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A definição do eleitor por exclusão pode empurrar a decisão para o primeiro turno

No plano dos significados, os eleitores brasileiros, ao elegerem um presidente da República, não escolhem um administrador, e sim um líder político. Não se escolhe um executivo testado e confirmado como competente para as funções. Escolhe-se alguém que se impõe aos eleitores como líder político, que sente a realidade como nós a sentimos, mas consegue expressar melhor que nós esse sentimento, em palavras que todos entendem, e representar-nos nesse sentir.

Ele é nós, com a capacidade que não temos, com os desafios que não saberíamos enfrentar, com a coragem, ousadia e determinação para realizar o que não conseguiríamos.

Numa eleição presidencial escolhemos, pois, o nosso representante e só secundariamente o nosso governante, administrador, executivo. Escolhemos por sua determinação de assumir nossos interesses mais caros, por sua liderança política e capacidade de comandar o País.

Por isso os preferidos são candidatos fortes, que falam uma linguagem direta, simples, rude, mas resolutiva. Passam a impressão de que tudo é fácil. Basta querer. Os problemas ele resolve. Daí que nossas eleições estão sempre mais próximas de lideranças populistas, semicarismáticas, demagógicas e autoritárias.

No passado não era muito diferente. Na década de 1950 eram Vargas no centro e à esquerda e Lacerda e a UDN à direita; na década de 1960 eram Brizola, Jânio e Lacerda; em 1989 os líderes eram Lula, Brizola e Collor, e não Ulysses ou Covas; em 2002 era Lula, e não Serra; em 2006 era Lula, e não Alckmin, e dentro do PT o líder continuou sendo Lula, e não Dilma.

Nessa listagem sobram dois presidentes que se elegeram sem as características mais típicas do populismo: Juscelino e Fernando Henrique. Das três características, Juscelino tinha duas: era populista e carismático; mas FHC não tinha nenhuma das três, talvez a razão por que seu nome não é lembrado para, com a legitimidade de ex-presidente, ser convocado para resolver o impasse político de 2018, assim como o foram Churchill, De Gaulle e Adenauer no pós-guerra europeu.

Fernando Henrique, em 1994, conquistou a Presidência predominantemente pelo sucesso do Plano Real, implementado no governo de Itamar Franco, época em que ainda permanecia vivo na memória o fracasso do Plano Cruzado, de Sarney, e do Plano Collor.

Não é por outra razão que “pega a estrada errada” quem entra na eleição acreditando que vai atrair milhões de votos com seu plano de governo, seus projetos econômicos ou suas reformas políticas e administrativas. Equivoca-se o candidato cuja campanha se concentra nas promessas que faz – por mais necessárias que sejam as realizações prometidas. O eleitor cada vez mais dá sinais de que as recebe com muita descrença e como demagogia.

Igualmente se engana aquele que aposta na pregação ideológica. Por mais que satisfaça os militantes e simpatizantes, não logra se comunicar com a imensa maioria de eleitores. Também se iludem os que apresentam projetos e políticas públicas específicas, buscando credenciar-se para governar pela enumeração e detalhamento dos seus aspectos técnicos.

Além das citadas, há inúmeras outras estradas erradas que a cada eleição se oferecem aos candidatos. São o “cardápio” para a escolha da posição da candidatura. Haverá sempre candidatos para todas elas, de acordo com o gosto, o bolso e a história de vida de cada um.

Acontece que a posição vitoriosa é a que traduz o sentimento dominante da maioria dos eleitores, sob a forma da linguagem e mensagens de campanha, habilmente interpretadas pelo candidato. A verdadeira comunicação eleitoral não é o candidato dizer o que considera que o eleitor deve ouvir e em função do qual deve decidir seu voto. A verdadeira comunicação política é o candidato falar e tomar posição sobre o que o eleitor está interessado em ouvir. Este é o grande desafio: estabelecer a sintonia.

A identidade de propósitos entre eleitor e candidato e o pacto de confiança selado no voto precisam da “cola” que tem a afinidade emocional em torno daquele sentimento. Estabelecida a sintonia, ele pode fazer promessas, propor projetos, tomar decisões políticas, declarar suas convicções ideológicas.

O eleitor, contrariamente ao que tende a considerar o marketing eleitoral, não é um consumidor. No mercado político ele não compra um produto, ele paga com seu voto para ter, no máximo, uma esperança. O problema é como descobrir qual o sentimento dominante do eleitor na campanha.

Nesta eleição, ao longo do espectro direita, centro, esquerda, os preferidos são Bolsonaro, Ciro e Haddad (Lula). Marina e Alckmin parecem fracos. Meirelles, Álvaro e Amoêdo aparentemente não têm chance. Boulos e os mais à esquerda são de outra divisão, não participam do mesmo campeonato.

Essa dinâmica da nossa cultura política, que conduz à propensão por um presidente preferencialmente forte, incorporou à atual eleição um novo componente: a tendência de dicotomização da decisão, com uma excessivamente forte carga emocional e um julgamento plebiscitário sobre o legado dos governos do PT de 2003 a 2016, que Bolsonaro impôs e o PT aceitou.

Os candidatos situados entre os dois polos da disputa, Bolsonaro e Haddad (Lula), estão agora submetidos a um progressivo vazamento do seu potencial eleitoral para os dois polos. Para esses eleitores (e para os ainda indecisos) a atual campanha firmará a convicção de que o caminho da vitória passa pela prioridade dada ao sentimento de rejeição sobre o da preferência. Mais que uma escolha, a situação conduz o eleitor a definir-se por exclusão – quem ele mais rejeita –, o que pode empurrar a decisão para o primeiro turno.

A redução da rejeição equivalerá rigorosamente à opção por um dos dois candidatos – Bolsonaro ou Haddad. Qual dos dois conseguirá reduzir sua rejeição em magnitude suficiente para se eleger tornou-se o enigma desta eleição.

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