A postura rigorosamente oposta à da supervisão é a tentativa de administrar os detalhes. Este é o caminho por onde muitos dos novos administradores começam a sua jornada no governo.

Agem assim porque estão compreensivelmente inseguros, com muita hesitação para delegar poderes, desconhecem os funcionários com que devem trabalhar, desconfiando muitas vezes das possíveis armadilhas, cuja localização ignoram. Ao mesmo tempo, estão exacerbadamente conscientes das responsabilidades pessoais que assumiram.

pilha de papeis
A sobrevalorização da burocracia e seus vícios é um dos resultado de uma administração focada no detalhismo das operações

Trata-se, como se vê, de uma postura defensiva. O problema com esta atitude está no fato de que ela desloca o foco do governante das questões macro (formulação e viabilização de políticas públicas) para as questões micro (detalhes operacionais). O resultado de uma administração focada no detalhismo das operações é, invariavelmente:

  • a perda da perspectiva política por parte do governante;
  • a perda do “timing” de suas iniciativas e realizações;
  • a sobrevalorização da burocracia e seus vícios;
  • a ineficiência administrativa;
  • o desestímulo à iniciativa e criatividade;
  • a indução da timidez decisória, em todos os níveis de poder;
  • a imagem de uma administração “emperrada”, na qual tudo é difícil, lento e incerto;
  • a “super concentração” de atribuições e responsabilidades sobre o governante, roubando-lhe o tempo para desempenhar outras atividades que só ele pode assumir e realizar.

Embora compreensível, no caso de novos governantes, esta forma de administrar não deve ser praticada. Ela conduz a um labirinto burocrático sem saída.

O governante possui uma visão única e exclusiva. Nela estão integrados seus compromissos de campanha, a realidade da sua administração cotejada com as prioridades do seu governo, a estratégia política de implementação, o timing que necessita impor, os riscos que está disposto a correr, a política de comunicação com a opinião pública e os seus projetos políticos futuros.

Ninguém mais a não ser ele possui esta perspectiva. Governar equivale a fazer acontecer esta visão. Torná-la uma realidade.

Este é um desafio político, instrumentalizado pela administração dos recursos humanos e materiais que lhe são disponibilizados e/ou que ele mobiliza. Esta é a posição do governante, e não a de se substituir aos funcionários, encarregados de implantar as decisões, e se encarregar da operacionalização dos procedimentos administrativos.

Por isto sua esfera de atuação administrativa própria é a iniciativa, a criação, a decisão e a supervisão. Quem assume o poder sem possuir conhecimentos necessários para ocupar esta posição deve, imediatamente, adquiri-los por meio do estudo, aprendizado e assessoramento.

Cinco desculpas usadas para justificar a administração do detalhe

homem olhando com binóculos
O governante possui uma visão única e exclusiva. Ninguém mais a não ser ele possui esta perspectiva.
  1. “O público espera que eu tenha todas as respostas” – É verdade. Mas o público sabe que você não pode ter todas as respostas na “ponta da língua”. Sua responsabilidade é buscar as respostas com o seu corpo de funcionários, e transmití-las à opinião pública.
  2. “Como eu posso administrar se não conheço os detalhes?” – Você foi eleito para implantar um programa de governo e não para cuidar de cada detalhe de cada ação de governo. Para isto a sociedade sustenta um corpo de funcionários especializados.
  3. “É a melhor maneira de garantir que as coisas são feitas” – Ao contrário. Como foi demonstrado, este é o caminho mais certo para que as coisas não sejam feitas. Você garante a execução com uma supervisão inteligente, atenta e estratégica sobre seus subordinados e suas atividades.
  4. “Eu tenho experiência administrativa” – Esta então, é a mais forte razão para você não entrar neste caminho. Tendo experiência, poderá exercer aquela supervisão, e ocupar-se das questões que só quem possui a legitimidade do mandato pode.
  5. “É perigoso confiar nos funcionários, eles erram ou filtram as informações” – Se isto ocorrer você deverá confrontá-los e exigir a correção do erro ou descobrir as razões do filtro. Na imensa maioria dos casos os funcionários vão ajudá-lo a resolver os problemas. Se isto não ocorrer, você deve punir.