O poder é solitário. Fundamentalmente, porque a responsabilidade pelo seu exercício é radicalmente individual. O governante pode ter tantos auxiliares quanto desejar, pode delegar-lhes poderes, mas, perante a lei, continua sendo o responsável legal.

Além desta razão básica, o poder conduz à solidão também porque, ao conferir autoridade e superioridade hierárquica, ele afasta seu detentor do comum dos mortais.

As pessoas comuns não se sentem autorizadas para aproximarem se da autoridade, privar de sua companhia, sem que para tal sejam convidadas. De outra parte, a autoridade preserva uma cuidadosa distância, para salvaguardar “seu mistério” e evitar os riscos de uma excessiva facilidade de acesso.

Por essas razões, há rígidas regras de protocolo, bem como procedimentos administrativos, que regulamentam o acesso do cidadão comum à autoridade pública.

Mais ainda. A autoridade pública possui, responsabilidades muito diversificadas, que exercem uma grande pressão sobre o seu tempo. Um governante, além das responsabilidades administrativas, possui outras de natureza política, social e cultural, igualmente importantes e indelegáveis, sem esquecer as de natureza pessoal e familiar.

Por todas essas razões é plenamente compreensível que ele se auto proteja das pressões, com o objetivo de reservar espaços de tempo para si mesmo, para pensar, refletir, conversar, planejar, decidir e também para garantir um mínimo de lazer, repouso, e atenção às questões pessoais e familiares.

O político se elege prometendo aos eleitores que seu gabinete estará sempre aberto para recebê-los, e depois no poder busca conquistar e preservar espaços de tempo para a sua privacidade.

A autoproteção é uma postura que defende e protege o direito de o governante ter tempo para pensar, planejar, discutir e decidir, antes de agir, o que não se consegue fazer, sem a necessária serenidade, privacidade, e respeito ao timing correspondente à cada situação ou problema.

É legítima, portanto a atitude de autoproteção que o governante adota. Sem ela, dificilmente poderia governar com eficiência.

Completamente diferente, na sua origem e consequências, é o isolamento. O isolamento do governante é um erro de gravidade muito grande, que costuma ser politicamente fatal.

Não importa a razão que leva o governante a se isolar. Pode ser a soberba e arrogância, pode ser a preguiça e o conforto, pode ser o zelo pelo trabalho, as consequências políticas costumam ser as mesmas: o desgaste de sua imagem, o afastamento da realidade, a perda de sensibilidade para as prioridades dos governados.

Há muitas razões que condenam a atitude de  isolamento de um governante, extraídas da história e da teoria política. Dentre elas, há duas especialmente críticas e decisivas: a necessidade da informação e a preservação do poder.

Necessidade de informação

A qualidade de um governo depende muito da qualidade e quantidade de informações que possui e processa. O governante sábio é um curioso. Interessam-lhe todas as informações que podem afetar o seu governo, tanto as positivas, quanto às negativas.

O governante que se isola, corta o fluxo de  informações que lhe chegam ou limita este fluxo ao conhecimento e à iniciativa daqueles que o cercam. No primeiro caso afasta-se da realidade. No segundo, torna-se refém dos seus auxiliares. Em ambos os casos ele toma o rumo do desastre político.

Os membros do governo tendem naturalmente a favorecer o isolamento do chefe. Eles já competem entre si pelo reduzido tempo do chefe para atendê-los, conhecer seus trabalhos, ouvi-los, tomar decisões.

Assim, instala-se, no interior de qualquer administração, uma dinâmica de isolamento que, se não for decididamente enfrentada, aprisiona o governante no Palácio de Governo e restringe os seus contatos aos membros do seu governo.

Esta dinâmica é muito forte, e não é claramente perceptível. Ela não resulta de uma decisão, mas sim de uma prática. Ela não é implantada, ela se instala.

Afinal, ela tem a seu favor uma realidade: os assuntos de governo são importantes, demandam tempo e continuidade. Frente a ela, os compromissos políticos e sociais da agenda sempre parecerão menos relevantes, e suscetíveis de serem postergados.

Só o governante, com a perspectiva única que o exercício do poder confere, pode defender-se desta dinâmica, estabelecer limites, e adotar critérios que assegurem a sua necessária autoproteção, sem condenar-se a isolamento.

São os espaços de tempo gastos fora da administração, com pessoas não comprometidas e independentes dele, que vão mantê-lo aberto às informações que poderão ou não confirmar aquelas que seus auxiliares lhe oferecem.

A conhecida anedota sobre Harum Al Rachid, que costumava vestir-se como um camponês e sair pelas ruas da cidade, para saber o que seus súditos falavam dele, é emblemática da necessidade de o governante ter acesso a informações desinteressadas, espontâneas e independentes.

É emblemática também, por revelar a dificuldade para obtê-las, a importância destas informações para governar e o fato de que ele não as vai encontrar simplesmente ouvindo seus auxiliares.

A preservação do poder

O poder não é um atributo abstrato de governo. É uma criação humana e possui uma base social. Autoridade é poder consentido, poder legítimo, isto é poder que os governados outorgam àqueles que vão governá-los.

Não se conquista o poder com o isolamento. Muito ao contrário, ele é conquistado com a aproximação, com a comunicação e  contato com os eleitores. De forma análoga, não se mantém o poder com o isolamento.

É óbvio que no governo, o político não pode dedicar ao eleitor, a mesma quantidade de tempo que dedicou na campanha. Nem dele se espera isto. Não obstante, o poder que conquistou nas urnas, revigora-se e renova-se no contato com os cidadãos.

O governante deve colocar-se no centro dos acontecimentos e eventos que mobilizam emocionalmente a população. Ele não pode admitir nem se conformar com barreiras, políticas ou psicológicas, que impeçam o seu livre acesso ao contato com a população que governa.

Haverá situações que, naquele momento e naquele lugar, desaconselham uma maior exposição pública do governante, para evitar manifestações de protesto, desagrado e censura. Mas muito cuidado. Essas situações não podem se cristalizar. Elas têm o poder de induzir à timidez, o medo, a insegurança e consolidar a perigosa prática de se expor apenas quando o aplauso e a aprovação são certos.

Quem segue este trajeto, perde a liderança e isola-se da realidade.

Muito mais proveito terá o governante que, preparando-se com antecipação, vai a uma região política hostil, enfrenta aqueles que o censuram, encara as vaias, mas ao final consegue sair-se bem, seja pela palavra, seja pela celebração de alguma realização positiva de seu governo. A prévia preparação tem a função de escolher esta oportunidade de forma a, minimizar os riscos e torná-la uma ação estratégica, para a afirmação da liderança do governante.

É o que vulgarmente se chama em política “transformar o limão em limonada”.

O apoio popular, traduzindo-se em aprovação e popularidade é a base do poder, o capital mais importante do governante. Este apoio somente se conquista e se mantém com a comunicação e o contato permanente com os cidadãos.

Esta necessidade de manter e ampliar o seu poder, deve funcionar como um freio, para controlar aquela tendência centrífuga, que transforma a autoproteção em isolamento.