Qual o segredo do sucesso político?

Maquiavel argumenta que o sucesso do político depende de dois fatores: virtú e fortuna, isto é engenho (competência) e sorte.

Não basta a competência. Muitos que a têm em grau de excelência não alcançam o sucesso. Também não basta ser bafejado pela sorte. A maioria dos que com ela são premiados, também não se tornam políticos de sucesso.

Parece que Maquiavel, lá pelos idos de 1513 (quando o Brasil recém havia sido descoberto) isolou os dois elementos básicos que respondem pela grande maioria de casos de sucesso na política.

Competência e Sorte ou, como ele dizia, Virtú e Fortuna.

Não basta possuir em boa quantidade ambas as condições. É preciso apoiar-se em ambas no momento certo.

Por competência deve-se entender as principais virtudes que se costuma atribuir aos estadistas e políticos: determinação, coragem, lucidez, estratégia, disciplina, conhecimento, ousadia…

Por sorte deve-se entender o benefício de uma ocorrência favorável que não resultou de uma ação consciente e racional para causa-la.

O primeiro atributo é o resultado da vontade, do planejamento e das ações eficientes para alcançar o objetivo buscado. O segundo é obra da oportunidade, que vem ao encontro do político. Resultam de ações/inações sobre as quais não tem responsabilidade, mas que o beneficiam. Maquiavel chama-a de fortuna (sorte).

Maquiavel usa duas imagens para ilustrar o poder da fortuna nos assuntos humanos: a enchente de um rio e a mulher. Ao se referir à mulher o faz conforme os critérios de avaliação social da época.

“Eu comparo a fortuna a uma daquelas enchentes torrenciais de um rio que, quando transborda inunda planícies, derruba arvores, destrói edificações remove a terra para depositá-la em outro lugar, frente à qual todos fogem, submetem-se à sua fúria, incapazes de resisti-la. Isto não significa que não se possa construir canais e represas. O mesmo acontece com a fortuna que exerce todo o seu poder quando não há força (virtú) que a ela se oponha.”

“A fortuna é como uma mulher, e é necessário, se você quer dominá-la, conquista-la pela força; e sabe-se que ela deixa-se dominar pelos ousados e não pelos que procedem friamente.”

Na sua famosa carta a Piero Soderini de 1513 (ano em que lançou o Príncipe) ele anotou à margem do texto para reflexão posterior,

“Também como a mulher a fortuna é amiga dos jovens porque ele são menos tímidos, mais brutos e a domina descuidadamente”

Neste trecho fica evidente a convicção de Maquiavel sobre a mulher e sobre a sorte. Esta última expressa na frase romana muito conhecida:

“Fortes fortuna adjuvat”
(A sorte ajuda os fortes)

Finalmente Maquiavel também argumenta que a Fortuna se encarrega de 50% das ações humanas; mas as outras 50% são comandadas pela virtú.

Os políticos, na prática de suas funções, atribuem um poder desmesurado às suas ações conscientemente concebidas para atingir os seus objetivos. Tudo que efetivamente acontece decorre, segundo eles, de intenções e de ações.

Esse vezo analítico leva com frequência a um ‘psicologismo’ vulgar na interpretação dos fatos – a descoberta das intenções, o que supõe abandonar o mundo dos fatos objetivos pelo subjetivo isto é, descobrir o que os outros escondem. O que Maquiavel nos ensina é que o que importa identificar é o beneficiário do resultado da ação. Em outras palavras, responder à indagação feita pela clássica frase latina: cui prodest. (a quem beneficia)

O político deve esgotar as possibilidades ao seu alcance para alcançar os objetivos buscados. Não pode ficar esperando passivamente que os acontecimentos os carreguem para a realização dos seus objetivos. Mas o fato é que os acontecimentos por vezes carregam….

Um aspecto do atributo da Virtú (competência) indispensável para o sucesso é ser capaz de entender seu tempo. Cada época – histórica e localizadamente determinadas – se distingue e singulariza por suas características peculiares.

É uma inegável que essas situações favorecem mais alguns atores políticos que outros. Em certos casos elas excluem alguns atores de alcançar o poder, não obstante a virtú que possuam. Ou então abrem novas oportunidades, que até então estavam fechadas, dele exigindo que se adaptem sem perder tempo às novas circunstâncias, para recuperar sua capacidade de ação.

Nenhum exemplo é mais evidente desta última situação que o proporcionado por Lenin quando exilado na Suiça em 1917.

Em 22 de janeiro de 1917 em Zurique, Lenin disse numa palestra para jovens sobre a revolução de 1905:

“Nós da geração mais velha podemos não estar vivos para ver as batalhas decisivas dessa próxima revolução”

(To The Finland Station – Edmund Wilson)

Em fevereiro de 1917 houve o primeiro surto revolucionário daquele ano destronando o Tzar Nicolau II. Lenin de início não acreditou nas notícias que a ele chegaram.

Em abril chegou em São Petersburgo a bordo do famoso trem blindado que a Alemanha (em guerra com a Russia) colocou à sua disposição para viajar à Russia. Em 16 de abril de 1917 chegou na Estação Finlândia em Petersburgo, assumindo logo o comando da revolução russa que até então ele considerava que não aconteceria durante sua vida.

Ele não hesitou em seguir a fortuna, expos-se ao risco de ser acusado de traidor a serviço da Alemanha e, em outubro do mesmo ano comandou a revolução.