Nada expressa melhor o poder descomunal que adquire o demagogo que lidera a campanha de “caça às bruxas” por meio da perseguição política desencadeada pelo uso e abuso da “culpa por associação” do que o telegrama que o senador McCarthy teve a ousadia de enviar ao presidente dos EUA, Truman, em fevereiro de 1950.

Não se tem notícia na história política americana, mesmo nos episódios que antecederam a Guerra Civil (1861), de semelhante atropelo da cortesia institucional mínima e do desrespeito pela mais alta autoridade do país.

Neste telegrama, McCarthy trata o presidente como uma autoridade inferior, suspeita de transigência com a traição e sujeito a receber e atender ordens de um senador.

Senador Joe McCarthy
Senador Joe McCarthy

McCarthy somente assumiu essa posição porque o povo americano havia sido levado a um novo “Red Scare” (a ameaça vermelha) pelos demagogos como McCarthy pela extrema direita e pelo Partido Republicano que conquistara a maioria nas duas casas do Congresso.

A violenta campanha anticomunista que já havia começado com o processo contra Alger Hiss e contra os 10 de Hollywood (Ver colunas sobre o Macartismo no site) ganhava agora novo ímpeto.

Novo ímpeto em razão da explosão da primeira bomba nuclear soviética, rompendo com o monopólio americano na produção desses artefatos, pela revolução chinesa e pela recém iniciada Guerra da Coréia.

O gabinete de McCarthy fazia chover acusações sobre acusações todos os dias, mantendo a mídia sempre em volta de si, aguardando a nova revelação do dia.

Segundo ele, havia uma macro infiltração comunista no país que se estabelecera na sociedade (escolas, universidades, sindicatos, na indústria cinematográfica, em jornais, rádios e tv) na política (partidos, espiões, e até países) e no próprio governo americano (na Casa Branca, no Pentágono, nas Forças Armadas, nos departamentos de governo, nos governos estaduais e locais e no Congresso).

Era a versão americana do terror estalinista da década de 30 contra o trotskismo real e construído quando, pelo uso de expedientes como culpa por associação, condenações sem provas, inversão do ônus da prova, tortura e ameaça de vingança sobre familiares, os velhos bolcheviques que haviam feito a revolução eram submetidos às infames acusações de Vichinsky nos tribunais revolucionários e ao desfecho pela pena de morte.

Este “pavor vermelho” tornou-se uma verdadeira histeria coletiva nos Estados Unidos, adequadamente caracterizado como “caça às bruxas”.

Bastava acusar alguém para que ele – seus familiares e amigos – adquirissem a pecha de comunistas e perdessem seus empregos, posição social, respeitabilidade e, na prática, seus sagrados direitos constitucionais, que nem durante a guerra haviam sido desrespeitados.

Os EUA tornaram-se o reino da denúncia sem provas, do medo, da culpa por associação (guilt by association), do “politicamente correto” fixado pelo macartismo, da incerteza e insegurança, da obsessão de mostrar-se inocente antes mesmo de ser acusado.

A maior obra literária sobre este período é a peça de Arthur Miller “The Crucible”, conhecida entre nós como “As Bruxas de Salem”, que trata de um episódio real de “caça às bruxas” em 1692, na cidade de Salem, em Massachussets.

Recomendo insistentemente que esta obra seja lida, e os dois filmes (As Bruxas de Salem e Culpado por Suspeita) que foram produzidos sejam vistos. Mais que uma obra de arte é uma lição sobre os riscos da intolerância, do preconceito, do populismo e da facilidade com que uma sociedade pode tornar-se prisioneira de uma histeria coletiva.

Telegrama Mccarthy para Truman…

Telegrama do Senador Joe McCarthy
Telegrama do Senador Joe McCarthy

… e resposta de Truman

Resposta Truman
Não há certeza de que este telegrama de resposta do Presidente Truman ao Senador McCarthy tenha sido efetivamente enviado