Dentre desastres que podem atingir uma candidatura, o escândalo político é um dos acontecimentos mais letais para produzir uma derrota certa ou a destruição de uma carreira política.

Nada apavora mais um político do que se ver subitamente às voltas com um escândalo.

Sim, subitamente, pois é normalmente dessa forma que o escândalo político faz a sua aparição. Escândalo político, entretanto, veio a se constituir num conceito próprio do mundo da política. Nem tudo que é escandaloso classifica-se como escândalo político.

É necessário então distinguir, com clareza, o escândalo político moderno de outras situações assemelhadas, que ocorrem na dinâmica da vida política.

  • Escândalo não é o mesmo que denúncia. Embora ele seja comumente veiculado por uma denúncia, esta não passa, na maior parte dos casos, do lance de abertura do escândalo. Além disso, há muitas denúncias e acusações que nunca chegam a se constituir num escândalo político;
  • Também não é escândalo um fato negativo, comprometedor ou até vergonhoso, mas que fica limitado ao conhecimento de poucas pessoas;
  • Um fato que é percebido como escandaloso, chocante, para um segmento limitado de pessoas, mas que é considerado, pelo eleitorado geral, como de pouca relevância, também não se qualifica como escândalo político;
  • De forma análoga, um fato ou ato político que, embora seja condenável e até chocante, mas que não demanda uma ação corretiva ou punitiva da parte de órgãos políticos, também não é escândalo, no sentido em que se pretende abordar aqui;
  • Finalmente, um ato ou fato político comprometedor, chocante, condenável, e até vergonhoso, que seria percebido como muito grave pelo eleitor, a exigir julgamento pelo poder público, mas que não ganha uma expressiva exposição pública pela mídia, não é escândalo político, ainda que possua todos os elementos para tal.

O verdadeiro problema, em muito desses casos, não é nem o que foi feito ou dito, e sim a dimensão de “escândalo” que assumiu, e a forma como a cultura política lida com escândalos na esfera política.

A acusação, a suspeita, a denúncia, feita contra um político ou governante, quando tratados pela mídia, adquirem imediatamente a dimensão de fato potencialmente escandaloso.

Ainda mais se outros nomes estão envolvidos, se a matéria se presta a desdobramentos, se seu conteúdo é chocante, se as circunstâncias do fato o tornam intrigante,  e/ou  se contrariam a imagem pré-existente da autoridade.

Pauta obrigatória da mídia, os jornalistas se desdobram na busca de mais elementos, em torno da pista que foi deixada pela denúncia inicial, e os veiculam com destaque.

Escândalo, portanto, é o ato ou fato político que, tornado público por denúncia e, configurando uma ilegalidade ou imoralidade que agride valores e sentimentos muito importantes para os eleitores exige comprovação por investigação pública, para apuração das responsabilidades e consequente punição, sendo por isso, ampla e continuadamente explorado pela mídia.

Escândalo, neste contexto, é a revelação de atos, fatos ou declarações comprometedoras, apoiados em indícios ou elementos de prova parciais e desarticulados entre si que, pelas declarações dos adversários e pelo tipo de cobertura da mídia, criam uma imediata presunção de culpabilidade.

Esta a consequência mais assustadora do escândalo: na cultura política brasileira dos tempos atuais, frente ao “escândalo”, em  muitos casos o julgamento condenatório vem antes da comprovação, socialmente invertendo-se o ônus da prova, cabendo ao acusado provar que é inocente mais que ao acusador provar que o denunciado é culpado !!!

Por essas razões, o escândalo é tão temido. Não há como sair ganhando, ou mesmo incólume, de um escândalo, depois que a mídia decide dar-lhe cobertura privilegiada e os adversários dele se aproveitam para desqualificar o acusado. O objetivo, portanto, ao lidar com ele, é sobreviver nas melhores condições possíveis, dentro das circunstâncias.

Escândalos podem ocorrer a qualquer momento, uma vez dadas suas condições básicas, mas tendem a se manifestar com maior frequência em períodos de fim de mandato ou no período eleitoral.