Fidelidade partidária, quando existe, é um sentimento muito forte e permanente. Fidelidade, por si só, já é uma palavra muito expressiva, que conota a ideia de um vínculo livremente assumido como obrigatório. Como todo sentimento, é subjetivo e submete o comportamento do indivíduo ao julgamento irrecorrível do tribunal da sua consciência. Fidelidade é percebida como uma virtude que honra quem a pratica.

Muitas vezes não é uma virtude fácil de ser exercitada, podendo envolver sacrifícios, como a perda do patrimônio, do status, da liberdade e até da própria vida. Sendo um vínculo perene que, a partir do livre arbítrio, o indivíduo assume como obrigatório para si, a fidelidade é outorgada a pessoas e entidades que ele respeita, admira e elege como modelo. Pela própria natureza pessoal do vínculo, a fidelidade é estendida com maior facilidade a pessoas que a organizações e entidades.

Socialização política

A palavra fidelidade passa a ideia de um vínculo livremente assumido como obrigatório

No âmbito pessoal, o estabelecimento do vínculo decorre de uma escolha feita em resposta a um sentimento radicalmente íntimo. A opção é definida na esfera subjetiva dos sentimentos, na qual o indivíduo goza da mais ampla liberdade.

No caso das instituições, o vínculo tende a surgir como parte do processo de socialização da criança e do jovem – mediante o qual há um treinamento para o convívio coletivo. Assim, a principal agência de socialização – a família – naturalmente transfere suas lealdades organizacionais para os membros jovens. Naturalmente porque se trata de uma comunicação tipicamente familiar: mesclando informação com afetividade, traduzindo ideias e princípios em exemplos pessoais visíveis (pais, irmãos, familiares), introduzindo a criança na divisão nós x eles. Por conta disso, os filhos tendem a adotar a religião, a classe social, o time de futebol da família, e, quando existe identidade partidária, o partido político da preferência de seus familiares.

Entretanto, para que o processo de socialização siga tal curso, é indispensável que as organizações tenham duração e continuidade temporal. Este atributo está presente nas organizações religiosas, na classe social, no clube de futebol, mas não ocorre da mesma forma com os partidos políticos.

Causas da fragilidade dos partidos no Brasil

Os partidos políticos no Brasil são de duração geracional. Desde a democratização, em 1946, até os dias atuais, vivemos sob três ciclos de sistemas partidários: o multipartidarismo, entre 1946 e 1966, o bipartidarismo, de 1966 a 1982, e, novamente, o multipartidarismo, a partir de 1982. Nesses 59 anos, cada período teve uma duração média de 19 anos, e, na vigência de cada novo sistema, mudavam-se os nomes, os símbolos, os integrantes e até os compromissos programáticos dos partidos.

Em 1945, a Quarta República começava no Brasil com Gaspar Dutra, do PSD, eleito presidente pelo voto popular

Não surpreende, pois, que a fidelidade partidária seja tão baixa no país. Os partidos não duram o suficiente para constituírem uma história, criar uma tradição e fixar uma ligação sentimental com os eleitores que possa ser transmitida de geração a geração, como ocorre com os clubes de futebol. Em consequência, a maioria dos brasileiros não desenvolve uma identidade partidária.

A avaliação negativa da política e dos políticos impede que se desenvolva, na nossa cultura política, respeito e admiração em torno dos partidos, sentimentos capazes de estimular a identificação e a lealdade partidária. Já a frequente mudança do sistema partidário estigmatiza os partidos com as marcas da fragilidade, irrelevância e instabilidade.

Também a origem parlamentar dos partidos os isola dos eleitores, com quem eles somente travam contato no período eleitoral. É a combinação destes fatores que contribui poderosamente para que na nossa democracia, ao contrário de outras, os eleitores não desenvolvam lealdade partidária, privando o sistema político de partidos fortes, duradouros e coerentes.