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Entrando em parafuso

Esta situação pode ser caracterizada com a imagem de um avião “entrando em parafuso”

Esta situação pode ser caracterizada com a imagem de um avião “entrando em parafuso”, condição em que o piloto perde completamente o comando sobre o aparelho, que se projeta para o solo em espirais que lembram as do parafuso.

Qualquer candidato tem “marcas próprias de nascença”. Afinal, ele tem uma história. Se for político, tem o seu passado, e o passado do político nunca é esquecido. Nele, haverá o registro de suas declarações (algumas vão persegui-lo por toda a vida), suas decisões de voto ou em cargo executivo, suas relações com o Imposto de Renda, acusações que lhe foram feitas e não foram adequadamente respondidas, escândalos em que seu nome foi ou esteve envolvido, etc.

Se não for político, também tem passado. Seus negócios, sua reputação profissional, suas opções políticas no passado (até na política estudantil), amigos e relações mais próximas, sua atividade em associações, etc. O candidato, quando formaliza sua candidatura, traz consigo estas marcas de nascença, que serão obviamente pesquisadas por seus adversários.

No correr da campanha pode então surgir uma acusação grave. Em geral refere-se ao passado, tanto o remoto como o mais recente.

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Não se esqueça nunca que a melhor defesa é o ataque. A pior defesa é ficar a campanha toda dando múltiplas e frequentes explicações para uma acusação

Tende a ser de três tipos principais:

  • Declaração “infeliz” da qual existe registro impresso ou gravado;
  • Acusação já feita no passado, e que, não tendo sido cabalmente respondida, permanece uma questão em aberto;
  • Revelação de alegada descoberta de fato delituoso que teria sido cometido pelo candidato, ou de um escândalo em que seu nome está envolvido.

Nos três casos, o surgimento (ou ressurgimento) da declaração ou do fato imputado, “abalroa” a candidatura, tirando-a de seu rumo. Como tal, significa um atraso na campanha, que terá que dedicar tempo valioso para lidar com o problema.

Diante da exploração da matéria pelo adversário, o candidato enfrenta as conhecidas alternativas:

Alternativa 1: Ignorar ou minimizar a acusação

Alternativa 2: Não se explicar e contra-atacar

Alternativa 3: Explicar-se e contra-atacar

Se a acusação for grave, a declaração for muito infeliz e desgastante, a questão não respondida no passado for relevante para o eleitor, a única alternativa recomendável é a : explicar-se e contra-atacar.

Não se esqueça nunca que a melhor defesa é o ataque. A pior defesa é ficar a campanha toda dando explicações, sendo assim pautado pelo adversário.

As demais alternativas são úteis e válidas apenas e tão somente para acusações/declarações que prejudicam, mas não abalam a candidatura. Em outras palavras, questões de pequena gravidade à média. Questões de grande gravidade exigem respostas claras, cabais, documentadas, seguidas de contundente ataque ao adversário que as usou. E aí é que reside o problema.

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A explicação das explicações já feitas é fatal. Ela comprova para o eleitor que o candidato estava escondendo fatos relevantes

Muitas vezes, o ataque é de natureza exploratória. O adversário torna público apenas uma parte, em geral a menos grave, da acusação, ou usa em dose pequena a exploração da declaração ou questão não respondida no passado nas suas peças publicitárias.

O candidato atacado não pode ter certeza de que o adversário esgotou naquele ataque as informações que possui. Terá que decidir o que fazer sem saber isto. Se o ataque for exploratório, o objetivo do atacante (que deve também estar testando a questão em pesquisas) é fazer com que o candidato dê uma resposta incompleta, parcial, já que, a matéria possuindo maior gravidade do que foi inicialmente divulgado, não é do seu interesse “ir mais fundo nela”.

Se o atacante não possuir mais nada, o atacado escapa com a explicação parcial e incompleta. Se, ao contrário, tratava-se de um ataque exploratório, o atacado caiu na armadilha: deu a explicação parcial e incompleta, e recebe imediatamente o impacto de novas informações, que comprovam que sua explicação não é verdadeira, que omite aspectos importantes, em outras palavras, que está escondendo algo, que está mentindo. É nestas circunstâncias que a candidatura “entra em parafuso”.

À revelação de que a explicação era parcial, incompleta e omitia aspectos relevantes da questão, o atacado se vê na obrigação de “explicar a explicação” com novo pronunciamento, e assim a acusação mal respondida continua pendente sobre sua candidatura. O atacado sempre estará diante do dilema: “explico de maneira completa a questão, tocando nos aspectos mais graves e perigosos, ou continuo com respostas pontuais e parciais?”

A sequência de “explicação das explicações já feitas” é fatal. Ela comprova para o eleitor que o candidato estava escondendo fatos relevantes, e que, portanto, é culpado. É o padrão que caracterizamos como “entrar em parafuso”. A cada nova “re-explicação” o avião se aproxima mais do solo.

Se a armadilha foi bem armada e bem executada então, ela destrói a candidatura atacada. Exemplos de situações deste tipo são vários, desde Clinton e suas explicações não convincentes sobre aventuras sexuais, até o processo de “impeachment” de Collor, cuja origem foi uma CPI sobre PC Farias, que alcançou Collor meses mais tarde.