Pode ser cedo para anunciar sua candidatura, e começar o trabalho de conquistar votos, mas não é nada cedo para começar a preparar sua campanha. Talvez até você já tenha perdido um tempo precioso. Então, mãos à obra.

Porque é muito cedo para fazer a campanha?

Em primeiro lugar por causa da lei. No Brasil, a lei define com precisão o período legal de campanha. Ele chega, após os períodos, que também são legalmente determinados, de registro de candidatura junto ao partido, que, por sua vez depende de convenção partidária prévia, e de homologação formal pelo Tribunal Eleitoral.

Assim, ainda que por decisão pessoal você seja já um candidato, formalmente não o é, e não pode se apresentar como tal aos eleitores, nem colher fundos para a campanha.

Em segundo lugar, por razões políticas e não legais, não é este o momento de fazer campanha. O eleitor ainda não está focado na eleição – que a ele parece um acontecimento ainda remoto – e não terá interesse por campanhas, candidatos, propostas, neste momento. Por fim a mídia não vai dar destaque à eleição agora, com tanta antecedência. Ela tem outras pautas a cobrir que são mais atuais e mais atraentes, sobretudo as novas administrações estadual e federal.

Portanto, é cedo para fazer campanha, mas não é cedo para começar a preparar a sua campanha.

Porque não é cedo para começar a preparação?

Antes de tudo, pela simplória razão de que este é o único período em que pode-se dizer que “sobra tempo”.

Como as atividades que mais consomem tempo não podem ser realizadas agora, há uma sobra de tempo que deve ser bem aproveitada pelo candidato precavido.

Quando a campanha começar, esta “sobra” vai desaparecer por completo, e será substituída por um falta de tempo permanente, que não mais poderá ser resolvida.

Não esqueça nunca que, numa campanha pode se comprar tudo, menos o tempo.

Se, por ocasião da campanha legalmente autorizada, você perceber que está perdendo tempo, fazendo o que poderia ter feito antes dela começar, não apenas você vai se sentir culpado, como merece sentir-se culpado. Então será tarde demais, e você terá que desviar o limitado tempo que dispõe, do contato com o eleitor, para se dedicar a fazer aquilo que podia ter feito meses atrás.

O que então se deve fazer nesta fase de pré-campanha?

Como regra geral tudo, absolutamente tudo que pode ser feito agora para uso posterior.

Principais tarefas:

Definir projetos de lei e programas de ação.

Este é o momento para reunir pessoas experientes e qualificadas que o apóiam, para buscar dados atualizados e informações sobre as diversas áreas da administração, ouvir especialistas, fazer reuniões de criatividade para gerar projetos originais, pesquisar na internet, etc. O produto deste trabalho não será ainda o projeto de ação definitivo de seu mandato. É preciso esperar uma maior proximidade da campanha, para ter uma visão mais realista das prioridades do eleitor, às quais seu plano de atividades deve corresponder. De qualquer forma, você entrará na etapa da campanha com grande parte do trabalho já concluído, amadurecido e formatado em alguns projetos básicos, inovativos e desejado pelos eleitores.

Preparar listas

Você terá tempo, nesta fase, para preparar suas listas. Há muitas listas que podem e devem ser feitas, e que somente poderão ser feitas neste período anterior à campanha. Não pense que por lista deva se entender apenas um rol de nomes. Cada lista é feita para um objetivo específico, e deverá conter todas as informações relevantes sobre as pessoas listadas, para aquele objetivo.

Você vai querer fazer sua lista de contribuintes potenciais, pelo menos duas listas: uma para grandes contribuintes, e outras para contribuintes médios. Também você poderá fazer a sua lista de contribuintes que não o apóiam financeiramente, e sim com materiais, equipamentos, serviços, pessoal etc. Você também vai fazer lista de seus apoiadores. Desde os cabos eleitorais, até eleitores conhecidos seus e de seus amigos, familiares e auxiliares. Você vai querer também ter uma lista de potenciais eleitores (aqueles que você pretende conquistar) se possível com endereço e telefone, para as ações de mala direta e de telemarketing durante a campanha.

Você tem que fazer sua lista de associações (clubes, sindicatos, sociedades) onde se encontram eleitores potenciais seus. Você vai tentar obter a listagem dos associados, com endereço e telefone, vai registrar os nomes e funções dos respectivos dirigentes, dias e horários de reunião etc. Você vai tentar produzir uma lista de líderes e formadores de opinião. Não apenas jornalistas, e intelectuais, mas também (com informações de seus cabos eleitorais), líderes informais de opinião nos seus respectivos bairros, que podem ser donos de bar, farmacêuticos, líderes comunitários, presidente do clube/associação, diretor de escola, ex-político, etc. Em resumo, você poderá e deverá fazer tantas listas quanto for possível e realista.

Você vai querer listar seus apoiadores e eleitores potenciais. Não vai pretender listar todos os eleitores de sua cidade. Estas listas, como é óbvio, somente podem ser feitas agora, no período pré-campanha. Durante a campanha você vai usá-las, e elas serão muito úteis, se tiverem sido bem feitas.

Além de começar a elaboração do seu plano de ação legislativa, e a montagem das listas, o período atual é também apropriado para outras atividades:

Começar a organização da equipe de campanha

Não se trata ainda da montagem da equipe definitiva da sua equipe de campanha, nem tampouco de contratar profissionais especializados. A chave é o verbo começar. Há certamente algumas pessoas que podem ajudá-lo, nesta fase a custo zero, e, com as quais, você pode iniciar a sua preparação. Se você pretende ser candidato, ainda que pela primeira vez, é porque é sociável, sente-se bem no contato com as pessoas, e por certo possui um círculo de relações, amplo e diversificado.

É dentre pessoas do seu círculo de relações que você vai escolher o seu primeiro grupo de trabalho. Você vai valorizar acima de tudo, nesta seleção, a confiança que deposita nelas,  a experiência e a sensibilidade política. Destes critérios, o único que inspira preocupações é o que se refere à experiência.

Experiência só é útil numa campanha, quando se fizer acompanhar de abertura mental e de sabedoria. A experiência dos que acham que já viveram tudo, dos que acham que sabem tudo, passaram por tudo e que, para cada fato atual, encontram um precedente no passado que os explica, não apenas não interessa como pode ser fatal. Já a experiência entendida e vivida como um saber acumulado, aberto às novas realidades, disposto a continuar aprendendo e a aceitar as novas formas de fazer as mesmas coisas, esta experiência é valiosa, mais que experiência é sabedoria, não tem preço e você vai descobrir este valor, sobretudo nos momentos difíceis.

Essas pessoas vão se constituir no seu círculo mais próximo, durante essa fase preparatória. Você deve também já ir pensando na escolha de um coordenador de campanha, alguém que reúna capacidade política com capacidade organizacional.

Com este grupo você começa a sua “campanha silenciosa”. Com ele e as ramificações que dele podem ser extraídas, aquelas tarefas previstas para este período, assim como as discussões sobre táticas e estratégias, serão realizadas. Muita atenção. O que você busca neste grupo não é número, é qualidade.

O que importa é que sejam pessoas capazes, responsáveis, leais e confiáveis, que tenham iniciativas e que saibam trabalhar em conjunto. Este grupo equivale ao motor de um carro. Deve possuir peças de qualidade, bem ajustadas entre si, e força suficiente para movimentar e impulsionar a estrutura.

Pesquisa

Pesquisa, quando bem feita é sempre útil. Mas nesta fase não é indispensável. Com a eleição ainda afastada no tempo, não apenas os eleitores, mas a mídia também está concentrada em outras pautas. Assim, a opinião do eleitor não possui, nesta fase, a cristalização suficiente que justificasse uma pesquisa.

Se houver recursos suficientes para uma pesquisa, ela deve dar prioridade aos valores pessoais dos eleitores, em detrimento de suas opiniões sobre intenção de voto. Deve ser concebida para medir sentimentos e atitudes mais permanentes, em detrimento do momento conjuntural. De qualquer forma, esta pesquisa, se for realizada, não é ainda a pesquisa de diagnóstico, que deve ser realizada num período mais próximo do início da campanha.

Levantamentos

Se a pesquisa não é indispensável para esta fase, levantamentos de problemas e prioridades dos bairros e da cidade, feitos junto aos moradores, podem ser realizados. Esses levantamentos, sob a forma de “varreduras” são muito úteis. Desde logo porque os problemas e prioridades tendem a possuir mais permanência que as opiniões. Então, as informações colhidas nesta fase, continuarão válidas durante a campanha. Além disso, é uma forma simpática de “começar a campanha neste período em que ainda não há campanha”, ouvindo as pessoas. Também é um modo sutil de descobrir apoios potenciais, lideranças locais, e de produção de listas; além disso, levantamentos deste tipo são baratos, costumam ser executados por jovens estudantes – filhos e amigos dos filhos do grupo inicial de apoio do candidato; finalmente, resulta num rol de problemas, localmente identificados, que vai alimentar a elaboração de projetos, o discurso de campanha e a publicidade da candidatura.

Poucas coisas “mexem” mais com o eleitor, do que o candidato referir-se à realidade dele, aos seus problemas, referindo-se a nomes de ruas, de pessoas e outros elementos que revelam um conhecimento que somente os “locais” possuem. Mas cuidado.

Não confunda o levantamento com propaganda eleitoral que ainda não pode ser feita.