Em várias colunas deste site já analisamos a curiosa, e por vezes surpreendente, relação que existe entre o mundo da política e o mundo pessoal e privado.

Já se viu como certas virtudes da esfera privada, quando transferidas linearmente para a política, tornam-se vícios e defeitos, e inversamente. Já vimos também como certos padrões de relacionamento tipicamente pessoal – como a sedução – podem ser usados na política.

São, portanto, mundos diferentes o da política e o privado, mas, não obstante, possuem relações entre si. O certo, absolutamente certo, é que estas relações não se resumem a transferir automaticamente um padrão de comportamento, na sua integralidade e pureza, de uma esfera para a outra.

Nesta transferência, alguma modificação tende a ocorrer, seja para alterar seu significado e inverter seus efeitos ou, como ocorre em alguns casos, até mesmo preservar as mesmas características.

De qualquer forma, sempre que se transita de uma esfera para a outra se deve ter cuidado e analisar friamente a situação para entender as consequências efetivas que suas ações terão.

No mundo da política, um dos sentimentos mais fortes com o qual tem que se lidar é o ciúme.

Políticos são seres territoriais, competitivos, ambiciosos, aquisitivos e treinados para a luta. Como tal, são inevitavelmente insatisfeitos e inseguros. Amam, odeiam, esquecem, desprezam, bajulam, brigam e se reconciliam com enorme facilidade e frequência. Políticos, além de tudo o mais, são territoriais e possessivos.

Defendem seus espaços (entendidos no sentido mais amplo do termo, como tudo que considera “seu”) aguerridamente, e desenvolvem uma extrema possessividade em relação às pessoas que com ele trabalham e com os que o apoiam.

O ambiente no interior do qual desenvolve suas atividades é naturalmente disputado e competitivo. Assim, como ele quer ampliar o seu patrimônio político, seus concorrentes também o querem. E só há uma maneira de aumentar o patrimônio político: atrair para si mais eleitores, apoios e recursos.

Neste ambiente carregado de incertezas e inseguranças, em que os apoios e os alinhamentos são acertados pela palavra – sempre uma frágil garantia – a competição é permanente e incessante.

Como o político não pode saber com segurança a extensão das perdas e traições que está sofrendo na sua base de apoio, ele se torna uma pessoa de exacerbada sensibilidade com sua imagem e com os sinais de perigo.

Dentre estes sinais de perigo talvez o mais preocupante e assustador seja os que se referem à lealdade de auxiliares e apoiadores.

Nenhum princípio é mais valioso para um político do que a lealdade. Havendo lealdade tudo é perdoado. Não havendo, nada é tolerado. Ora, o sentimento que “vigia” a lealdade é o ciúme.

O ciúme, na vida política como na vida pessoal, é um vigia ativo e sofisticado do comportamento do colaborador próximo ou da pessoa amada. O ciúme desenvolve técnicas de observação sutis capazes de identificar qualquer afastamento, por mínimo que seja, do padrão esperado e previsto. Usa testes e provas dissimulados para avaliar a consistência da lealdade.

Exige explicações detalhadas para fatos e comportamentos que deixaram dúvidas. Possui alvos definidos como perigosos, isto é, pessoas com as quais o auxiliar poderia trair.

Quem trabalha com um político percebe o quanto este ciúme ocupa a sua mente e orienta a sua observação. Períodos eleitorais então são momentos críticos, quando este sentimento tende a ficar exacerbado além da medida.

O ciúme depende sempre da existência do triângulo. Sua história é sempre a mesma: uma relação de lealdade que une duas pessoas e um competidor, que pretende atrair para si o indivíduo não competidor daquela relação. Quem trabalha com políticos não deve nunca subestimar a força e o poder do ciúme nas relações com seu chefe ou líder.

Acostumado a presenciar traições, o político dificilmente chega a desenvolver uma confiança absoluta e irrestrita em alguém. O tempo passa, as pessoas mudam, e o risco está sempre presente.

Por outro lado, fazer política é envolver-se numa ação coletiva e competitiva. Portanto, não é possível ter sucesso sem confiar nos aliados, amigos, auxiliares e apoiadores.

É entre estes dois polos que a psicologia do político navega. A necessidade de confiar e o risco de confiar. Vence a necessidade de confiar. Em consequência, aquela sensibilidade exacerba-se sob a forma de ciúme para “vigiar” a lealdade.

O ciúme do político não se dirige apenas e nem principalmente contra seus adversários e inimigos. Para estes, há barreiras que impedem e bloqueiam o relacionamento. Os alvos mais perigosos são os aliados, os membros do mesmo partido ou coligação, que, embora compartilhem um projeto político comum, possuem os seus projetos individuais.

Muitas vezes um auxiliar, com a melhor das intenções, toma a iniciativa de buscar ou de aceitar um encontro com outro político, com o objetivo de resolver algum problema, ou trocar ideias sobre questões correntes, ou ainda tentar arbitrar algum desentendimento. E o faz sem consultar seu chefe.

Quando este vier a tomar conhecimento, por outros ou por iniciativa do auxiliar, na grande maioria dos casos a desconfiança vai se instalar. Será que a motivação do encontro foi mesmo aquela referida? Será que a conversa foi mesmo sobre aquele assunto? Será que tudo lhe foi contado? Será que o auxiliar não fez alguma revelação que não devia? Será que o ato de tomar a iniciativa não significa que ele está se sentindo livre para agir por conta própria? Será que ele não ficou atraído pelo concorrente e tentado a “mudar de time”?

A figura de Otelo e a maneira como o ciúme e a desconfiança desagregam sua mente e seu raciocínio servem de ilustração magistral para os extremos que este sentimento pode levar uma pessoa.

Estas e outras indagações, acionadas pela dinâmica psicológica do ciúme e da insegurança, passam a ser contrastadas com ações e comportamentos, como forma de confirmar ou excluir a hipótese da traição. Mas não é apenas o auxiliar que é assim investigado.

O concorrente, com o qual ele se encontrou, também passa a ser observado neste esforço de confirmação indireta.

O ciúme, por definição, requer uma confirmação ou exclusão da hipótese da traição por meios indiretos, como a observação, o “flagra”, o relato de outros.

Se há ciúme e desconfiança, a declaração pessoal é insuficiente: se a pessoa é vista como capaz de trair uma relação (de amor, de trabalho), quanto mais não lhe será fácil mentir e persistir na mentira.

Quando a desconfiança se instalou, o único recurso é a busca da confirmação indireta, já que a palavra da pessoa não mais pode ser aceita como verdadeira. Ora, da parte de quem investiga, a confirmação indireta é sempre incompleta, insatisfatória, duvidosa. Ela não resolve a dúvida e somente a magnifica e agrava.

O ônus psicológico torna-se insuportável e o rompimento acaba sendo a solução que mais alívio produz.

Nem todos os políticos são igualmente ciumentos. Haverá os que chegam à beira da paranoia, assim como aqueles cuja segurança lhes permite uma latitude de confiança bem maior.

De qualquer forma, em nenhuma hipótese subestime a força e o poder do ciúme nas relações políticas. Dê provas de sua lealdade, sem exageros (os exageros criam desconfiança), e conheça o limite confortável para suas iniciativas e ações.

Dentro destes limites exerça sua ação com toda a liberdade e iniciativa. Conheça seu chefe e os limites de confiança e a propensão para o ciúme que possui.

Não acredite totalmente nas palavras dele sobre assuntos dessa sensibilidade. Ao falar sempre parecerá seguro, liberal, sem ciúme, aberto. Observe o comportamento dele sob essa perspectiva e você descobrirá a verdade.