A expressão latina Cui Prodest, por si só, já indica a antiguidade da expressão. Ela é uma das mais remotas manifestações da sabedoria milenar da política.

Fundamentalmente, ela se constitui numa regra de bom senso usada para entender os objetivos e as finalidades de uma determinada ação. As ações humanas em geral, e as ações políticas de maneira especial, costumam não ser tão óbvias quanto parecem à primeira vista.

Muitas vezes, os objetivos anunciados de uma ação não são os verdadeiros objetivos buscados. Também, muitas vezes, quem pratica o ato não é o mesmo que dele se beneficia.

Medéia, pintura de Antony Sandys (1868)
Medéia, pintura de Antony Sandys (1868)

A expressão foi muito usada em Roma pelos juristas e advogados, sendo Cícero um dos que a tornou célebre. No direito penal, por exemplo, a expressão era cui prodest scelus, is fecit (quem se beneficia do crime é quem o cometeu).

Essa é uma máxima que busca a lógica da ação, sua razão e seus objetivos em situações de ausência de certeza.

Ora, na política essas são as situações mais comuns.

Na política como nos jogos, dissimular, esconder intenções, criar falsos objetivos e racionalizar são procedimentos comuns e habituais.

Não porque a política seja o reino da desonestidade e sim porque, sendo uma atividade competitiva, qualquer objetivo, de qualquer um dos protagonistas do jogo político, encontrará pela frente ações de seus adversários destinadas a impedir a sua realização e a inviabilizá-la.

Neste contexto de competição e disputa, onde alguns ganham e muitos perdem, os objetivos se realizam mediante a execução de uma estratégia vencedora. Ora, revelar o objetivo equivale a entregar o código da respectiva estratégia ao adversário.

Por esta razão, grande parte do “jogo político” é gasto no esforço de interpretar as ações do adversário com vistas a conhecer sua estratégia e, de posse destas informações, agir no sentido de bloqueá-la, para beneficiar a sua própria estratégia.

Não é uma tarefa fácil, em razão do habitual procedimento de dissimulação adotado pelo agente político que produziu a ação.

A necessidade de esconder as verdadeiras intenções e o desejo de induzir o adversário ao erro envolvem as ações políticas em ambiguidades e incertezas tanto maiores quanto mais disputada for a competição e mais competentes seus concorrentes.

O grande desafio é, portanto, decodificar corretamente a lógica por trás das ações, das omissões inexplicáveis e dos lances e jogadas.

Numa campanha eleitoral, a todo o momento se está tentando entender qual a finalidade de uma ação, declaração ou publicidade do adversário para que se possa responder à altura e em tempo.

Frente a situações desta natureza, ambíguas e incertas, algumas explicações costumam ser adotadas:

  • Ignorância ou erro do adversário: É uma explicação que tem o atrativo da simplicidade e do desejo, mas é muito arriscada. Se for um erro, o melhor a fazer é não fazer nada. Deixar que ele continue errando. Mas se não for erro, e sim dissimulação? Não fazer nada pode ajudar a sua estratégia, pode fortalecê-la.
  • Psicologismo: São explicações que recorrem a fatores subjetivos para explicar a ação ou declaração do adversário. Tenta-se, com estas explicações, interpretar ações por suas motivações conscientes ou até mesmo inconscientes. São explicações do tipo: fulano fez isso porque é descontrolado, desequilibrado, recalcado, está com medo, está convencido que vai ganhar, fala sem pensar, é agressivo, é tímido, é vingativo… Estas explicações costumam ser muito perigosas e até fatais. O indivíduo pode ter todas as características a ele atribuídas, mas:
    1. não está sozinho, tem conselheiros;
    2. quer ganhar;
    3. nada garante que, naquela ação ou declaração, tenha agido sob aquele impulso.

O principal problema com estes dois tipos de explicação é o fato de que ambos supõem a não racionalidade da ação. Como tal, eles induzem a ignorar o problema, seja pela suposição de que o adversário errou e é bom que continue errando, seja pela suposição de que o adversário é uma pessoa autodestrutiva e é bom deixá-la livre para se autodestruir.

Cícero pronunciando a Catilinália no Senado Romano
Cícero pronunciando a Catilinária no Senado Romano

O adágio latino Cui prodest, ao contrário, preocupa-se com o resultado da ação e não com sua motivação. Frente então àquela situação carregada de incertezas e ambiguidades, a recomendação seria:

  1. Evitar a precipitação de atribuí-la ao erro ou ignorância,
  2. Refrear a tentação de dar-lhe uma explicação subjetiva, interpretativa e de natureza psicológica.

O que se deve fazer é propor a singela pergunta: A quem beneficia tal ação?

A identificação do beneficiário da ação é um procedimento objetivo. Provenha a ação do erro ou de um fator emocional haverá, por certo, alguém que dela se beneficie. Como a política real lida com fatos objetivos e com resultados, o que interessa não é a motivação da ação, e sim o seu resultado. Você deverá estar preparado para reagir levando em conta não as intenções e sim o resultado da ação, isto é, aquele que dela se beneficia.

Em outras palavras, é sempre aconselhável, numa situação de competição, supor a racionalidade do adversário e interpretar a ação como tendo um objetivo racional. Como o comportamento não racional ou ignorante é autodestrutivo, preocupe-se com o racional.

Preocupe-se com o objetivo escondido, dissimulado, a intenção deliberadamente oculta que a revelação do beneficiário permite muitas vezes descobrir.

Supondo a racionalidade do adversário você pode preparar-se para reagir com, no mínimo, igual racionalidade. O que não pode acontecer é você interpretar a ação como não racional para depois descobrir que ela era racional.

Se isto ocorrer, você terá tido a reação errada, não terá como bloquear os resultados favoráveis que ela vai produzir para o adversário, e terá perdido um tempo precioso, talvez irrecuperável.

A indagação a quem beneficia?é um auxiliar inestimável na campanha e no governo. É ao mesmo tempo um método objetivo de interpretação das ações e declarações, e uma disciplina mental. Ela induz você a raciocinar objetivamente, a supor a racionalidade do adversário e a lidar com fatos e resultados, afastando-se da perigosa região da especulação psicológica sobre intenções.