É.… às vezes você é obrigado a dar explicações. Ninguém gosta, mas em política, uma vez que a questão foi publicamente levantada e difundida não tem saída. Lá está você tendo que encontrar a melhor forma de explicar um fato ou declaração incômoda.

Muitas vezes são questões aparentemente menores. Mas elas logo se tornam grandes porque são tomadas pelo adversário (e pelo eleitor), como indicadores de uma falta de caráter, ou deficiência em um atributo considerado essencial ao cargo.

Na eleição para presidente realizada em 2002, surgiu um exemplo emblemático de “pequenas coisas” que se tornam grandes. O candidato Ciro Gomes costumava declarar que sempre estudou em escolas públicas. Há várias declarações suas gravadas em tape, onde ele aparece dizendo isto com todas as palavras.

homem sentando numa poltrona falando
Às vezes o candidato é obrigado a dar explicações

A equipe de Serra, fazendo sua pesquisa de investigação do adversário, descobriu que em 3 dos 15 anos de estudo de Ciro ele estudou em escola privada. Pronto. A questão – evidentemente menor – tornou-se uma questão de campanha porque está sendo explorada como evidência de que Ciro mente.

Ter estudado 3 anos em escola particular não é problema nenhum. Ter mentido, é problema para quem se propõe a ser o novo presidente da República. A tal ponto é problema que Ciro agora se refere ao assunto dizendo: estudei 12 dos meus 15 anos de colegial em escolas públicas!

Questões como estas acabam por exigir do candidato que se explique, o que sempre é ruim, porque o coloca na defensiva. Ciro corrigiu logo o problema. Reconheceu seu erro sem dizê-lo, mudando a maneira como se refere aos seus anos escolares. Poderá ainda ser cobrado, mas se não houver novos casos análogos, o tema morre, porque sozinho não terá o poder de sustentar a acusação de que Ciro é um mentiroso.

Mas há situações em que o problema não se resolve assim tão facilmente. Bill Clinton enfrentou um problema deste tipo na eleição de 1992: “o caso marijuana”.

Perguntado numa entrevista se já havia experimentado fumar maconha, Clinton respondeu “que uma vez, quando estava na Inglaterra estudando, tinha tentado, mas que não gostara. “ Como sentiu que era pouco o que dizia, acrescentou, “Mas eu não traguei”!!

Se a for explicação pobre, incompleta, meio verdade/meio mentira pode expor o seu caráter a uma séria dúvida

Clinton, aliás, vai entrar para a história, como o político que forneceu as mais antológicas “explicações fajutas”, aquelas que não explicam. Mais tarde, já Presidente, quando do “affair” Mônica Lewinsky, ele vai reincidir no mesmo erro, ao tentar definir, com nuances de um moralista medieval, o que é ato sexual e o que não é.

Ao completar com a frase, “Mas eu não traguei”, Clinton se autocondenou. Deu a explicação que não explica. Afinal o que ele estava fazendo com outras pessoas que fumavam maconha? Em que companhias andava? Porque aceitou o cigarro? Estas eram questões que ficavam na cabeça das pessoas que também estudaram, que também foram jovens, que também poderiam ter fumado maconha, mas que não fumaram.

Não traguei”, não só não o absolvia, como passava a impressão de uma pessoa que não tem coragem de assumir a responsabilidade pelo que faz, e busca uma “explicação fajuta”, para escapar. Aí está. Novamente o pequeno torna-se grande, porque é visto como indicador de falha de caráter, ausência de um atributo moral indispensável ao cargo que disputa.

O mais grave, e depois que se entra numa situação destas, sempre aparece o mais grave, é que anos atrás, na década de 1970, perguntado sobre a mesma questão, ele havia respondido de forma evasiva: “Eu nunca descumpri a lei neste país”.

Clinton, ao optar pela explicação pobre, incompleta, meio verdade/meio mentira, expôs sua personalidade e seu caráter a uma séria dúvida.

Melhor teria sido responder como respondeu, sem o anexo, “Mas eu não traguei”. Não se arriscou a mentir, dizendo que não tinha nunca fumado maconha, para não correr o risco de colegas daquela época virem á publico desmenti-lo. Como poderia saber se as equipes de investigação de Bush não tinham já depoimentos dos colegas?

O caso de Clinton ilustra antologicamente o efeito negativo das explicações que não explicam, das meias verdades, como estratégia para escapar de uma revelação politicamente prejudicial.

Em casos como este, é sempre bom estar preparado. Por isso, neste site, alertamos que o candidato deve começar por uma impiedosa investigação de sua biografia, antecipando-se ao surgimento de revelações ou declarações suas que podem ser exploradas pelos adversários.

Diante da revelação, a melhor estratégia é:

  1. Não mentir (seu adversário provavelmente tem um dossiê completo sobre o assunto, e, depois de mentir, ficará mais difícil ainda de justificar-se);
  2. Não usar o expediente da meia verdade, ela simplesmente não convence;
  3. Explicar da melhor maneira que puder, de forma concisa mas completa, com uma versão que possa ser sustentada, e que não seja questionada no dia seguinte, com novos dados;
  4. Dar à explicação a dimensão devida. Não dê importância maior do que tem, mas sobretudo, não dê importância menor do que possui;
  5. Passar para outros assuntos, que são aqueles que verdadeiramente interessam ao eleitor, e que estão em debate na campanha. (Mas atenção, este último passo só será aceito pelo eleitor se os anteriores forem bem resolvidos.)

A lição de Clinton tem duas vias. De um lado mostra como uma questão aparentemente menor pode tornar-se numa questão central, de outro, mostra que é possível sair da situação.