Na última semana da campanha, o foco se concentra de maneira absoluta na pessoa dos candidatos. O que tinha a se dizer sobre programas já foi dito, o que se tinha a mostrar sobre apoios já foi mostrado, o que tinha a ser criticado/defendido em relação ao governo em exercício já foi feito.

A campanha – ao chegar ao seu final – se personaliza de modo extremo. Qualquer mudança que possa ocorrer a partir de agora só ocorrerá se abalar a imagem pessoal dos candidatos.

Os últimos programas e comerciais de campanha deverão ser fortemente emotivos, carregados de esperança, confiantes na vitória, e sobretudo focalizados na pessoa do candidato, sua história de vida, seus sentimentos, seus sonhos para o país.

A peça escolhida para combinar com este estado de espírito de fim de campanha, é um comercial de George Bush (pai) realizado em 1988, quando ele disputava como vice-Presidente de Ronald Reagan a Presidência da República, contra Dukakis.

Bush tinha feito uma campanha negativa que se tornou antológica, sobretudo por comerciais como os de Willie Horton, a Porta Giratória, a Bahia de Massachussets, Dukakis passeando de tanque de guerra. Bush enfrentava também o problema de substituir Ronald Reagan, um presidente muito popular, que governara por 8 anos, e que havia conseguido dar uma interpretação muito pessoal ao cargo.

Neste comercial, “Eu sou aquele homem”, Bush tentou a delicada tarefa de associar-se com Reagan, e ao mesmo tempo dele diferenciar-se, para assumir a condição do novo herói político dos EUA.

George Bush
George Bush (pai) disputava contra Dukakis a presidência dos Estados Unidos

Tarefa delicada pela popularidade que ainda gozava Ronald Reagan, que ocupava o cargo na sua integralidade. Bush padecia do mal do Vice-Presidente, que já afetara a Nixon na eleição de 1960, contra Kennedy.

O mal do Vice-Presidente é uma decorrência do fato de que o vice, durante todo o mandato do titular, costuma ser uma figura apagada politicamente, até mesmo para não fazer sombra ao Presidente. Isto tende a ocorrer em todos os casos, independente de partido, e até mesmo de país (veja-se a propósito a condição em que ficaram Itamar Franco no governo Collor e Marco Maciel no de FHC).

No momento em que o vice concorre a Presidente, porque legalmente o presidente não mais pode se reeleger, ele precisa produzir uma metamorfose. Precisa deixar de ser aquela figura ausente, ou remotamente vista, sem funções importantes no governo, com baixa visibilidade na mídia, visto sempre como um auxiliar e não como chefe, para tornar-se o líder do país, o comandante em chefe das Forças Armadas, o responsável pelo governo.

A peça de Bush tinha este objetivo. Ela flagra o momento mesmo em que ele busca uma afirmação pessoal como o novo líder, enquanto Reagan ainda governava, com elevada popularidade.

O comercial

O comercial abre com a tela escuro com a palavra A EXPERIÊNCIA enchendo a tela. A seguir aparece Bush que fala:

Ronald Reagan
Reagan ainda governava, com elevada popularidade quando Bush exibiu o comercial

“Por sete anos e meio eu trabalhei com um grande Presidente”

Seguem-se cenas de Bush fazendo seu discurso na Convenção Republicana que o escolheu candidato, enquanto ele continua:

“Eu vi o que passa por aquela mesa grande. Eu vi a crise inesperada que surge num telegrama pela mão de um auxiliar”

Corta para uma cena aérea e noturna da Casa Branca

“Por isso eu sei que, no fim das contas, o que conta nesta eleição é o homem sentado naquela mesa. E, quem deve sentar naquela mesa. Meu amigo, eu sou aquele homem.”

Corta para uma foto de Bush com o letreiro:

“George Bush, liderança experiente para o futuro da América”