Falar em público não é apenas falar alto para todos ouvirem. Falar em público é sustentar um tipo de comunicação, diferente da forma usual. Não é por outra razão que, desde os clássicos gregos, a oratória foi tratada como uma disciplina a ser ensinada e uma arte a ser praticada pelos políticos.

Falar em público é um ato que, mesmo na sua forma mais simples, envolve certa dramaturgia.

Na representação teatral, por exemplo, o texto é fixo, e pré-determina o comportamento dos atores. Cabe a cada ator expressar a personalidade do personagem e reproduzir os diálogos escritos pelo autor da obra. A relação ator/plateia é, portanto, previsível, já que o interesse das pessoas na representação está garantido, por terem vindo assisti-la e pago o ingresso.

O que torna o ato do discurso político uma arte é que nele, contrariamente à representação teatral, o conteúdo da comunicação é variável, de livre determinação do orador, e o interesse da plateia não está previamente assegurado, pela sua mera presença. Ao contrário, uma das habilidades do orador político é a de conquistar e manter o público interessado nas suas palavras.

Conseguir ser ouvido, reter a atenção, emocionar pessoas, convencê-las com argumentos, são desafios que se renovam sempre, para o político – sobretudo o candidato – na medida em que a plateia está sempre mudando.

Poucos nascem com o dom de falar bem, assim como poucos são os que nascem com o dom do desenho, ou da música.

A capacidade de falar bem, para a imensa maioria das pessoas, resulta de um aprendizado, como nas demais áreas do conhecimento. A oratória, quando analisada como um corpo de conhecimentos, possui regras e técnicas próprias, que podem e devem ser aprendidas por quem – como o político e o candidato – precisa usá-la como um instrumento de comunicação.

São essas regras e técnicas, bem como conselhos e advertências úteis para falar em público, que precisam ser estudadas e exercitadas pelos políticos.

O objetivo de capacitar-se para falar bem em público é, no essencial, praticar uma comunicação eficiente.

Comunicação, como muito bem dizia David Ogilvy – o “mago” da publicidade – não é o que você diz, é o que os outros entendem.

Este sempre foi o verdadeiro sentido de toda a boa comunicação, em todos os tempos, desde os antigos até os dias de hoje. Boa comunicação, e não a autossatisfação provocada pela eloquência vazia ou por um linguajar pomposo que, ainda que possam provocar admiração, não têm eficiência como peça de comunicação.

Recorde-se, a propósito que Demóstenes, o grande orador da era clássica grega, segundo Plutarco na A vida dos Grandes Homens:

“Era conhecido como uma pessoa sem grandes virtudes naturais de brilhantismo, mas sim como alguém que, devia todo o seu poder e habilidade como orador, ao estudo e à prática

“Demóstenes queixava-se amargamente para Satyrus que idiotas bêbados, marinheiros e analfabetos eram escutados, enquanto que ele era desprezado”

“Por isso ele construiu para si um lugar para estudo numa caverna, aonde ia diariamente exercitar sua voz e treinar seus gestos; e lá permanecia às vezes por dois ou três meses, raspando um lado apenas da cabeça, para que, por vergonha, não se animasse a sair da caverna, o que ele, por vezes, muito desejava”

“Na privacidade de sua caverna ele também formulava argumentos pró e contra os assuntos correntes e reelaborava discursos que havia escutado outros pronunciarem”

Sobre Demóstenes ainda é fartamente conhecida a técnica que adotou para corrigir a gagueira: discursar contra o vento, à beira do mar, com a boca cheia de pequenas pedras.

Nada foi fácil pois, para o maior orador da antiguidade clássica dominar a arte do discurso!

Outro orador famoso, quando se levantou na Câmara dos Comuns na Inglaterra, para pronunciar seu primeiro discurso:

“sentiu um vazio na cabeça, enquanto o pesado silêncio, era rompido apenas por ruídos amigáveis e encorajadores. Permaneceu em pé enquanto deu para aguentar. Sentou-se no assento com o rosto sepultado entre as mãos e deixou-se ficar. Tempos depois, após ter conseguido precariamente discursar, ainda temia pedir a palavra, ora usando o pretexto de que aquilo que falaria já havia sido dito por outros, ora argumentando para si mesmo que o tempo de falar já passara… Qualquer desculpa servia para mantê-lo sentado e em silêncio.”

Este orador “fracassado” chamava-se Winston Churchill, primeiro ministro da Inglaterra durante a II Grande Guerra, líder do mundo ocidental contra o nazi-fascismo, cujos discursos na BBC, no período da guerra, emocionavam o mundo e animavam os ingleses.

Em 1953, recebeu o Prêmio Nobel de literatura, sendo explicitamente mencionada na ocasião a sua “cintilante oratória”.

Por esses exemplos pode-se constatar além de qualquer dúvida, que oratória se aprende.

Aprende-se pela persistência e pela disciplina; aprende-se lendo os discursos que se tornaram clássicos, aprende-se pelo estudo, pela qualificação do vocabulário, por exercícios físicos do aparelho fonador, e pelo aumento de sua bagagem cultural.