Widget Image
SIGA-NOS

Discurso Inaugural de Disraeli

Benjamin Disraeli (Lord Beaconsfield) o mais importante parlamentar do século XIX na Inglaterra, primeiro ministro, líder do Partido Conservador, uma das pessoas mais próximas e estimadas pela Rainha Victoria, também não sabia falar em público.

Assim como Demóstenes e, no século XX Churchill, Disraeli revelou-se um fracasso em suas primeiras tentativas. Assim como eles, dedicou-se a aprender, a corrigir erros e, veio a tornar-se um dos maiores oradores do Parlamento Inglês.

Insisto, com mais este exemplo, que oratória se aprende e que, pelo exercício bem orientado, pode-se chegar a excelência.

Mas não basta afirmar que seu primeiro discurso no Parlamento foi um fracasso. É preciso mostrar a dimensão do fracasso, para que outras pessoas com análogas dificuldades percebam que, se aconteceu com Disraeli, pode acontecer com qualquer um: tanto o fracasso como a superação.

Antes de apresentar o discurso, é oportuno expor em mais detalhes a situação de Disraeli, anterior ao seu discurso. Segundo André Maurois:

“…durante quinze dias Disraeli manteve-se um expectador silencioso dos debates. Tinha grandes desejos de falar mas sentia-se intimidado. Via-se rodeado de grandes homens. Na sua frente, no banco dos ministros e diante da caixa vermelha oficial, estava o leader “whig” Lord John Russell (…) junto a ele Lord Parlmerston, o ministro dos negócios estrangeiros, mais perto dele, destacando-se acima da mesa compacta que separava os ministros da oposição, via, pelas costas, a figura imponente de Sir Robert Peel e, de perfil o nariz fino e curvo do brilhante Lord Stanley. Próximo à entrada, entre os radicais estava seu amigo Bulwer; no meio do grupo irlandês, seu terrível inimigo O’Connel.”

Também o perturbava o ambiente do parlamento. Ouvia-se muito mal; conversava-se animadamente durante os discursos; deputados entravam e saíam constantemente e não se via em lugar algum aquela majestade de costumes e correção de atitudes que se podia esperar.

O tom normal do Parlamento é muito ordenado, polido  e até mesmo cerimonioso. É uma câmara aristocrática que nunca rompeu com seus hábitos aristocráticos, levados até mesmo ao extremo.

Imagine então que a tarde caiu, o plenário está ficando muito escuro, e um membro do parlamento pede ao Speaker, “as luzes senhor, as luzes”. Ele pode ficar repetindo esta frase até o novo nascer do sol que nada vai acontecer, até que um outro peça ao Speaker “as velas senhor, as velas” (the candles).

Não há podium para discursar. Cada um fala de onde está. E o estilo oratório é coloquial, sem ênfases exageradas e sem gritos (no discurso, não nos debates).

Estranha também são as maneiras de se dirigir aos colegas. O orador não deve se dirigir a um colega por seu nome e sim por seu título. A forma padrão é chamar seu colega como “The Honourable member for Bristol”, por exemplo; mas se ele for um membro do Conselho Privado deve ser chamado de “The Right Honourable member”; se for um advogado “The honourable and learned member”; se for um oficial militar “The honorable and gallant member” e assim sucessivamente, conforme a  carreira do colega.

Como se sabe, não há lugares para assentar todos os parlamentares. Aproximadamente 600 membros devem, se acomodar num espaço sentado para 346.

Por aqui já se percebe que, ao que parece, a liberdade política não necessita de vários microfones, mesas individuais, laptops, assessores, poltronas individuais e luxuosas, garçons, secretárias, burocracia da mesa que dirige os trabalhos, contratos de assessoria, celulares …

O mais antigo parlamento do mundo e a mais sólida das democracias não necessitam destes recursos e confortos, para desempenhar tarefas muito mais difíceis, responsabilidades muito mais pesadas do que as que enfrentam as casas, por exemplo, do Congresso Brasileiro…

Veja-se, como último exemplo desses hábitos e costumes consagrados pelo tempo, que, na cultura brasileira, seriam imediatamente “modernizados”, a questão do silêncio.

Qualquer Parlamento precisa enfrentar o problema do silêncio mínimo, para que as partes possam se escutar umas às outras.

Se a Assembleia Nacional Francesa (para tirar um pouco o foco do Brasil) ficar fora de controle, o Presidente aciona uma campainha estridente que apenas consegue elevar ainda mais os ruídos.

Mas, se a Câmara dos Comuns cair em desordem (o que raramente ocorre) o Speaker quase sempre consegue restabelecer a ordem, sem usar nenhum recurso mecânico, apenas erguendo-se de sua cadeira e ficando em pé, já que há uma regra (Standing Orders) que exige que todos os deputados fiquem em pé se o Speaker se erguer. Bom, se tudo isso não for suficiente, resta ao speaker seu recurso final e mais radical: por o chapéu!

O discurso inaugural de Disraeli

A voz, um tanto forçada, surpreendeu e desagradou. Disraeli tentava provar que os irlandeses, em especial O’Connell tinham eles mesmos se aproveitado de subscrições semelhantes, as quais chamou de mendicidade majestosa.

(A Câmara que não aceitava uma oratória altissonante riu um pouco)

Não pretendo” – prosseguiu ele – “afetar que sou indiferente às dificuldades da minha posição (Novos risos) Estou seguro da indulgência dos veneráveis gentlemen (Risos e gritos, vamos ao assunto), asseguro-lhes que se não me quiserem ouvir, me sentarei sem murmurar (Aplausos e risos). Desejaria bem convencer a câmara a conceder-me mais cinco minutos (riso geral). Sou aqui esta tarde, Sir, não formalmente, mas de certo modo virtualmente o representante de um grande número de membros do parlamento (Gargalhada geral) para que sorrir (risos), porque me invejam (riso estrondoso e geral)?”

Se os veneráveis membros julgam legítimo interromper-me, submeter-me-ei (riso franco) Posso apenas dizer que nunca me conduzirei assim com quer que seja (risos) mas quero simplesmente pedir… (Risos) Nada há mais fácil do que rir (riso louco) […]”

Quando os risos cessaram ele retomou a palavra Vemos aqui sr. speaker os preconceitos filosóficos dos homens (Risos e aplausos) Respeito os aplausos, mesmo quando eles procedem de adversários (Risos) Creio Sir (gritos numerosos, vamos ao assunto). Não me surpreende em absoluto sir, a recepção que recebi (risos) Tenho recomeçado com frequência muitas coisas (risos) e muitas vezes acabei por atingir o meu fim (Ao assunto!), embora muitos me dissessem que ia falhar, como lhes sucedera a eles antes de mim.

Então, com uma voz formidável, olhando com indignação para os interruptores, erguendo as mãos e abrindo uma boca enorme, gritou num tom quase aterrador que dominou o tumulto:

Vou-me sentar, mas tempo virá em que os senhores me hão de ouvir

Calou-se. Seus adversários riam ainda; os seus amigos olhavam para ele, tristes e surpresos. Disraeli, sentado e silencioso, com a mão na cabeça encarava o fracasso público. Nunca assistira algo tão degradante.

No dia seguinte seu amigo Bulwer ouviu, do velho deputado irlandês Sheil sem aquelas interrupções o sr. Disraeli podia ter fracassado. Mas o incidente de ontem não foi um fracasso. Foi um esmagamento.”

À noite, durante um jantar, Sheil deu a Disraeli vários conselhos, a maior parte dos quais paradoxais, embora peculiares ao estilo de falar da Câmara dos Comuns. Fale com frequência, mas fale com brevidade. Conserve a calma e procure ser aborrecido; raciocine mal; surpreenda-os falando de pormenores; cite números, datas. Ao cabo de algum tempo a Câmara quererá ouvir seu espírito, suas ideias, sua eloquência, que, no fundo, todos sabem que você possui.

Passados alguns meses, um velho tory aproximou-se dele e disse: Já está então de novo sobre a sela; pode agora galopar