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“Não aprenderam nada, nem esqueceram nada”

Charles Maurice de Talleyrand (1754/1838) foi o grande diplomata francês do fim do século XVIII e início do XIX. Hábil e inescrupuloso, serviu a vários regimes – de Luís XVI aos revolucionários, de Napoleão a Luís Filipe – naquele período conturbado da história de seu país.

Ele adquiriu notoriedade ao sintetizar em frases concisas e elegantes – mas também impiedosas e cínicas – o ceticismo quanto aos princípios políticos que povoavam a oratória de seu tempo. Como Maquiavel, Talleyrand interpreta a política como um jogo mais de interesses que de ideais, mais de egoísmo que de altruísmo – traduzindo uma visão não-convencional e marcadamente crítica do poder. Quando pronunciou a célebre frase: “Não aprenderam nada, nem esqueceram nada”

Talleyrand referia-se aos nobres que, após a derrota de Napoleão, voltavam do exílio. Tendo sido expropriados de suas propriedades, status e poder pela Revolução; escapado de perder suas cabeças na guilhotina e forçados a buscar o exílio para sobreviver, retornavam à França ansiosos para reaver o prejuízo, confiantes de que tudo voltaria a ser como antes. Recusavam-se a ver que a sociedade havia mudado para sempre.

Nobres franceses

Os nobres franceses recusavam-se a ver que a sociedade havia mudado dramaticamente – e para sempre: eles jamais recuperariam a autoridade que mantiveram durante o Antigo Regime

Não percebiam que os ares eram outros, que jamais recuperariam a influência que conservaram durante o Antigo Regime e que a burguesia e o povo haviam conquistado e ocupado espaços dos quais não abririam mão.

Esta cegueira política exteriorizava-se em atitudes e comportamentos que para Talleyrand pareciam caricaturas, pois tentavam reproduzir padrões sociais que deixaram de existir. O tempo se encarregaria de mostrar que ele estava certo. Entre 1815 e 1830, o projeto de restauração do Antigo Regime foi destruído por uma nova revolução, que conduziu ao poder um outro monarca, Luís Filipe, agora reinando dentro dos limites impostos pela monarquia constitucional, na qual a burguesia finalmente encontrava o poder político.

A expressão, entretanto, tem sido usada fora do contexto histórico em que foi concebida. Ela é uma manifestação do que chamamos de sabedoria da política, sendo útil para descrever uma situação que pode ocorrer a qualquer tempo e em qualquer lugar: aplica-se principalmente a políticos e governantes que se revelam incapazes de entender as mudanças e, de volta ao poder, tentam reconstituir situações e práticas que desapareceram. Isto é mais comum do que podemos imaginar. Para alguns políticos, compreender modificações e adaptar-se a elas não é simples e nem fácil, sobretudo se foram implantadas por adversários – o que configura a desautorização e a desqualificação da administração derrotada nas urnas.

Essa é a visão do político que estende a hostilidade ideológica aos atos administrativos de seu oponente. Não sabe que a ótica da população é outra. Se a reforma é percebida de forma positiva, ela é aceita e incorporada à rotina, adquirindo estabilidade e permanência. O retorno ao poder é, muitas vezes, erroneamente entendido como se o povo estivesse revogando a troca efetuada e restaurando a situação anterior. Não é assim. Se as alterações foram bem aceitas, a sociedade deseja sua manutenção – talvez com ênfase, estilo e gerência diferentes, talvez com correções e substituições de prioridades, mas certamente não com uma “volta ao passado”.

Charles Maurice de Talleyrand

Talleyrand interpreta a política como um jogo mais de interesses que de ideais

Caso as mudanças tenham sido repudiadas – ou sua implantação haja frustrado as expectativas – então a revogação se justifica. Mas atenção: muito provavelmente os eleitores não desejarão apenas “retornar ao passado”. Se já votaram pela mudança e ficaram decepcionados com seus efeitos, o desejo de recomeçar da forma certa possivelmente será mais forte do que a vontade de retroceder no tempo.

Para a maioria dos eleitores, um pleito é sempre a mobilização de esperanças. Habitualmente, o cidadão espera progresso, melhorias e avanços como decorrência do resultado das urnas. Mesmo as nações que vivem momentos de prosperidade crescente enxergam as eleições como momentos de renovação e aperfeiçoamento.

Nessas circunstâncias, tentar restabelecer o passado com seus personagens, seu estilo, suas prioridades, sua linguagem e seus hábitos significa contrariar o desejo de mudança projetado no processo eleitoral e, de quebra, ser objeto da crítica de Talleyrand: “Não aprenderam nada, nem esqueceram nada”.