É preciso apresentar Bill Ayres para os nossos leitores.

Poucos, provavelmente, o conhecerão. Líder estudantil na década de 60, incansável lutador contra a guerra do Vietnam. Por ter-se recusado a ser incorporado às Forças Armadas, mergulhou na clandestinidade, e, como membro do movimento radical Weather Underground, participou de algumas ações de terrorismo político, como ele insiste, contra instituições e monumentos, mas não contra pessoas.

Com o fim da Guerra do Vietnam, desapareceu da cena política por 4 décadas, para reaparecer em 2008, como alvo privilegiado da campanha republicana contra Barack Obama. Ayers foi apenas uma peça da “campanha negativa” que o partido republicano conduziu contra a candidatura Obama.

Foto de Bill Ayers jovem em 1968
Foto de Bill Ayers jovem em 1968

Note-se a seleção da foto, com o nítido objetivo de despertar a animosidade do espectador. O texto da carta de Ayers ao NYTimes, reproduzido mais adiante nesse texto, apresenta a explicação dele para as mudanças que ocorreram com ele de 1968 até agora.

As outras peças, igualmente importantes, foram as do Rev. Wright, pastor negro que casara Obama e que era líder da Igreja por ele frequentada. O pastor Wright é um radical que pratica um racismo contra a América branca, com uma oratória violenta, inflamada e de mau gosto.

Obama e o pastor Wright
Obama e o pastor Wright

O fato de Obama ter sido casado por ele há anos atrás, e o de frequentar a Igreja onde Wright era pastor, serviu de argumento suficiente para estabelecer a culpa de Obama por associação.

De nada importava toda a história política de Obama, desde organizador de serviços sociais em Chicago até Senador eleito dos EUA pelo mesmo estado. A relação criava a desconfiança, e esta, pela semelhança com outras peças, produzia em muitos a convicção da culpa sem provas, da culpa por associação…

Além desses havia também, no rol dos republicanos, todos os políticos liberais do partido democrático, também acusados de esquerdistas e radicais, e, sobretudo a possibilidade de fazer farto uso, mediante insinuações maldosas, do sobrenome islâmico de Obama: Hussein!

A técnica publicitária adotada pelos “marketeiros” republicanos foi, então, a conhecida “culpa por associação”, tão antiga quanto a política, mas sempre à mão para uso pelos inescrupulosos, antidemocráticos e totalitários de todos os feitios.

Os autores do atentado de 11 de setembro
Os autores do atentado de 11 de setembro

A exploração da culpa por associação, na eleição americana atingiu o seu extremo com a tentativa de ligar Obama com os autores do atentado de 11 de setembro, como se pode ver na foto abaixo, integrante de comerciais patrocinado por republicanos.

Toda a perseguição de natureza política, religiosa, étnica cultural, tribal, etc. se exerce pelo uso oportunista, maldoso e cruel da culpa por associação. Este tema, incidentalmente adquire especial importância para nós pelo uso frequente e oportunista que dele se tem feito na política brasileira.

A grande atração que este tipo de atribuição de culpa exerce sobre os inescrupulosos e totalitários e que explica porque, havendo condições psicossociais, ela é intensivamente usada, é que ela se apresenta como escandalosa e chocante (o que conquista os espaços da mídia) e dispensa a prova.

Basta ao acusador acusar. Ao acusado incumbe provar que é inocente, em meio ao escândalo e presunção de culpa gerada pela “circunstancial”, ainda que efetiva, autoridade dos acusadores, travestidos em defensores dos interesses do povo.

A importância de alertar para esta “tara” política, que aparece tanto nas ditaduras de direita como nas de esquerda, está no fato de que ela é, individualmente, o mais poderoso instrumento para corromper e destruir uma democracia.

A maior parte das vítimas da culpa por associação é varrida da cena política para sempre, ainda que muitos, com o tempo, tenham a sua inocência confirmada.

William Ayres não se conformou com este provável destino. Passada a eleição, escreveu uma carta ao New York Times, denunciando essa prática totalitária, explicando as razões da sua militância radical contra a guerra do Vietnam, e, inclusive, confessando corajosamente arrependimento por vários dos seus atos. Esta carta, mais que a resposta de Ayers, é um grito de protesto contra a profunda injustiça e crueldade da política que usa a culpa por associação como arma contra os seus adversários.

O Verdadeiro Bill Ayers (Por ele mesmo)

Jovem Obama no Quênia com a roupa local
Jovem Obama no Quênia com a roupa local

Na recentemente concluída eleição presidencial, eu fui, independentemente de minha vontade própria, empurrado para o palco da campanha e forçado a desempenhar um papel num drama profundamente desonesto. Eu me recusei, e essas são as razões.

Incapazes de desafiar o conteúdo da campanha de Barack Obama, seus opositores inventaram uma narrativa sobre um jovem político que surgira ninguém sabe de onde, um homem de charme, inteligência e habilidade, embora carregasse um nome estranho e uma história de vida exótica.

O refrão usado contra ele era uma pergunta: “O que nós verdadeiramente sabemos sobre este homem?”. Aspectos secundários na narrativa incluíam um pastor afro-americano com uma oratória cortante e agressiva, um intelectual palestino, e um “americano terrorista sem arrependimentos”.

Unindo o candidato com esses supostamente sombrios personagens, e, insistindo fortemente em todo e qualquer vínculo secreto ou associação nefasta entre eles, tornava-se matéria de primeira página na mídia. Eu fui empurrado para o papel do terrorista americano que não se arrepende. Senti-me, às vezes como o inimigo público da obra 1986 de George Orwell, cuja imagem era projetada em enormes telas para provocar o espetáculo dos “Dois minutos de ódio”, quando os fiéis se reuniam numa manifestação de paroxismo e raiva.

“Morphing” que mescla a imagem de Obama com a de Bin Laden
“Morphing” que mescla a imagem de Obama com a de Bin Laden

Com a mídia e a blogosfera prisioneiras da excitação pré-eleitoral, eu não via nenhum caminho viável para uma discussão racional. Ao invés de tentar desajeitadamente entrar na cultura do “sound-bite”, eu decidi virar as costas sempre que os microfones eram empurrados no meu rosto. Eu fiquei fora…

Agora que a eleição terminou, eu quero dizer tão diretamente quanto eu posso que o caráter inventado para funcionar neste drama não era eu, nem mesmo de mim se aproximava. Aqui estão os fatos.

Eu nunca matei ou feri alguém.

Eu participei do movimento pelos direitos civis em meados da década de 60, e, mais tarde resisti à convocação militar (para o Vietnam) e fui preso em demonstrações não-violentas. Tornei-me um organizador em tempo integral contra a guerra, para os Estudantes por uma Sociedade Democrática (SDS). Em 1970, eu fui um dos fundadores do Weather Underground, uma organização que foi criada após uma explosão acidental que tomou a vida de três colegas nossos em Greenwhich Village (Nova York).

O Weather Underground assumiu a responsabilidade por colocar várias pequenas bombas em escritórios vazios – os do Pentágono e do Congresso foram os mais notórios – contra uma guerra ilegal e impopular que consumia a nação.

Bill Ayres em foto de fevereiro de 2000
Bill Ayres em foto de fevereiro de 2000

O Weather Underground cruzou linhas de legalidade, de propriedade e talvez mesmo de senso comum. Nossa eficácia pode ser – e ainda é – debatida. Nós levamos a cabo atos de vandalismo extremo, dirigidos aos monumentos à guerra e ao racismo, e ataques à propriedade – nunca às pessoas –que visavam expressar respeito pela vida humana e demonstrar ultraje e determinação para por um fim à guerra do Vietnam.

Protestos pacíficos tinham falhado em parar a guerra, por isso nós lançamos uma resposta sob a forma de um grito. Mas não era terrorismo; nós não estávamos engajados numa campanha para matar ou ferir pessoas indiscriminadamente, espalhando o medo e o sofrimento para fins políticos.

Não consigo nem imaginar envolver-me em ações deste tipo hoje. E, pelos últimos 40 anos, tenho escrito e ensinado sobre o valor insubstituível e único de cada vida humana e de seu potencial, e a necessidade de realizar este potencial pela educação.

Eu tenho arrependimentos é claro – incluindo os erros de excesso e falhas de imaginação, de posturas e atitudes, de retórica inflada e violenta, de sectarismo cego e muito mais.

Ninguém pode atingir a minha idade, com os olhos pelo menos em parte abertos, e não carregar consigo centenas de arrependimentos. A responsabilidade pelos riscos que impusemos a outros em algumas de nossas ações mais radicais, naqueles anos de clandestinidade, nunca deixa meus pensamentos por muito tempo.

Bill Ayres foi usado em comerciais para atingir Barack Obama
Bill Ayres foi usado em comerciais para atingir Barack Obama

O movimento contra a guerra com todos os seus comprometimentos, sacrifícios, e determinação, não podia por fim à violência que aplicamos contra o Vietnam. E, nisto reside a causa para o verdadeiro arrependimento. Nós – o amplo nós – escrevemos cartas, marchamos, falamos aos jovens nos centros de recrutamento, cercamos o Pentágono, e deitamo-nos nos trilhos dos trens com tropas.

Apesar de tudo nós éramos inadequados (não tínhamos poder para) por um fim à matança de 3 milhões de vietnamitas e quase 60.000 americanos, numa guerra de 10 anos.

A desonestidade da narrativa sobre Barack Obama, durante a campanha deu um passo adiante (muito grave):

Ela passou a vender a ideia de que se duas pessoas se encontram numa mesma sala ao mesmo tempo, ou se você pode provar que elas tiveram uma conversa, beberam uma xícara de café, tomaram um ônibus junto, ou se tiveram qualquer associação das milhares possíveis, ENTÃO você demonstrou que compartilham ideias, planos, projetos, influências, e, especialmente, que cada um é responsável pelo comportamento do outro.

Há uma longa e triste história na nossa cultura política sobre a culpa por associação, e, em certos momentos cruciais não fomos capazes de nos elevar acima dela.

Apesar dos ataques, Barack Obama se tornou presidente dos EUA
Apesar dos ataques, Barack Obama se tornou presidente dos EUA

O Presidente eleito Obama e eu participamos da direção de um órgão (comunitário) juntos; nós vivíamos na mesma comunidade, diversa ainda que fortemente unida; por vezes nos encontrávamos na livraria. Nós não andávamos juntos, eu nada tinha a ver com as suas posições políticas. Eu o conhecia como milhares de outros o conheciam, e como milhões de outros. Eu gostaria de tê-lo conhecido melhor.

A demonização, a culpa por associação, e a política da intimidação não triunfou, pelo menos nessa vez. E esperamos que nunca triunfe. Façamos votos para que em nossa amplamente diversificada sociedade, falar e ouvir com a mais larga variedade de pessoas não seja um pecado e sim uma virtude.

(Tradução livre e comentários do autor)

William Ayers é professor de educação na Universidade de Illinois em Chicago, é autor de “Dias fugitivos” e co-autor de “A corrida”.