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Não enfrentar uma dificuldade conhecida de sua biografia

Nenhum candidato precisa (ou mesmo deve) divulgar na sua propaganda, informações que podem ser prejudiciais à sua candidatura.

Esta é uma tarefa que interessa ao seu concorrente, que deverá julgar se lhe convém ou não usar a informação e arcar com o ônus ou o bônus de explorá-la politicamente.

Há, entretanto uma exceção àquela regra geral: quando o fato ou declaração potencialmente prejudicial é conhecido da opinião pública e relevante para o desempenho do cargo em disputa.

Nesta hipótese, fugir da dificuldade, seja fingindo que ela não existe, ou confiando que os adversários não a conheçam, ou se a conhecem não a usem, é um erro primário e de consequências muito graves.

Trata-se de um erro primário porque não é razoável contar com a improvável possibilidade de que o adversário ignore a informação, ou que, conhecendo-a, não a use em seu proveito. Sem esquecer que, além do adversário, a mídia poderá dar-lhe circulação.

Não se deve perder de vista, entretanto, que a observação se aplica, exclusivamente, a fato ou declaração de conhecimento público e relevante para o desempenho da função em disputa.

Não é, portanto qualquer episódio da biografia do candidato que se enquadra nesses critérios. Como regra, tudo o que diz respeito à intimidade pessoal, à vida familiar, enfim à esfera privada da pessoa do candidato tende a ser respeitado pelos eleitores e até mesmo pelos adversários.

A afirmação contém a reserva “como regra” porque diferentes sociedades possuem diferentes códigos de ética política, ou então a mesma sociedade, ao longo do tempo, pode mudar este código.

Por exemplo: o principal problema que Kennedy enfrentou nas eleições primárias em 1959 foi o fato de que era católico, num país predominantemente protestante.

A questão religiosa, uma questão estritamente pessoal e íntima, tornou-se politicamente relevante porque alguns grupos protestantes argumentavam que Kennedy, sendo católico, devia obediência ao Papa, e, em consequência, como Presidente ficaria submetido a uma autoridade externa.

Não foi fácil a Kennedy superar esta dificuldade. Entretanto, ele não procurou evitá-la. Tão logo ela se manifestou, ele tinha todos os argumentos prontos para enfrentá-la. Ele foi além, e escolheu o estado de West Virginia (maciçamente protestante) para liquidar a questão, propondo que o estado iria decidir em nome dos EUA, naquela eleição primária, se um católico não podia ser presidente.

Ao “virar o jogo”, criou um constrangimento para os eleitores de West Virginia: se escolhessem o outro candidato (Humphrey), estariam demonstrando para o mundo, que os EUA eram um país que praticava a discriminação religiosa. Kennedy venceu e esta questão religiosa nunca mais foi levantada nas eleições americanas que se seguiram.

No Brasil, em 1989, Collor explorou o fato de que Lula tinha uma filha de uma relação extraconjugal. Nos EUA a acusação seria, provavelmente fatal para as pretensões de Lula. Não no Brasil, onde questões como essas são consideradas como estritamente pessoais e, embora conhecidas, irrelevantes para a função pretendida.

Assim, o candidato deve investigar sua biografia e identificar a existência ou não de fatos ou declarações – públicas e relevantes- que podem ser prejudiciais à sua candidatura, assim como outros que, embora de natureza pessoal, são considerados comportamentos ou atitudes que desqualificam o indivíduo para a função pública, naquele meio social e cultural onde vive.

Existindo fatos/declarações desta natureza é melhor que o candidato se antecipe, e ele mesmo venha a público dizer:

  • que sabe que seus adversários vão tentar explorá-los politicamente;
  • que nada tem a esconder nem a temer;
  • que considera seu dever esclarecer os eleitores sobre a verdade;
  • para preservar a sua relação de franqueza e honestidade com eles;
  • e para evitar que os adversários os apresentem de maneira destorcida e politicamente interessada.

O objetivo é “desativar a bomba”, impedir que a questão se torne um tema de campanha e evitar assumir a posição defensiva, que poderia obrigá-lo a passar o resto da campanha se explicando.

Para esta estratégia funcionar, entretanto, é preciso que a explicação seja verdadeira. Ela tem que ser sincera, autêntica e cabal. Isto é deve ter o poder de liquidar a questão, removendo-a da discussão política.

Se não for possível explicá-la desta maneira, então o candidato deve assumir publicamente que errou; apresentar atenuantes do erro; e mostrar que aprendeu com ele.

As pessoas respeitam quem é capaz de reconhecer que errou, e que tem a humildade de se desculpar.

Não aceitam o candidato arrogante e superior que, mesmo diante de evidências incontestáveis, não se julga no dever de falar sobre o assunto, seja para desmenti-lo com elementos e argumentos persuasivos, seja para reconhecer o erro.