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Lições sobre a política inglesa com o casamento do Príncipe Harry

Príncipe Harry

Não deve surpreender que o casamento do príncipe Harry em 2018, assim como o de seu irmão o príncipe William em 2011, o de seu pai Charles com a princesa Diane em 1981 e o da Rainha Elizabeth II em 1953 completam um ciclo de 65 anos e de 3 gerações da família real, com solenidades muito semelhantes quanto ao ritual (tradição) ao mesmo tempo com mudanças pontuais, peculiares a cada época e às pessoas que os protagonizaram (mudança).

O apego britânico às tradições já atraía a atenção no século XIX, como continuou atraindo no século XX e XXI. O casamento do príncipe assim como outros casamentos reais acarretou um espetáculo em que, a parte mais significativa foi a atração que despertou entre os súditos ingleses, sua ingênua e simpática participação, a indicar o elevado grau de legitimidade que goza a instituição da monarquia até os nossos dias.

Não houve manifestações de desrespeito ao ato, ainda que por certo deva haver muitos ingleses republicanos. Não houve contestação ao fato de que a princesa seja negra de origem, que não seja nobre de nascimento, que possua certos valores pessoais que a tornem diferente neste aspecto da nobreza convencional (p. ex. sua entrada no templo sozinha).

Exemplos de mudanças como essas fazem parte da astúcia e lucidez da família real, por meio da qual evidencia a capacidade de uma instituição milenar aceitar a mudança como estratégia de preservação.

A preocupação com o respeito à tradição está presente em todos os aspectos da sociedade britânica e em todos os seus setores sociais. Em 1832 a nobreza perdeu a hegemonia política que exercia na Câmara dos Comuns, pelo ingresso de uma agressiva burguesia, de origem industrial e comercial. A burguesia foi educada (sobretudo os jovens -2ª. geração) para as funções até então exclusivas da aristocracia.

Ao invés de lutar contra esta realidade, os ingleses abriram aos poucos os espaços, até então exclusivos da aristocracia, para um ingresso seletivo da burguesia não só no parlamento, mas na propriedade rural, nas associações, nas escolas públicas e nas famílias. Rendeu-se ao inevitável, já que o inevitável não se combate, se patrocina, em flagrante contraste com a atitude da nobreza europeia continental.

Há uma frase notável por sua concisão e realismo que expressa esta atitude. Ao referir-se à burguesia um nobre dizia:

“…rule England he might, but as a gentleman, not as a bourgeois”

(Ele poderá governar a Inglaterra, mas como um gentleman não como um burguês)

Ninguém melhor que Walter Bagehot no século XIX, em sua obra clássica The English Constitution  (1867) , explicou a peculiaridade do sistema político inglês – uma monarquia numa época republicana – como uma combinação de ‘partes cerimoniais’ e ‘partes eficientes’.

Segundo ele assim ficara estabelecido na Gloriosa Revolução de 1688, quando William de Orange e a Mary Stuart assumiram o trono da Inglaterra, após a derrubada de James II, rei católico.

Como consequência dessa revolução, a monarquia inglesa passou de uma monarquia absoluta para monarquia constitucional, parlamentar. Segundo Bagehot a parte cerimonial do governo inglês seria constituída pela família real, a dinastia e a nobreza e suas instituições, enquanto a parte eficiente seria formada pelo Parlamento, gabinete e administração, gozando de independência em relação à monarquia.

“Não se consegue alcançar uma compreensão das instituições inglesas, e sua uma enorme influência sobre a população sem entender que é um produto desenvolvido por muitos séculos. Em tais constituições há duas partes: primeiro aquelas que excitam e preservam a reverência da população – partes dignificantes – e segundo as partes eficientes – aquelas por meio das quais o governo se exerce.

Os elementos que excitam mais fácil reverência são teatrais. Envolvem o que é místico, o que é oculto no seu modo de ação, o que é misterioso, o que é brilhante ao olho, o que aparece vívido por um momento depois desaparece, o que é escondido e descoberto.

O principal mérito da constituição inglesa é que suas partes dignificadas são ao mesmo tempo muito complicadas e de certa forma imponentes, muito antigas e bastante veneráveis; enquanto suas partes eficientes, pelo menos quando desafiadas a produzir ações grandiosas e críticas, são decididamente simples e modernas.

O segredo da eficiência da constituição inglesa pode ser descrito então como a íntima união, a quase completa fusão, dos poderes legislativos e executivos.

A mais importante razão pela qual uma monarquia é um governo forte está no fato de que é um governo fácil de entender.

A natureza de uma constituição, a ação de uma assembleia, a competição entre os partidos, a invisível formação da opinião, são fatos muito complexos, difíceis de conhecer e fáceis de induzir a erros.

A ação de uma vontade singular, a decisão de uma única mente são ideias fáceis: qualquer um pode entende-las e ninguém vai esquece-las.

Uma família real, ocupando o trono é também uma ideia interessante. Ela reduz o orgulho da soberania ao nível da vida comum. Nenhum sentimento pode parecer menos infantil que o entusiasmo dos ingleses com o casamento do príncipe de Gales. Eles tratam como um grande evento político aquilo que, olhado como uma matéria comum, é na realidade muito pequena. Todos, com exceção de alguns céticos, gostam de assistir uma bonita novela que, por um momento, acontece em meio às cenas banais de um mundo sério.

Em resumo, a monarquia é um governo em que a atenção da nação se concentra em uma pessoa praticando ações interessantes. A república é um governo no qual a atenção se divide entre muitas pessoas que estão fazendo coisas desinteressantes. Em consequência, enquanto o coração humano for forte e a razão humana fraca, a monarquia será forte porque apela para o sentimento difuso e as repúblicas serão fracas porque apelam para a capacidade de compreender.”

A comprovar que eventos organizados pela família real, tendo seus membros como protagonistas não excitam o interesse e a curiosidade apenas dos britânicos, mas de cidadãos de todos os países em escala mundial é o fato de que 3 bilhões de pessoas acompanharam o casamento do príncipe Harry, tanto na televisão convencional, como na internet. Em 2011, na união do príncipe William com Kate Middleton, o número de audiência foi de 2 bilhões.

A comprovar a solidez do sistema político inglês – da sua constituição como diz Bagehot – está sua capacidade de enfrentar isoladamente a Alemanha nazista de 1939 a dezembro de 1941, depois que esta dominara a Europa continental. A Inglaterra sozinha enfrentou como disse Churchill nos mares, no céu e na terra o imenso poderio militar do nazismo.

Suas partes eficientes, na terminologia de Bagehot “pelo menos quando desafiadas a produzir ações grandiosas e críticas, são decididamente simples e modernas” o que ficou comprovado no teste terrível da guerra.

Suas partes dignificantes souberam adaptar-se aos novos tempos adotando as mudanças necessárias e indispensáveis, sem abrir mão da sua majestade, da dinastia e dos rituais. Não deve pois surpreender que o casamento do príncipe Harry foi, mais uma vez o espetáculo que Bagehot descreveu há mais de um século atrás, em 1867:

Nenhum sentimento pode parecer menos infantil que o entusiasmo dos ingleses com o casamento do príncipe de Gales. Eles tratam como um grande evento político aquilo que, olhado como uma matéria comum, é na realidade muito pequeno”

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