O poder sempre carrega uma aura de mistério. Em todos os tempos, em todas as civilizações, o detentor do poder separa-se do comum dos mortais por símbolos, procedimentos especiais, prerrogativas, trajes e moradias diferenciadas e exclusivas, regulamentação rigorosa do acesso a ele, tudo isto e muito mais, conforme a sociedade, para assinalar a sua preeminência, sua hierarquia superior, sua maior importância.

Ao longo da história, mesmo indivíduos que conquistavam o poder insistindo na sua igualdade com as pessoas comuns, uma vez nele instalados, submetiam-se às regras da “sacralização” do poder que neles estava investido.

É este processo de “sacralização do poder” – que não necessita possuir uma base religiosa – que, ao afastar o governante do “convívio” com os governados e conferir-lhe a posição “sui generis” que desfruta, introduz aquele elemento de “mistério” em torno de sua pessoa.

À sua preeminência corresponde a deferência; à hierarquia superior o respeito e obediência; ao mistério um suspense continuado sobre suas intenções e ações, que às vezes transforma-se em temor.

Esta não é uma condição exclusiva da política. Todas as organizações que se pretendem permanentes e que se propõem a exercer uma influência sobre os indivíduos, administram proximidades e acesso aos seus líderes, mediante fórmulas, rituais e regras, mantendo assim o seu “mistério”. Assim é com as religiões, com as profissões (atente-se para o mistério que cerca a profissão médica), com instituições educacionais como universidades, com a carreira militar, etc.

Na política, entretanto, um certo mistério, suspense, e uma calculada imprevisibilidade, são recursos que um líder e governante necessita para manter-se no poder.

No jogo da política, todos, tanto os auxiliares mais próximos, quanto seus adversários, a mídia, os grupos de interesse organizados, os demais políticos, e até os eleitores, estão sempre tentando “decodificar” o líder.

Há, pois, um trabalho que é levado a cabo diariamente, por todas estas pessoas, com o objetivo de “abrir o livro”, isto é, de conhecer as ideias, opiniões, sentimentos, avaliações e planos do governante.

Por isso são tão atraentes as publicações que prometem “informações reservadas”, por isso há tanta curiosidade sobre a vida pessoal dos líderes.

Quem conhecer suas ideias, opiniões e planos, pode antecipar-se e tirar vantagem ou defender-se delas.

Da parte do governante, no momento em que ficarem conhecidas suas intenções e planos, ele imediatamente perde grande parte de sua importância e até do seu poder para implantá-las.

Ninguém melhor que De Gaulle – que sempre cultivou o mistério em torno de si – definiu esta necessidade de o líder político preservar a sua imprevisibilidade e cultivar o seu mistério:

De Gaulle: “Falar é diluir o pensamento, é dar vazão ao ardor, em suma, a dissipar a força, enquanto que a ação exige a sua concentração”

“Em primeiro lugar, e acima de tudo, não pode haver prestígio sem mistério, pois a familiaridade produz o desprezo. Todas as religiões possuem o seu santo dos santos e nenhum homem é um herói para o seu empregado de quarto. Os projetos, o comportamento, as operações mentais de um líder, devem possuir sempre um algo que os outros não conseguem entender, que os intriga e que os agita, atraindo a sua atenção. Esta atitude de reserva exige, como uma regra, uma economia correspondente de palavras e gestos. Nada reforça mais a autoridade que o silêncio. O silêncio é a maior virtude do forte, o refúgio do fraco, a modéstia do orgulhoso, o orgulho do humilde, a prudência do sábio, e o bom senso dos tolos”.

O conselho de De Gaulle é duplo. De um lado, aconselha o governante a cultivar o seu mistério. De outro, alerta para o risco maior que corre, o adversário mais traiçoeiro que o ameaça: o ato de falar. É pela palavra e pelos gestos que o político o mais das vezes revela seu mistério e abre mão de sua imprevisibilidade.

Falar, e mais grave ainda, revelar pensamentos, planos, opiniões, torna o político banal, porque previsível, abala os fundamentos de sua liderança, ao revelá-lo igual aos outros.

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Para Gracián, a maioria das pessoas desvaloriza aquilo que facilmente entende, e veneram o que não entendem

Gracián vai ao ponto de alertar que o político no poder não deve expressar suas ideias muito claramente:

“A maioria das pessoas desvaloriza aquilo que facilmente entende, e veneram o que não entendem. Para serem bem valorizadas, as coisas devem ser difíceis. Para conquistar o respeito, pareça mais sábio e mais prudente do que seria exigido pela pessoa com quem você está tratando. Faça com que ele fique intrigado e tentando entender o significado do que você falou. Mas faça-o com moderação”.

Falar muito, falar sobre si, é ordinariamente percebido como um sinal de fraqueza que induz a desvalorização e o desrespeito, muito embora o sentimento inicial daquele para quem se falou possa ter sido de lisonja e orgulho. Este sentimento muda ao longo do andamento da conversa. Falar muito, falar sobre si, é o que fazem as pessoas comuns. De um líder espera-se reserva, discrição e mistério.

Novamente é De Gaulle quem o diz de forma lapidar:

“O homem que é movido por desejos ou por medo, é conduzido naturalmente para buscar alívio nas palavras. Se ele cede à tentação é porque, ao exteriorizar sua paixão ou seu terror, ele tenta lidar com eles. Falar é diluir o pensamento, é dar vazão ao ardor, em suma, a dissipar a força, enquanto que a ação exige a sua concentração. O silêncio é a preliminar necessária para o ordenamento do pensamento. Os homens instintivamente desconfiam de um líder que fala demais. Mas este hábito sistemático de reserva, adotado pelo líder, produz pouco ou nenhum efeito, a menos que seja percebido como a forma pela qual ele oculta a sua firmeza e determinação. É precisamente do contraste entre poder interior e controle externo que a ascendência é reconhecida, assim como o estilo num jogador consiste na sua capacidade de mostrar mais frieza que o usual, quando aumenta a aposta, e a qualidade de um ator está em mostrar emoção, mantendo controle sobre si”.