Demóstenes é o maior exemplo de que a arte da oratória não é um dom inato, mas que pode ser aprendida pelo estudo e pela prática. O maior orador da Grécia fracassou redondamente na sua primeira tentativa de falar em público.

Segundo Plutarco (Vidas):

“Quando ele, por primeira vez, dirigiu-se ao público, colheu muitas desilusões, tendo sido objeto de riso, por seu estilo estranho e grosseiro, sobrecarregado de longos períodos, e torturado por argumentos formais, levados aos mais cansativos e desagradáveis excessos. Além disso, ele possuía, segundo se diz, uma fraqueza na sua voz, uma expressão verbal perplexa e sem distinção e uma respiração curta que, ao quebrar e interromper suas sentenças, obscurecia muito o sentido e o significado do que falava.”

De acordo com o mesmo Plutarco, houve uma outra vez em que a assembleia se recusou a ouvi-lo… A luz veio por meio de Sátiro, o ator, que lhe deu a primeira lição, mandando-o declamar alguma passagem de Sófocles ou Eurípedes, para, a seguir, declamar a mesma passagem, mostrando-lhe como fazê-lo.

Demóstenes
Demóstenes se tornou um dos maiores oradores da Grécia através do estudo e da prática

Depois disso, Demóstenes construiu um lugar para estudo numa caverna e para ali vinha, todos os dias para treinar oratória e exercitar a sua voz. Lá permanecia, por vezes por dois ou três meses sem interrupção, raspando o cabelo de metade da cabeça, para que, por vergonha, não pudesse aparecer em público, e assim não se afastasse da sua caverna.

Adquiriu também o hábito de nas conversas e negócios em que se envolvia, rever cuidadosamente, depois que seu interlocutor houvesse partido, tudo que havia sido dito, organizando este material sob a forma de argumentos, e concebendo as razões que se podiam sustentar contra ou a favor daqueles argumentos. O mesmo fazia com os discursos proferidos na assembleia.

Os meios que ele encontrou para corrigir os defeitos e limitações do seu corpo foram os seguintes, segundo relato do próprio Demóstenes, quando velho, a Demetrius:

“Sua pronúncia desarticulada e sua gagueira, superou, treinando sua fala com a boca cheia de pequenos seixos; disciplinou sua voz declamando e recitando discursos ou versos, quando se encontrava sem fôlego, por subir correndo as elevações do terreno; e sua postura e gestos, treinou diante de um espelho grande que mandou fazer”

 (Plutarco – Vidas)

Plutarco conclui este relato com uma frase definitiva:

“Assim foi que Demóstenes passou a ser encarado como uma pessoa sem grande genialidade natural, mas sim alguém que devia todo o poder e habilidade que possuía na sua oratória, ao trabalho e à disciplina”

Plutarco
Em sua obra, Plutarco falou sobre a evolução de Demóstenes como orador

No discurso da Coroa, Demóstenes profere sua defesa às acusações de Aesquines (grande orador grego) no julgamento público a que é submetido. Neste discurso, Demóstenes não se limita a defender-se, usando de todas as técnicas de dialética e argumentação, que tão bem conhecia e que tanto havia treinado, como usa a oportunidade para acusar Aesquines de traidor, “a soldo de Felipe”.

A vida política de Demóstenes está identificada com sua luta contra Felipe da Macedônia, e contra os atenienses que defendiam a paz com Felipe, o que equivalia à rendição aos objetivos de conquista do Macedônio. Nessa luta ele foi tão valoroso que se tornou rapidamente muito famoso e excitava a atenção em todos os lugares, pela eloquência e coragem dos seus discursos.

Plutarco assim se refere a este julgamento:

“Nunca houve nenhuma causa pública mais celebrada do que esta, tanto pela fama dos oradores, como pela generosa coragem dos juízes que, embora os acusadores de Demóstenes estivessem no auge de seu poder, apoiados ainda pelo favor dos Macedônios, assim mesmo não o condenaram, e sim o absolveram honrosamente, de tal forma que Aesquines não obteve nem a quinta parte dos sufrágios”

Primeiro Discurso de Demóstenes contra Felipe

“Como ousas, pois, mentir, abjeto acusador? Por que inventas o que te apraz? Não te envergonhas de intentar uma ação, movida pela inveja, e não pelo zelo da justiça; nem de viciar a letra de umas leis, de truncar o texto de outras, quando era teu dever citá-las como verdades, na presença de juízes, que juraram sentenciar segundo as leis? E depois de tudo isto enumeras os predicados que devem adornar o perfeito democrata! (…) Como se por suas palavras, e não por seus feitos e pela sua política se pudessem avaliar os verdadeiros democratas!”

“Eu penso, Atenienses, que nisto difere da maledicência a acusação. A acusação aponta os crimes, contra os quais as leis decretam penas; a maledicência profere injúrias, as quais, segundo suas respectivas índoles, costumam reciprocar os inimigos. Creio que nossos antepassados não instituíram tribunais para que, vós deixando vosso trato e negócios familiares, aqui vos ajunteis para ouvir um certame de impropérios; senão para dirimir se alguém delinquiu contra a república. E, sabendo Aesquines tudo isso tão bem como eu o sei, preferiu, contudo, a invectiva à acusação.”

“Depois de haver mostrado qual, conforme a religião e à justiça, deva ser o vosso julgamento, cumpre, segundo o meu parecer, que apesar de não ser eu por natureza propenso ao vitupério, retribua as injúrias e calunias de meu acusador, e vos mostre quem é e de quem procede este homem (Aesquines).”

“O que há de comum, ó celerado, entre ti ou os teus e a virtude? Sabes tu, porventura, distinguir o bem do mal? Aonde e quando o aprendeste? Quando foste digno de o saber? (….) Aqueles que como tu não tiveram educação, e em sua rudeza simulam ter ciência, conseguem apenas enojar os que os escutam, sem alcançar parecer o que não são. Não me enleia o faltar-me o que contar de ti e mais dos teus; enleia-me o não saber por onde começar(…). Nesse ponto faço pausa e dou princípio à história de tua vida”

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A vida política de Demóstenes está identificada com sua luta contra Felipe da Macedônia

“Não teve Aesquines o berço na classe comum dos cidadãos, senão entre aqueles que o povo amaldiçoa. (…) E, acrescentando duas sílabas ao nome do pai, Antrometo, em vez de Tromes o alcunhou. A mãe, apelidou-a de Glaucotéia, sendo que a todos é notório que Empusa, verdadeiramente, se chamou derivando-se este nome de seus costumes descompostos e depravados. E tu, Aesquines, és de teu natural tão ingrato e celerado que, de servo tornado livre, de miserável opulento, pelo favor dos Atenienses, não só lhes negas a tua gratidão, mas vendes a estranhos a tua política e os interesses da tua pátria.”

“Calarei as ocasiões em que é duvidoso se Aesquines discursava em favor da República. Recordarei aquelas, em que é manifesto que servia à causa dos inimigos.”

“Qual de vós não se lembra de Antifonte, condenado ao exílio por Atenas, o qual havendo prometido a Felipe incendiar os vossos arsenais, volveu a esta cidade? Tendo-se escondido no Pireu, descubro-lhe a guarida; e levo-o à assembleia popular. A voz em grita, o gesto descomposto clama este invejoso (Aesquines) que faço coisas indignas de uma democracia, que ultrajo os mais desvalidos cidadãos, que violo sem um decreto a santidade do seu lar. E consegue que Antifonte recobre a liberdade. E, se não fora o senado do Aéropago, o qual, sabido o caso, e vendo a vossa negligência no que mais vos devia importar, fez procurar o criminoso e preso o trouxe perante vós, Antifonte frustraria seu julgamento e, graças a este pomposo declamador, fugiria então da pena que merecia.”

“Não haveria para Felipe nem termo nem repouso à guerra que lhe movíamos, se não lograsse levantar contra a república (Atenas) os Tebanos e os Tessálios.”

“Disse-vos eu naquele dia: ‘Em minha opinião aqueles a quem sobressalta o serem os Tebanos amigos de Felipe, ignoram o presente estado dos negócios. Porque bem certo estou de que, se tal ocorresse na verdade, não ouviríamos que Felipe estava em Elatéia, senão que nas próprias fronteiras de Atenas! (…) Tem Felipe, de sua parte a quantos Tebanos lhe foi dado corromper com seus tesouros, ou iludir com seus enganos. Aqueles, porém, que desde o princípio têm sido seus contrários, e ao presente lhe resistem, por maneira alguma os pode reduzir à sua facção. (…) Se, pois, dizia eu, na presente ocasião preferirmos rememorar ofensas, que dos Tebanos hajamos recebido e descrer de sua fé, como se já estivessem seguindo as bandeiras do inimigo, primeiramente só alcançaremos responder aos votos e aos desejos de Felipe.’”

“Qual é, pois, o meu aviso? Em primeiro lugar, cumpre que afrouxeis o temor que vos afronta; e depois, que todos os vossos cuidados e receios os convertais à parte dos Tebanos, porque é para eles mais apertado o lance; o perigo mais vizinho. Para que deste modo, os que em Tebas seguem a vossa parceria possam falar com desassombro e defender a justa causa; vendo que assim como está em Elatéia um exército prestes a socorrer os que vendem a Felipe a sua pátria, assim também vós favoreceis os que querem pelejar pela liberdade, e que acorrereis em sua defesa se alguém ousar acometê-los.”

“Parece-me, segundo foi, ó Aesquines, o teu discurso, que saíste a campo nesta luta, mais para ostentar tua destreza na arte de modular a voz , do que para pedir a pena de um delito. Mas o que mais se preza num orador não é a formosura dos seus períodos, nem o tom de sua voz; senão que ele ajuste os seus pensamentos aos dos seus concidadãos, e odeie e ame aqueles mesmos, a quem a pátria vota o seu ódio ou o seu amor, porque naquele em quem imperam estes sentimentos o patriotismo é a inspiração. Dir-me-ás que também tu (assim procedeste)? Como? Tu que logo após a batalha, saíste embaixador de Atenas a Felipe, o autor de todas as calamidades que naqueles dias padeceu a nossa pátria; sendo que até aquele momento, sempre recusaste aquele encargo? Quem, pois, engana a república? (…) Qual a mais grave culpa que se pode imputar a orador? A de falar contra o próprio sentimento. E este proceder é hoje demonstrado que o tiveste. E depois dele ainda ousas levantar tua voz e olhar o rosto dos teus concidadãos? Julgas acaso que não sabem quem tu és? Ou que tal sono ou esquecimento tenha se apossado de todos, de maneira a que não mais se lembrem dos discursos que ante o povo declamaste, jurando e atestando que nenhum vínculo te ligava a Felipe, e que somente eu, por ódio pessoal deste delito te acusava? Apenas, porém chega a primeira nova batalha, desprezando o que havias dito, logo principiaste a confirmar e a encarecer a tua amizade e valia com Felipe, disfarçando como podes a tua venalidade.”