O político é conhecido por sua imagem. Sua personalidade real e total permanece inacessível ao comum das pessoas, aos eleitores em geral. Somente os que privam de sua intimidade a ela têm acesso.

Por isso, a imagem de um político é tão importante na sua vida pública, quanto a sua personalidade o é na vida privada, já que ela é, em última análise, a sua personalidade pública. A defesa da imagem, contra os ataques que visam comprometê-la, é pois, uma preocupação constante do político, e uma área onde ele não pode revelar hesitação.

A reputação, é um dos componentes da imagem. A imagem a contém. Ela assinala, na maioria das vezes, o traço mais marcante e mais forte da imagem. A imagem de um político é, invariavelmente, descrita por uma pluralidade de atributos, já a reputação tende a ser definida de maneira singular.

dos lados de um rosto
A imagem de um político é sempre formada por uma pluralidade de aspectos

reputação, como é óbvio, pode ser tanto positiva quanto negativa. Na vida privada, a situação é clara: positivo é positivo, e negativo é negativo. Já na vida política, a situação não possui a mesma clareza.

“Uma pessoa que deseja comportar-se com bondade em todas as coisas, necessariamente vai sofrer entre os muitos que não são bons” (Maquiavel – O Príncipe)

A lição de Maquiavel ensina que, muitas vezes aquilo que é um “bem” na vida privada, revela-se um “malefício” na vida social e política.

“…. Pois, se as coisas são bem consideradas, se descobrirá que algumas coisas que parecem virtudes, se forem seguidas, levam à ruína, enquanto que outras, que parecem vícios, resultam em maior segurança e bem-estar. “

Vícios e virtudes são invarialmente assuntos que afetam a imagem de um político

É a formulação de Maquiavel do clássico paradoxo das virtudes e dos vícios:

  • Virtudes privadas = malefícios públicos
  • Vícios privados = benefícios públicos

Por esta razão, o sábio florentino alerta que:

“Em consequência, é necessário para um Príncipe, que deseja manter-se no poder aprender a não ser bom e usar ou não este conhecimento, de acordo com a necessidade do caso”

É importante ter em mente que Maquiavel não está propondo que o governante seja “mau”. O que ele sustenta é que ele deve ser capaz de “não ser bom”, conforme recomendem as circunstâncias. “Traduzindo” as palavras de Maquiavel para o tempo moderno e para a prática democrática, seu argumento básico é o seguinte: Na atmosfera intensamente competitiva da política, num meio onde o conflito é permanente, o político que amparar suas ações apenas nas boas e meritórias intenções, será “atropelado” por aqueles que, na busca do poder, não possuem tantos escrúpulos.

Em outras palavras, mesmo a boa intenção e o mérito precisam da ajuda da “argúcia”, da “malícia”, da “dissimulação”, e de outros expedientes análogos, para defender-se dos que, por razões de poder, as bloqueariam, e para “lubrificar” as engrenagens do poder para viabilizá-las. O mesmo raciocínio Maquiavel aplica à questão da reputação.

Ao analisar os vícios e virtudes que um governante deve ter, ele alerta para a complexidade dialética que existe entre eles. Assim, o governante deve distinguir entre a reputação dos vícios e defeitos que possui, em função de sua respectiva potencialidade de poder: isto é defeitos que o ajudam a conquistar e manter o poder x defeitos que podem fazer com que perca o poder, ou não o alcance.

Além dessa recomendação, Maquiavel, ainda acrescenta uma outra distinção: o governante não deve preocupar-se com o “escândalo” dos vícios e defeitos que o ajudam a manter o poder, (embora, se possível deve guardar-se deles. Se possível, por que, se não for possível, não há também mal maior em praticá-los); mas, com relação aos outros, aconselha que o governante deva acautelar-se obsessivamente do “escândalo” daqueles vícios e defeitos que podem fazer com que perca o poder.

Um exemplo que deve tornar o argumento mais claro é o seguinte:

Um governante que tiver a reputação de avarento, na vida privada seria visto com maus olhos, pareceria mesquinho, desprezível. Seria, em uma palavra portador de um defeito grave para o relacionamento.

A reputação, é um dos componentes da imagem. A imagem a contém. Ela assinala, na maioria das vezes, o traço mais marcante e mais forte da imagem.

Entretanto, o “escândalo” deste defeito, na sua reputação como governante, é um daqueles vícios que ajudam a manter o poder. O governante que tem a reputação de avarento terá parcimônia e zelo no trato do dinheiro público, será econômico no governo, não baixará impostos como outros mais liberais, de tal forma que:

“… ele é realmente “liberal” em relação a todos que ele não cobra impostos, que são muitos (o povo), e é mesquinho com relação aqueles a quem ele não dá o dinheiro público, que são muito poucos (os ricos e poderosos) “

Além disso, o governante com reputação de avarento, quando decidir “abrir a mão”, ainda que numa quantidade modesta de recursos, será muito valorizado e apreciado, e não criará expectativas. O pouco, vindo de quem não dá nada, é muito, enquanto que o muito, vindo de quem dá muito, é sempre pouco e insuficiente.

De outra parte com o governante que quiser conquistar a reputação de liberal, tende a ocorrer o oposto, já que, se usada virtuosamente, da forma certa, ninguém dela toma conhecimento, e, se usada de forma ostensiva (única maneira de construir a reputação) exigirá muitos recursos públicos para financiá-la.

Com o tempo, os recursos disponíveis não mais serão suficientes e o governante terá que recorrer a novos impostos. O governante liberal e simpático (populista) de antes, torna-se um ávido arrecadador de tributos, ou contrai dívidas. Os súditos, que terão que pagar a conta, começam a vê-lo de outra forma e, quando baixar impostos, ficará a todos evidente que se tornou um governante pobre, desprezível e odioso, porque, ao perseguir a sua liberalidade nos gastos, prejudicou os muitos (povo) e beneficiou os poucos (ricos).

Para completar esta dialética peculiar, este mesmo governante ao baixar novos impostos, ou ao decidir mudar sua forma de governar, reduzindo despesas drasticamente, adquirirá, de imediato, uma nova reputação: a de avarento, mesquinho e autoritário.

Este exemplo, apresentado por Maquiavel, ilustra como uma virtude da vida privada (liberalidade) facilmente se transforma num grave defeito, quando transposto para a vida social e política. Inversamente, o mesmo exemplo revela, como um defeito da vida privada (avareza) tende a tornar-se uma virtude, quando transposta para a vida pública.