Um dos princípios básicos que organiza e regula a dinâmica política de uma democracia estável é a moderação do conflito político. Numa democracia o poder não pode ser o mais elevado dos valores sociais, buscado a qualquer custo, pelo qual paga-se qualquer preço e em relação ao qual os demais valores são relativizados e instrumentalizados.

Por isso também a política não pode tornar-se uma questão de vida ou morte; de amor extremado ou de ódio mortal; de liberdade ou opressão; de emprego ou desemprego; de ganhar tudo ou perder tudo; de verdade absoluta ou de mentira absoluta; de idealismo e boa intenção ou de interesse pessoal e egoismo…

Quando uma sociedade se descobre reduzida a conflitos politicos que dividem sua cidadania entre sentimentos tão hostis, e radicais, organizados em parcialidades tão inimigas e irreconciliáveis, submete-se o contrato social a um perigoso estresse e ao extravasamento das hostilidades para toda ordem de conflito político.

A vida social organizada repousa sobre valores antagônicos, que precisam ser harmonizados por um ponto de equilíbrio, que permita a coexistência harmônica de ambos. Essa é a lógica da regra da mesotès (meio termo) aplicada às virtudes, já na teoria política de Aristóteles, em plena Grécia Clássica.

O pensamento central de Aristóteles na sua obra A Ética a Nicômaco define que:

a virtude essencialmente é um meio termo (mésotès) que se constitui num limite à desordem da paixão que, por si mesma tende para o excesso ou para a carência”.

Esta ideia é fundamental não apenas na Ética, mas também uma constante, ao longo de toda a sua Política. Ela define o tamanho da polis, os limites da riqueza, ela determina a teoria da política.

A excelência moral no pensamento aristotélico se expressa numa disposição para, entre dois extremos, escolher o meio-termo, isto é

“aquela posição equidistante em relação a cada um dos extremos e que é a mesma em relação a todos os homens”.

Assim, o excesso de bravura é imprudência e sua falta a covardia, enquanto o meio termo seria a coragem; o excesso de afeto seria a paixão, a carência a indiferença, o meio termo o amor; o excesso de bens é o que define os ricos, sua carência define os pobres, o meio termo é a classe média.

A cultura política de uma democracia estável se caracteriza por valores sociais em equilíbrio nas instituições e na mente e no comportamento dos cidadãos.

São quatro as polaridades entre valores antagônicos, cujo meio termo entre eles são os mais decisivos para a existência da sociedade organizada e da democracia estável.

  1. Conflito e consenso
  2. Participação e não participação
  3. Poder e responsividade
  4. Racionalidade e emoção

Estas quatro polaridades são aquelas que me parecem mais cruciais para a existência e sobrevivência da estabilidade democrática, por integrarem o próprio conceito de organização política, pelas relações que possuem com os atributos da democracia estável (legitimidade, eficiência, durabilidade, autenticidade) e com os processos de institucionalização do conflito e das organizações políticas.