A ingratidão em relação aos subordinados é um daqueles defeitos do político que acarreta consequências muito negativas para o seu poder e introduz uma mancha dificilmente removível em sua imagem.

Como diz Maquiavel, nos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio:o vício da ingratidão nasce da avareza e da desconfiança”.

A ingratidão possui um efeito destrutivo na política porque, como revela a aguda percepção de Maquiavel, é um defeito que tem a sua origem na fraqueza do líder.

Por avareza, Maquiavel quer significar a incapacidade de o líder aceitar compartilhar a glória, o mérito, o sucesso, com os outros.

O mérito dos outros – principalmente quando os outros são seus subordinados – desperta nele o ciúme.

Avaro de elogios e de reconhecimento do mérito dos outros encara as vitórias e as realizações como exclusivamente suas.

Não lhe custará o reconhecimento “em privado”.

É o “reconhecimento público” que ele evita.

A desconfiança a que Maquiavel alude não é a desconfiança do líder forte, atento e astuto, mas sim a desconfiança do político que esconde a sua fraqueza na imagem de poderoso. Trata-se muito mais de uma insegurança pessoal que alimenta a desconfiança para com o sucesso dos seus subordinados.

Do lado do subordinado e do público que percebe a omissão do reconhecimento, o gesto tem uma única leitura: a ingratidão do chefe,  e a sua mesquinhez.

À manifestação de ingratidão segue-se a apropriação do mérito alheio. Não faria sentido negar o reconhecimento devido, sem tirar partido do resultado meritório da ação. Ao apropriar-se do mérito de outrem, o líder ou governante comete o segundo erro, acrescendo ao defeito inicial (ingratidão) o da apropriação indébita de um sucesso que o beneficia, mas que não foi conquistado exclusivamente por ele.

Este é um problema de ocorrência mais frequente do que talvez se imagina.

Uma das formas mais comuns que ele assume é aquela situação em que, o líder ou governante convida para trabalhar com ele uma pessoa altamente qualificada, muito experiente, de forte personalidade.

Muitos que assim agem, querem o bônus que esta pessoa traz, sem ter que pagar o ônus que a presença dela acarreta.

Nestas situações, logo começa a “correr” o comentário de que, quem na verdade manda é o subordinado talentoso; que o chefe faz tudo que ele sugere ou recomenda; que o caminho mais curto para conseguir o que se deseja é procurá-lo, e não procurar o chefe…

Se o líder for uma pessoa segura de si, com personalidade forte nada disso o abalará. Havendo lealdade, da parte de seu subordinado talentoso, o reconhecimento público do mérito dele não o diminui, antes o eleva, porque soube escolher bem, pelos resultados e porque o líder é ele.

Se por outro lado o líder for inseguro de si mesmo, ainda que fortemente apegado ao poder e à sua imagem, por certo sentir-se-á ameaçado na sua reputação. Neste caso tentará de todas as formas possíveis, diminuir a exposição pública do seu subordinado, limitar a sua esfera de decisão e, omitir ou reduzir substancialmente o reconhecimento público dos seus méritos.

Se o líder deseja monopolizar os elogios, o sucesso e a glória, sem incorrer no grave erro da ingratidão e da apropriação indébita do mérito, deve então assumir pessoalmente a responsabilidade, pela condução e execução das tarefas.

Corre o risco do desgaste em caso de insucesso, mas, por outro lado, ninguém lhe questionará a auto atribuição do mérito em caso de sucesso.

Já o subordinado talentoso de um chefe inseguro, para evitar os dissabores da ingratidão e da desconfiança deve, após o sucesso, ou devolver os poderes que recebeu ao seu chefe, evitando qualquer demonstração de ambição, altivez e autopromoção; ou, sair “de malas e bagagem”, levando, junto consigo, os méritos que fez por merecer, que, neste caso, ficarão identificados com ele e não com o seu ex-chefe.

Na primeira alternativa, seu gesto de devolver os poderes que recebeu, de manter a atitude de sobriedade e reserva, numa clara demonstração de aceitar a sua subordinação, podem ser suficientes para aplacar a insegurança do chefe.

A segunda alternativa somente cabe quando as relações, entre ele e seu chefe, já estão de tal forma estremecidas que, após o seu sucesso pessoal, ou ele toma a iniciativa de sair, ou o chefe a tomará para dispensá-lo.

A política castiga os ingênuos.

O bom político conhece-se a si mesmo e conhece seus subordinados e adversários. A ingratidão é o resultado de erros de avaliação: de si mesmo e dos subordinados.