Às vezes um gesto impulsivo pode prejudicar seriamente a campanha, porque aparece como a exteriorização de uma atitude que é censurada pelo eleitor, e que não era conhecida até a ocorrência do gesto.

É óbvio que não é qualquer gesto impulsivo que pode ter estas consequências. Para tal é necessário que preencha certas condições:

  • Precisa ocorrer em público;
  • Precisa ser registrado e comentado pela mídia;
  • Precisa referir-se a um adversário ou a um eleitor ou grupo de eleitores;
  • Precisa ser uma atitude que é censurada pelo eleitor;
  • Precisa ser explorada por um adversário contra aquele que o praticou;
  • Precisa adquirir uma permanência na campanha. Em outras palavras, não pode ser facilmente esquecido.

Preenchendo estas condições, o gesto torna-se um tema de campanha. Ele é usado fartamente para abalar a imagem do candidato que o praticou, e acaba abalando, porque a cada nova exploração, mais pessoas tomam conhecimento e censuram o seu procedimento.

Torna-se assim um tema de campanha que, não poucas vezes, consegue ofuscar questões de muito maior importância.

Diante de situações deste tipo, os candidatos tendem a adotar, uma ou outra das seguintes respostas:

  • Ignorar o fato e continuar a campanha acreditando que ao fim o assunto será esquecido, ou minimizado pelos eleitores;
  • Pedir desculpas publicamente;
  • Transformar o “limão em limonada”

Ignorar o fato

Ignorar o fato é sempre um risco alto. Pode ser que o eleitor venha a desconsiderar a sua importância, mas pode ser que não. Ignorar significa deixar um flanco aberto até o fim da campanha, apostando numa mudança de sentimentos sobre a qual não se tem influência.

Se o gesto, ainda que infeliz é de menor monta e não tem suficiente importância para transformar o mal estar do eleitor em hostilidade, a estratégia de ignorá-lo pode funcionar. Pesquisas qualitativas podem ajudar muito na avaliação das consequências de ignorá-lo.

Em última análise é o candidato que vai assumir esta decisão que sempre implica num risco. Ignorar significa assumir este risco.

Pedir desculpas

Pedir desculpas pode liquidar o fato e ainda acrescentar a virtude da humildade à imagem. Isto somente vai ocorrer se o pedido for feito logo após a prática do gesto e se corresponder a um sentimento sincero e verdadeiro. Pedir desculpas é a decisão acertada para a correção de um gesto que implicou num agravo pessoal injusto.

Fora desta situação o pedido de desculpas poderá parecer um sinal de fraqueza, temor, oportunismo ou cinismo.

Transformar o limão em limonada

Esta é a melhor saída, desde que possível. O “comercial da recusa do aperto de mão” é um exemplo antológico desta saída.

O comercial

Na eleição para o Senado no estado do Texas em 1978, o Senador republicano John Tower buscava sua reeleição contra Bob Krueger. A campanha estava sendo intensamente disputada e ninguém podia ainda prever o resultado final.

Apareceu então um material de campanha fazendo alegações pessoais contra Tower e sua reputação em Washington. O texto era suficientemente ambíguo para permitir a Krueger afirmar que não se referia a Tower, embora publicamente tenha-se fixado a convicção de que se referia a ele.

Tower exigiu que Krueger se desculpasse, e este se recusou, negando sua responsabilidade sobre aquela peça.

Quando ocorreu um debate, amplamente divulgado pela mídia,  entre os dois candidatos, no momento em que se encontraram no palco Krueger estendeu a mão para cumprimentar a Tower e este se recusou a cumprimentá-lo e virou-lhe as costas.

Os fotógrafos registraram toda a sequência e, no dia seguinte, os jornais mostravam, em fotos diferentes, um com a mão estendida e o outro virando as costas. O resultado foi devastador para Tower.

Ficou estigmatizado como deselegante, grosseiro, raivoso e começou a cair nas pesquisas.

Tower tentou de tudo. Começou ignorando, depois passou para a versão “afinal era apenas um aperto de mãos”, e tentou ainda levar a campanha para a discussão de temas substantivos, mas nada funcionava. O adversário explorava o gesto e ganhava votos com a exploração.

Foi então que ele fez produzir o comercial “aperto de mãos”.

No comercial John Tower aparecia sentado sobre uma mesa, com a bandeira americana atrás, segurando um jornal, onde aparecia a sequência de fotos da mão estendida e da recusa.

Ele começa a falar e diz ‘Talvez vocês tenham visto estas fotos da minha recusa em apertar a mão do meu oponente.

Pois bem, eu fui criado na crença de que um aperto de mãos é um símbolo de amizade e respeito e não um gesto hipócrita e sem significado algum. Meu adversário atacou minha esposa, minhas filhas e divulgou uma versão falsa e mentirosa de meu passado político.

Meu estilo texano não aceita apertar mãos com este tipo de pessoa. A integridade é uma tradição texana que vocês podem contar comigo para manter.

Aparece então no vídeo a assinatura de Tower, com o seguinte texto: John Tower, ele representa o Texas, sempre representou e sempre representará.

Tower mandou retirar todos os seus comerciais do ar e deixou este durante todo o tempo que tinha disponível. Com o comercial ele começou a subir nas pesquisas, e venceu a eleição.