo começa com uma batalha que os ingleses perderam para os russos em Balaklava. O Duque de Wellington – o vencedor de Napoleão – comandava os ingleses. Ora, o duque jamais perdera armas (canhões) para o inimigo que agora poderia usá-las para humilhá-lo. Não seria agora que ia perder. A ordem foi dada: “…a cavalaria que avance rapidamente para o front, siga o inimigo e evite que ele carregue as armas”.

A ordem era não apenas obscura como absurda, os russos já haviam se retirado para o extremo norte do vale. Mas os oficiais da Brigada Ligeira estavam frustrados porque por duas vezes a Brigada fora contida e não perseguira os russos em fuga como queriam seus oficiais.

A Brigada Ligeira era tida como a melhor cavalaria do mundo. Era melhor nas montarias e nos cavaleiros. Agora, mais uma vez a Brigada era contida, tendo já sofrido provocações e deboches de cossacos em Bulganak.

Aquela confusão na ordem de evitar o recarregamento das armas assim como a frustração e inquietude da brigada, resultou na passagem do passo para o trote e deste para o galope na planície em direção ao norte do vale, onde se encontrava já a artilharia russa.

A Carga da Brigada Ligeira foi uma carga de cavalaria contra canhões, curiosamente semelhante à carga da cavalaria polonesa contra os tanques nazistas, seis décadas mais tarde.

A Brigada no seu avanço corajoso e suicida recebia tiros dos dois lados do vale e canhonaços à frente. William Howard Russell, correspondente de Guerra do London Illustrated registrou a batalha em detalhes, texto que inspirou o poema de Lord Tennyson.

filme sobre a Guerra da Criméia
Poster do filme A Carga da Brigada Ligeira.

“Para dentro do vale da morte cavalgaram os seiscentos” (Alfred, Lord Tennyson)

“Era difícil acreditar nos nossos sentidos! Eles avançavam em duas linhas, aumentando a velocidade a medida que se aproximavam do inimigo. À distância de uns 500 metros as trinta bocas de ferro dos canhões cuspiram fogo e bolas de ferro. O avanço era marcado pelos espaços que se abriam nas filas. Homens caíam mortos, cavalos rodavam despedaçados ou corriam loucamente sem cavaleiros.

Os que restavam desapareceram na fumaça, mas, através dela podiam-se ver os sabres cintilando em meio aos canhões. Tendo silenciado os canhões, o que restou da brigada começou a jornada de retorno pelo mesmo vale, agora perseguida pela cavalaria russa.”

“Os artilheiros russos mesmo sabendo que entreveradas estavam a brigada e a cavalaria russa, passaram a atirar novamente, matando ingleses e russos num mesmo massacre”.

Este episódio foi dramatizado no filme clássico Carga da Brigada Ligeira de 1936 com Errol Flynn e Olivia de Havilland dirigido por Michael Curtiz, e também na versão de 1968 dirigido por Tony Richardson, com Trevor Howard, Vanessa Redgrave e David Hemmings.