A advertência, na verdade, deveria ser mais ampla. Não se apresenta trabalhos pela metade a ninguém, muito menos ao seu chefe.

Um assessor deve controlar a pressa e também a ansiedade

A situação ocorre pelo conflito que se estabelece entre:

  • A ansiedade de ser o primeiro a apresentar os resultados ao chefe, pelo temor de que, esperando a conclusão, outro auxiliar, mais expedito, o antecipe, apresentando a mesma ideia, descoberta, ou fatos e documentos, antes dele;
  • O sentimento de que deveria antes concluir o trabalho para só depois apresentá-lo.

A política é muito dinâmica e a rapidez em produzir um trabalho é sempre muito valorizada. O assessor político é sempre lembrado pelo seu chefe de que ele não é um acadêmico, que deve evitar tornar-se um teórico, que deve apresentar suas ideias e sugestões, com objetividade, praticidade e urgência.

Este senso de urgência, provém do próprio político. Ele também está preocupado em não ser ultrapassado por seus concorrentes. Uma boa ideia, uma proposta original, algo que possa ser apresentado como um fato novo, rendem presença forte na mídia, pautam os demais políticos, reforçam sua posição de poder na Casa ou no partido.

Antes de lançá-la à público, o político manda sua assessoria estudá-la, para assegurar-se de que vai apresentar algo consistente, original, impactante. Não pode produzir uma gafe. O sentido de urgência vem do chefe. Ele quer se antecipar aos demais, quer fixar sua autoria e tirar proveito político só para si. Este sentimento de urgência, qualificado pelas advertências de que não pode haver erro, é transmitido para a assessoria.

Esta, por sua vez, assume a urgência junto com a exigência de precisão e veracidade. A cada dia que passa o assessor é cobrado, de início com tolerância, mas, passado algum tempo, com insistência e impaciência, pelos resultados.

Soma-se a esta impaciência o duplo temor de que, por sua demora os adversários poderão se antecipar (fazendo o político perder aquela chance), ou, os seus colegas de assessoria o superem (fazendo com que ele perca força junto ao chefe comum).

Nestas condições, não é incomum a precipitação. Tão pronto haja algum material em condições de ser apresentado, a tentação de levá-lo ao chefe passa a ser muito grande. O próprio chefe contribui para a precipitação com a sua curiosidade insistente.

Apesar de tudo, você deve evitar a precipitação de apresentar (situação do assessor) ou receber (situação do chefe), um trabalho pela metade. Há várias razões que desaconselham esta atitude.

  1. Todos os inícios são imprecisos, sem forma definida e saturados de pressuposições, estimativas, inferências, o que impede uma visão clara, segura e objetiva da questão, ainda que contenha já alguma informação, ideia ou fato relevante e politicamente rentável;

Em consequência, não são suficientemente confiáveis para justificar a sua divulgação, embora o político, de posse daquela ideia, fato ou informação rentável, dificilmente deixará de usá-la, embora de forma parcial. Agindo assim, quando tiver todas as informações na mão, elas já não serão novas, nem terão o mesmo impacto na opinião pública.

  1. O aprofundamento do estudo pode revelar erros e imperfeições, que, na pressa em explorar a matéria, não havia ainda descoberto. Dependendo da gravidade deles talvez seja até mesmo desaconselhável a exploração da questão. É mil vezes preferível descobrir esta realidade, no estudo, dentro do sigilo do gabinete, do que descobri-la pela sua invalidação pelos adversários ou pela mídia.

Enquanto a matéria está clausurada no gabinete, não há riscos de desgaste político. Depois que vai para as ruas, o desgaste não mais pode ser evitado.

  1. O trabalho pela metade ou em andamento, é importante, alertar não é o trabalho. Ou ele é tudo ou não é nada. Ainda que você sinta que o essencial já está definido, não há nada igual ao trabalho concluído, revisado e formatado para sua apresentação. Bons mestres, grandes cientistas, são muito cautelosos ao não permitir que suas ideias sejam encaradas como o embrião de algo maior e mais completo.

Nos Estados Unidos, tive um professor que me deixou marcado pelo que ele chamava the perfection of the last inch (A perfeição da última polegada), querendo com isso mostrar que muitos trabalhos bons perdem muito da sua qualidade ao final, por relaxamento, pressa ou cansaço. Assim mesmo, deve-se lutar contra estas tendências para chegar à “perfeição da última polegada”.

  1. O trabalho pela metade desqualifica seu autor. Ao satisfazer a pressa do chefe, apresentando o trabalho de forma incompleta, seu autor terá dificuldades de responder às questões que o próprio trabalho suscita. Mostrará então uma fragilidade que assusta seu chefe. Será que o uso do material não resultará numa “gafe”?
A impaciência do chefe atinge o assessor que vai apresentar resultados sem consistência

Será que aquilo que ele considera seguro, em verdade não é tão seguro assim? Nesta hora o chefe não pensa em quanto ele é responsável pela precipitação, ao apressar, “cobrar” e impacientar-se.

Nesta hora ele fica dominado por uma decepção: ele tem nas mãos um trabalho em andamento, feito pela metade, ainda que promissor, ainda que contenha ideias, fatos e propostas interessantes. A imagem de seu assessor fica comprometida. A sua confiabilidade na capacidade dele, de produzir material para seu uso político, fica profundamente abalada.

Ele passa a ser visto como alguém que quer brilhar a qualquer custo, sendo o primeiro a apresentar resultados que, embora atraentes não possuem a consistência para serem usados; como alguém de julgamento muito deficiente; como um superficial; ou ainda como uma pessoa precipitada.

Como se percebe, é preferível sofrer as cobranças e resistir à impaciência do chefe, do que apresentar trabalho pela metade. Não esqueça nunca, trabalho pela metade não é trabalho. Ou ele é tudo, ou não é nada.

Diante da insistência do chefe você sempre poderá arguir que o está protegendo de entrar numa fria, de cometer uma gafe, e que, a menos que toda a questão seja devidamente esclarecida, você não recomenda que se fale dela.

É óbvio que você deverá sempre, sobretudo quando a matéria está sujeita a um desgaste temporal, tentar combinar rapidez no seu trabalho com precisão. E, se conseguir aprontar seu estudo antes que o previsto, tanto melhor. Mas, se, ao contrário, aquela necessária precisão e segurança demandarem mais tempo, não hesite em pedir mais tempo.

É bom lembrar que, a memória de algo imperfeito, impreciso, e inconcluso perdura na mente de quem o viu, e, mesmo quando, este algo vier a ser apresentado de forma final, aquela memória vai conviver com o produto pronto, sob a forma de desconfianças, dúvidas e incertezas.