Nações, como políticos, também têm uma imagem pública.

Imagens de nações são muito complexas porque compostas de múltiplos elementos que se expressam de muitas formas. Uma dessas formas são analogias com animais.

Assim, a Inglaterra é costumeiramente retratada como um cão bull dog, a Rússia costumava ser apresentada como um urso, a França como um galo, ou com figuras femininas como Joana D’Arc e Marianne.

Outra maneira de caracterizar uma nação era a escolha de um atributo comportamental muito saliente de sua cultura para identificá-la. Vários filmes, ao estilo da comédia, como “Esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras”, tinham como roteiro uma disputa entre as nações representadas por tipos humanos que ilustravam aqueles estereótipos.

Nessa maneira de se visualizar uma nação, por exemplo, a Alemanha era a terra da rigidez, da seriedade, do autoritarismo; os EUA o país da uniformidade, da eficiência e do “politicamente correto”; a Inglaterra, o símbolo da tradição, do conservadorismo e da pontualidade; o Japão, o país da obediência cega, da disciplina e organização extremadas; a Itália, terra da “fala solta”, da garrulice, da teatralidade.

No início do século XX, antes da I Guerra Mundial, essa maneira de resumir o “espírito” de uma nação chegou a assumir a forma daqueles estereótipos.

Vinte anos mais tarde, às vésperas da II Guerra Mundial, os estereótipos sobreviviam ainda, embora tratados pelo conceito de “caráter nacional”. Os traços humorísticos daqueles estereótipos transformavam-se em aspectos permanentes e irremovíveis de um presumível caráter nacional.

Muito da propaganda, durante a II Guerra, explorava aqueles atributos mais negativos do inimigo, que, duas décadas antes, tinham sido tratados com leveza e bom humor.

O Brasil tem imagem desde que surgiu.

Sim, num belo dia, inesperadamente, o Brasil surgiu para os portugueses que aqui aportavam. Como os outros países do Novo Mundo, o Brasil, ao contrário dos países europeus, é uma nação que tem data de nascimento.

A primeira imagem do Brasil encontra-se descrita por Pero Vaz de Caminha na sua célebre carta. Essa imagem pode ser resumida pela expressão “aqui, em se plantando, tudo dá” e pela descrição dos nativos.

Nascia com o Brasil a visão edênica com a qual o mundo daquela época viria a conhecê-lo. O Brasil seria, de acordo com essa visão, um “paraíso”, o jardim do Éden, puro, acolhedor, inocente e dotado de grandes riquezas escondidas.

A imagem de Éden perdurou por muito tempo.

Desde a vinda da Corte e a instalação do Reino no Brasil, em 1808, talvez tenha ganhado maior saliência o contraste entre o pequeno Portugal e o gigantesco Brasil.

A frase “Gigante pela própria natureza” do nosso hino expressa o conceito que vai orientar a nova imagem: o gigante. No hino vamos ainda encontrar anunciado outro traço da imagem: “deitado eternamente em berço esplêndido”.

No século XIX e XX, o aspecto negativo da imagem de grandeza do Brasil cristalizou-se nessas duas frases: um gigante que não usa sua força, um gigante preguiçoso, uma promessa que nunca se realiza …

O lado positivo da imagem era uma frase que foi dita de milhares de formas diferentes: “Brasil, país do futuro”.

Como esse futuro não chegava, em meados do século XX, nossa imagem nacional ganhou o reforço, confirmado pelo reconhecimento mundial, de duas atividades que se tornaram sinônimo de Brasil: a música e o futebol.

Surgia em todo seu esplendor a “terra do samba e pandeiro” do carnaval, da alegria, a terra encantada da “bossa nova, tudo muito natural”, e a “pátria de chuteiras” a conquistar inéditos cinco títulos mundiais.

A época em que vivemos e o progresso do país estão a exigir uma versão mais “hard”, mais moderna, atualizada e mais compatível com o século XXI, uma imagem que rompa com o estereótipo do gigante adormecido esperando para o futuro vir bater à sua porta, ou do gigante pobre mas alegre do carnaval e do futebol.

Nos próximos anos deste século vamos saber se o Brasil conseguiu impor uma nova imagem sua no mundo globalizado ou se continuaremos a ser aquele patético gigante.

O quadro exposto acima foi executado no início do século XVIII, na Styria, região da Aústria, e descreve as características mais marcantes de diferentes nacionalidades europeias, começando com a Espanha à esquerda e concluindo com os levantinos(referidos como turcos ou gregos). Essas várias nacionalidades são diferenciadas de acordo com características geográficas, sociais e morais. Essa descrição deixa ver a crença num alegado “caráter nacional” como uma disposição moral e psicológica por supostos traços comportamentais e diferenças culturais, típicas de cada nação.