O líder político precisa, permanentemente, comprovar para os outros a sua força, o seu poder.

Em sociedades tradicionais, nas quais a institucionalização do poder assumia a forma estamental (como na Idade Média); ou a forma de castas, como na Índia; ou mesmo, nos poderes do rei e de sua burocracia civil e militar, no período do absolutismo monárquico; esta exigência não possuía tal importância.

Naquelas sociedades tradicionais, a mudança social ocorria no espaço de gerações, era muito lenta, e a sociedade se estruturava sobre as bases sólidas das instituições seculares. Muito pouco mudava no período de tempo que cobria a vida do avô, filho e neto.

Não era apenas a época, entretanto, que impunha este ritmo de mudança. Era o tipo de sociedade. Não é por um acaso histórico que Maquiavel, ao escrever sua obra, refere-a à Itália do renascimento.

Nas cidades da Itália renascentista, a política e o poder não se acomodavam a seculares instituições. Nelas, sujeitas às mudanças de natureza econômica, cultural e social, o poder possuía grande mobilidade, deslocando-se de uma liderança para outra.

Nelas, o poder não se institucionalizava. Estava “solto” para quem tivesse a habilidade e ousadia de agarrá-lo, e mantê-lo, e, ao menor descuido, podia escapar por entre os dedos.

Por isso, o foco da teoria de Maquiavel é a conquista e a manutenção do poder, nas “monarquias novas”, excluindo de sua análise as repúblicas (já analisadas nos Discursos), as Monarquias Hereditárias Tradicionais e os principados eclesiásticos (ambos dotados de maior estabilidade institucional).

Nos principados eclesiásticos, o respeito sacral aos “costumes religiosos” e, nas monarquias hereditárias, a legitimidade da família reinante e a sucessão no poder, assegurada antecipadamente pelas regras dinásticas, garantiam a estabilidade e a ordem política, independentemente de como se comportavam seus respectivos príncipes, desde que não transgredissem certas normas religiosas ou tradicionais.

É nas “novas monarquias” que a questão do poder realmente se coloca. Nelas o poder é “fluido” porque não se subordina nem à religião, nem à tradição. Nelas, o poder é objeto de conquista. Luta-se por ele, para conquistá-lo e depois para mantê-lo. Nelas, enfim, o poder adquire autonomia como um padrão de relação social e como conceito.

Nas modernas democracias, embora institucionalizado e “civilizado” pelos direitos individuais, pela divisão de poderes, e por uma cultura pluralista, o poder é também um objeto de conquista que resulta de uma intensa competição eleitoral entre partidos.

Nas modernas democracias, os candidatos a “príncipes” estão num estado de permanente competição. Lutam entre si pelo favor popular. Usam de todos os recursos para cativar os indivíduos para, com o apoio deles, conquistar o poder.

É a intensa natureza competitiva da política, combinada com a intrínseca dinâmica da política – onde o poder político reside no voto individual, sujeito assim a toda sorte de oscilação, deslocamentos, e mudanças – que aproxima as lições de Maquiavel dos nossos dias.

Por isso (como foi expresso na primeira frase), tendo o líder político que dar constantes e reiteradas demonstrações de seu poder, ele deve pensar muito, antes de pedir ajuda a um rival, naquelas situações em que sozinho não conseguiria alcançar sua meta.

Esta é uma condição comum de ocorrer na política, em especial numa democracia. A pactuação de acordos, coligações, alianças, e outras formas de apoio mútuo, é tão antiga como a política. É via de regra, uma operação tática, destinada a facilitar a realização de um objetivo que interessa a ambas as partes. Mas, interessa a cada uma por razões diferentes. Assim, realizado o objetivo, aquela unidade que existia no combate, começa a entrar em decomposição, pela redescoberta dos interesses contraditórios que foram obscurecidos pela aliança tática.

  • A primeira lei política que se aplica a situações como essas é a de que se deve negociar sempre a partir de uma posição de força; isto significa que, no mínimo, deve haver uma paridade de forças entre você e seu aliado potencial. Se ele for mais forte, relega você a uma condição de inferioridade. O conceito de força deve ser entendido de forma ampla numa democracia.
    Trata-se basicamente de força política, não a força bruta, militar, como em Maquiavel. Havendo a paridade de poder, ou uma situação muito próxima a ela, você poderá estabelecer o diferencial favorável, pela superioridade em outras características como imagem, credibilidade, talento, habilidade, etc. Se você for forçado a pedir ajuda numa situação de fraqueza, seu aliado vai tentar torná-lo dependente dele e, se você vier a se rebelar contra esta condição, ninguém melhor que ele para conhecer seus pontos fracos.
  • A segunda lei recomenda que você não lastreie sua busca de ajuda na retribuição a favores que já fez, ou a gestos que teve no passado em favor de seu aliado potencial. Favores recebidos são sempre odiosos para quem os recebe sobretudo no mundo político. Eles registram momentos de fraqueza e dependência que, aquele que os recebeu quer esquecer. Atenção: o que se está tratando é de favores e gestos isto é, “apoios doados”.
    Não é o mesmo que acordos acertados, onde a contrapartida é previamente fixada, os “apoios contratados”. Menos ainda acredite na possibilidade da ajuda desinteressada. Se você pensar um pouco mais, vai encontrar o interesse escondido, por trás da aparência de altruísmo.
  • A terceira lei determina que você deva buscar um incentivo no interesse próprio de quem você quer ajuda, para atraí-lo. Em outras palavras, você deve oferecer-lhe uma oportunidade, você baseia a aliança em interesses específicos e objetivos, em algo que ele tenha a ganhar. Você deve treinar-se sempre na arte de entender as intenções dos outros. Conhecendo as necessidades e interesses deles, você possui a chave para manejá-los de acordo com o seu interesse. Na política, o interesse próprio sempre será mais forte que o altruísmo. Haverá algumas dignas e notáveis exceções. Mas sempre serão exceções. Ao cortejar o interesse próprio de seu aliado potencial, você não dá uma demonstração de debilidade, não o constrange a devolver os favores recebidos, e oferece-lhe um argumento para ele ajudá-lo, ao qual ele será muito sensível.