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Diálogo entre Colbert e o cardeal Mazarin sobre cobrança de impostos durante o reinado de Luis XIV

Cobrança de Impostos

O diálogo entre os dois principais ministros do rei Luis XIV sobre cobrança de impostos apareceu na peça O diabo vermelho (Le diable rouge) de Antoine Rault, escrita em 2008 pelo autor nascido em 1965.

O diálogo suscitou uma dúvida histórica. Embora se tratasse de uma conversação sobre um assunto importante, sobre o qual os dois falavam de maneira muito direta e até mesmo cínica, tal diálogo não era conhecido. Nunca havia sido mencionado nos inúmeros estudos históricos e biográficos sobre os dois personagens.

O Cardeal Mazarin havia sido indicado por seu antecessor o Cardeal Richelieu – gravemente doente – para ocupar seu lugar como ministro da rainha regente Ana da Austria, mãe do futuro rei Luis XIV. Mazarin foi o primeiro ministro da França de 1642 até sua morte em 1661.

O cardeal levou adiante as medidas destinadas a submeter a nobreza ao absolutismo real em meio às revoltas, à Guerra dos Trinta Anos e aos gastos da Corte, o que exigiu um substancial aumento de impostos.

Em 1651 Colbert havia sido recomendado a Mazarin que o contratou para administrar sua imensa fortuna. Constatando a excepcional competência de Colbert, tornou-se seu patrocinador na Corte. Próximo de sua morte, com o infante Luis coroado Rei Luis XIV, Mazarin indicou Colbert ao rei.  Luis XIV não demorou a nomeá-lo ministro e, em 1664 deu a Colbert o cargo de superintendente de construções e manufaturas e o intendente das finanças do reino.

O grande desafio de Colbert era semelhante ao que enfrentara Mazarin: o gigantismo do estado francês com despesas elevadíssimas decorrentes dos gastos militares, dos funcionários do estado, das pensões dos nobres e dos gastos com as propinas, presentes e subornos da política externa de Luis XIV, como era costumeiro naquela época.

É neste contexto que o diálogo da peça se refere a como fazer para aumentar a arrecadação para equilibrar as finanças do estado. Os dois ministros, segundo a peça, conversavam sobre este problema que havia atormentado a ambos.

O diálogo Colbert – Mazarin

Colbert: – Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço. (*)

Mazarin: – Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se. Todos os Estados o fazem!

Colbert: – Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?

Mazarin: – Criando outros.

Colbert: – Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarin: – Sim, é impossível.

Colbert: – E sobre os ricos?

Mazarin: – Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: – Então, como faremos?

Mazarin: – Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mas elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!

(*) Atenção ao grifado. Qualquer semelhança com a situação do estado no Brasil não passa de mera coincidência.

A veracidade deste diálogo foi questionada na França. Foi feita uma consulta ao serviço de perguntas e respostas Le Guichet du savoir da Biblioteca municipal de Lyon, operado pelos bibliotecários, questionando se aquele diálogo era ou não verdadeiro; se havia algum registro histórico de sua ocorrência.

“A conversação entre Mazarin e Colbert é verdadeira?”- A resposta do serviço:

“Incontestavelmente: não! Trata-se de um trecho de uma obra de ficção  (O diabo vermelho), uma peça de teatro escrita (e criada) em 2008 por Antoine Rault, autor nascido em 1965. A análise dos elementos estilísticos que indicam a linguagem usada é muito marcada por nossa época e demandaria um estudo literário que parece não ser vosso objetivo.”

– Uma entrevista com Antoine Rault confirma nossa análise:

À pergunta “Que liberdade você adotou em relação aos fatos históricos?” o autor respondeu: “A peça respeita a história, mas é uma ficção que me permite abordar um tema que nos apaixona sempre: o que é que os homens que nos governam nos escondem?”

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