Não se faz política sem paixão nem se conquista o poder com ações comandadas pela paixão.

Estas duas afirmações são igualmente verdadeiras e se constituem em clássicas advertências feitas pelos pensadores políticos desde a mais remota antiguidade.

A política, sobretudo a eleição, é, inevitavelmente, passional.

homem cruzando a linha de chegada numa corrida
A disputa pelo poder se concentra de maneira intensa no período da campanha eleitoral, é uma corrida pela aprovação do eleitor

O que torna a política um processo passional:

  • A disputa pelo poder, concentrada de maneira intensa no breve período da campanha eleitoral
  • O desfecho desta disputa, com as bênçãos da vitória ou o amargor da derrota
  • A competição acontece numa arena pública, isto é, tanto os lances como o resultado final são do conhecimento de todos os eleitores
  • Os valores que estão em jogo, a imagem, a reputação, os sacrifícios pessoais e familiares, as ambições e os investimentos de tempo e recursos já feitos

O candidato deve tomar consciência desta realidade antes de decidir disputar a eleição, porque, a partir do momento em que começar a competição, viverá um conflito permanente entre seus interesses e seus sentimentos.

Raras serão as oportunidades em que a expressão eloqüente de seus mais íntimos sentimentos será vantajosa para a realização dos seus objetivos políticos. Na imensa maioria dos casos vai prejudicá-los ou até mesmo inviabilizá-los.

O objetivo de uma campanha eleitoral, nunca é demais recordar, por mais óbvio que seja, é a vitória, e não a satisfação de um sentimento pessoal, por mais legítimo e autêntico que seja.

A vitória, por outro lado, é o resultado final de uma estratégia vencedora, concebida e executada com disciplina, inteligência e método.

Estratégia sempre significa a escolha dos meios mais eficientes e dos procedimentos mais adequados para alcançar um objetivo. A campanha, ao executar um plano estratégico, segue um curso de ação que foi fixado racionalmente, ao qual os sentimentos, as emoções e as paixões devem se subordinar.

Isto não significa que numa campanha, ou mesmo na vida política, não há espaço para os sentimentos. E sim que o candidato ou legislador deve ser capaz de avaliar, a cada momento, as consequências de ceder às suas paixões em relação aos seus interesses.

Por isso, o político deve ter a sua “câmara de compensação de sentimentos”, o grupo mais íntimo do candidato, no interior do qual ele poderá, com toda a liberdade, dar vazão às suas emoções, sejam elas de euforia, de depressão, medo ou raiva.

Neste grupo fechado, a manifestação dos sentimentos percorrerá todo o seu ciclo em segurança, até o momento em que se restabelecem novamente condições para avaliar com serenidade e frieza o que fazer.

homem gritando de raiva
O político deve ter a sua “câmara de compensação de sentimentos”, no interior da qual ele poderá, com toda a liberdade, dar vazão às suas emoções

O que o candidato ou legislador não deve fazer, sempre que possível, é permitir-se uma reação emocional de improviso. Em momentos como estes, que declarações infelizes são feitas, e que serão exploradas pelos adversários, não apenas naquela campanha, mas pelo resto da sua carreira política.

Não é por outra razão que os adversários fazem provocações e ataques pessoais. A intenção é desviar o candidato de sua estratégia, colocá-lo numa posição defensiva e desestabilizá-lo pessoalmente.

Ataques pessoais, entretanto, exigem respostas imediatas, fortes e categóricas. O eleitor não perdoa candidato ou legislador que atacado não responde à altura ao ataque sofrido.

Nestes casos, a expressão de sentimentos de indignação e revolta é não somente legítima como útil para os objetivos políticos. Trata-se da defesa da imagem, do patrimônio moral, do respeito, valores que não se defendem com argumentos racionais e sim com a autenticidade dos sentimentos. Mesmo nestes casos, até mesmo por sua singular importância pessoal e política, impõe-se o planejamento para dosar da maneira certa a forma e a intensidade da resposta.

Para o candidato ou legislador, esta situação de conflito latente entre seus sentimentos e seus interesses pode assumir características pessoalmente dramáticas. O que ele não deve nunca esquecer é que a vitória sempre será o castigo mais duro imposto aos seus adversários.