Estrutura e conjuntura politica são termos de uso frequente na linguagem da política. Jornais, redes sociais, revistas, noticiários de rádio e TV, debates, discursos. Seu uso é frequente, mas seu entendimento não. Na realidade podemos dizer que são termos técnicos da ciência política, da ciência econômica, da sociologia e das demais ciências sociais.

Estrutura social se refere ao conjunto organizado, padronizado e estável de relações institucionalizadas por meio das quais os seres humanos interagem e vivem em sociedade. A estrutura social é a base, não imediatamente visível ao observador não treinado, em razão do elevado grau de abstração em que é descrita.

Ainda que invisível ao olhar ingênuo, ela afeta a essência de todos os aspectos da vida humana em sociedade. Neste nível é o conceito de estrutura que explica as regularidades da vida em sociedade, à integração entre suas variadas dimensões e o processo de mudança social. Portanto é ao mesmo tempo consequência e determinação das interações sociais.

Ela só se faz cognoscível, na sua realidade e lento dinamismo, mediante rupturas conjunturais que, como “fendas” permitem enxergar o interior dos “blocos estruturais” normalmente espessos e de difícil visualização.

Inversa, mas correspondentemente, a conjuntura política compõe-se dos “fatos correntes”, visíveis no dia a dia da vida social e fartamente comentados pelos veículos de comunicação social. O problema com a análise política conjuntural é o risco sempre presente de tornar-se trivial, superficial e sem permanência, sujeita invariavelmente a ser superada por fatos supervenientes, embora da mesma natureza.

A interpretação dos fatos da conjuntura somente ganha solidez, adquirindo, portanto, importância própria e relevância como conhecimento, confiável quando, lógica e rigorosamente encarada e articulada, sob a forma de indicadores de resposta ao estresse a que os marcos estruturais estão sendo submetidos, pela pressão por mudança.

A autêntica análise política é exatamente aquela que consegue interpretar os fatos da conjuntura com referência à configuração estrutural viva e, identificar no fluxo conjuntural, os sinais indicadores das reações do processo estrutural.

Esta análise só pode ser feita se respaldada pelos procedimentos teóricos consagrados da Ciência Política, abordando os fatos correntes da conjuntura em dois planos:

  • no plano da sua relação contextual, qual seja da conexão dos fatos da conjuntura entre si.
  • no plano da sua relação estrutural, qual seja a conexão dos fatos da conjuntura com a matriz estrutural da sociedade.

Visualizada desta forma, a análise de conjuntura revela-se uma disciplina extremamente complexa, difícil, e intelectualmente desafiadora.

Interpretar processos políticos relacionando os eventos que os integram entre si com a matriz societária, é interpretar a história enquanto ela está ocorrendo e não “ex post facto”.

Portanto, a análise de conjuntura é um empreendimento intelectual que supõe conhecimentos sólidos, de amplo espectro e dotados de consistência metodológica.  Dentro dessa concepção, a análise da conjuntura é tarefa do cientista político, cujo treinamento intelectual o preparou para a compreensão da permanente e dialética interação entre conjuntura e estrutura.

O desprezo acadêmico pela área conjuntural reflete mais um certo tipo de formação… que levou a um certo tipo de definição de carreira … um certo tipo de preconceito… e, por fim a um certo tipo de desconforto para lidar com matéria tão poluída (o joio sempre será em maior quantidade que o trigo), sujeita a um dinamismo tão rebelde, a exigir um esforço permanente de “lavra, limpeza e lapidação”.

Ou seja, matéria de trabalhosa e difícil interpretação para encontrar os seus vínculos com os fundamentos estruturais da sociedade, mediante os quais a projeção de tendências, perspectivas e mudanças podem ser previstas.

Não é por outra razão que, quando se trata da política real, (como ocorre nas eleições, ou na operação de um programa de governo, ou ainda, durante a ocorrência de crises de governo) quando o pensamento estratégico e a capacidade de antecipação de tendências são decisivos e fundamentais, os agentes políticos recorrem preferentemente a políticos experimentados, a jornalistas especializados, a publicitários e marqueteiros, ao invés de cientistas políticos acadêmicos.

Buscam o assessoramento dos que tentam descobrir os desdobramentos políticos pelo acompanhamento diário dos fatos. Tal empreendimento, salvo os casos sempre raros de talentosos analistas, equivale a perseguir sua própria sombra.

Nenhum destes substitui, entretanto, o cientista político, treinado para analisar a dinâmica da política, como a resultante dialética da permanente interação entre estrutura e conjuntura política.

Ele é o profissional capacitado para a inserção neste mercado de trabalho, usualmente monopolizado por jornalistas, ou por profissionais autodidatas que não detêm os conhecimentos teóricos e metodológicos da Ciência Política.

De resto, esta sempre foi a forma de interpretar a política, praticada pelos seus mais qualificados representantes.

Desde o momento em que, com Maquiavel, a política conquista a sua autonomia frente aos princípios morais e religiosos, algumas das mais privilegiadas cabeças políticas da história praticaram, nas suas obras, estes procedimentos.

Assim agiu, por exemplo, o próprio Maquiavel.

Na sua obra, a matriz estrutural da sociedade italiana do renascimento, é o “sujeito oculto” da política italiana, conferindo ao jogo político conjuntural seu significado, estatuindo o que funciona e o que não funciona e definindo padrões de comportamento para o Príncipe conquistar e manter o poder.

Se a obra de Maquiavel, como aparece à primeira vista, se reduzisse a uma análise conjuntural, não teria sobrevivido 5 séculos, como livro de cabeceira de reis e de revolucionários e como a obra constitutiva da Ciência Política.

Tocqueville, tanto na sua magistral análise da sociedade americana, quanto no clássico “L’Ancien Régime et la Révolution”, vai encontrar, além dos hábitos políticos peculiares dos EUA, em padrões sociais e culturais evidentes no cotidiano dos americanos, indicadores sólidos para identificar marcos estruturais poderosos das duas sociedades que, tão profundamente pesquisou.

Na América Tocqueville analisa como as características (estruturais) sociais, culturais e históricas determinaram a forma de Democracia que lá se instituiu e, dialeticamente, na mesma obra, o impacto da democracia política na economia, na vida familiar e associativa, na cultura e valores e na forma de viver dos americanos.

No Ancien Régime, Tocqueville, mediante uma cuidadosa pesquisa dos Cahiers da Revolução, assim como do período que a precede, e dos eventos que a sucedem, é capaz de concluir de forma absolutamente inesperada pela identificação de uma linha de continuidade entre o Ancien Regime e a Revolução, (que antecipa Napoleão) mais consistente do que a dramaturgia da revolução, com seus personagens heroicos e trágicos, que povoaram os breves ciclos de sua evolução conjuntural.

Outro não foi também o método de análise de Burke sobre a Revolução Francesa comparada com a evolução política da Inglaterra.

Com Maquiavel e Tocqueville e Burke a interação entre a matriz estrutural e a dinâmica conjuntural, permitiu a eles dar significado em suas obras à frágil, mutável, e instável conjuntura e, ao olhar por entre as brechas e fendas que se abriam na sociedade, identificar os pilares que sustentavam a estrutura da sociedade tanto na sua estabilidade como na sua mudança.

O mesmo método de análise encontramos também nas obras políticas de Marx (O 18 Brumário, As lutas de classe na França), nos artigos de Hamilton, Madison e Jay, reunidos no clássico “ Federalista”, em Disraeli ao criar o “Tory Socialism” na Inglaterra, em Lênin e Trotsky na teoria e prática da revolução russa.

Não é este o local para expor mais detalhadamente esta concepção sobre a análise de conjuntura na política. Os exemplos referidos, porém, acredito que serão mais que satisfatórios, para provar que a concepção praticada nessas obras possui uma longa e nobre tradição na disciplina.