No fundo, o homem de estado é, como qualquer outro homem, um ser dotado de sentimentos como: paixões, impulsos, desejos, medos, vaidade, insegurança, ódios, etc. Sentimentos, na cultura ocidental, têm sido tradicionalmente identificados com o coração, por oposição ao raciocínio, que é identificado com o cérebro, com a cabeça.

Esta polaridade coração/cabeça e sentimento/racionalidade está, na nossa cultura, no centro da concepção do ser humano. Veja-se como exemplo de sua importância a clássica frase de Pascal: “Le coeur a des raisons que la raison ne connait point” (O coração tem razões que a razão não conhece).

A filosofia, a política, a literatura, ao longo dos séculos da história do ocidente, lidaram com esta polaridade para explicar o comportamento humano. A estética do Romantismo, por exemplo, no auge, durante o século XIX, valorizava a vontade sobre a razão, o heroico sobre o prosaico, a criação sobre a obediência aos cânones consagrados.

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Sentimentos são identificados com o coração, por oposição ao raciocínio, que é o cérebro

Na política, desde tempos imemoriais, o conselho de Napoleão I vem sendo repetido como uma das máximas da sabedoria política do governante e do político. Sobretudo naquelas obras de educação do governante, a advertência está sempre presente.

A obra de Maquiavel é toda ela uma argumentação sobre o dever do “príncipe” de subordinar sempre seus sentimentos em favor de um curso de ação racional, voltado para a conquista ou manutenção do poder. Não se trata de expulsar o sentimento da política. Longe disto. Trata-se, isto sim, de “usá-lo” a serviço de um objetivo racional.

O sentimento é uma força muito poderosa na política, que nunca pode ser subestimada. Entretanto, é como uma “força da natureza”, mais eficiente para destruir do que para construir. Além disso, é uma força com rumos imprevisíveis, porque cambiantes. Portanto, “cavalgar” um sentimento pode levar um líder à glória, hoje, e empurrá-lo para a desgraça, amanhã. Esta força da natureza deve, pois, ser tratada com extremo cuidado na política.

A pré-condição para “usar” o sentimento para a realização de um objetivo político é o “homem de estado”, no dizer de Napoleão, saber equilibrá-lo com a racionalidade no seu interior. Por isso, a inversão proposta: “o coração de um homem de estado deve estar na sua cabeça”.

Por trás da advertência contida nesta máxima, repetida, como se disse, de tantas formas diferentes, mas sempre com igual significado, está o princípio de que o “homem de estado”, o político, o governante, é um ser humano diferente. Diferentemente do ser humano comum, ele não poderá permitir que os seus sentimentos (positivos ou negativos) se sobreponham ao objetivo político racionalmente definido. As razões de estado estarão sempre em conflito latente ou aberto com as razões individuais.

O ser humano comum pode dar livre vazão aos seus sentimentos e até mesmo agir por eles guiado. O “homem de estado” não pode se dar ao luxo destas concessões aos seus sentimentos, a ponto de inviabilizar os objetivos coletivos. Quando o faz, liberando seus sentimentos negativos, torna-se um déspota, um tirano; quando o faz liberando os sentimentos positivos, torna-se um governante fraco, incapaz de governar.

Napoleão
Napoleão sabia os sacrifícios que estava impondo ao povo ao comandar o exército francês

O exercício da função de governo é o exercício do poder, mas atente-se, não o poder sobre coisas, mas o poder sobre outros homens. Este é o poder político. Diferente por esta razão do poder sobre a natureza, sobre a matéria.

O poder de um homem sobre outros homens é um “estigma”. Não nos devem iludir os aspectos triunfalistas e cerimoniais que cercam a autoridade. O poder de um homem sobre outros é sempre odioso. Ele só é aceito por ser absolutamente necessário para a vida social. Ele só é reconhecido porque os homens constroem justificativas (teorias, ideologias, etc) para legitimá-lo.

O exercício deste poder ocorre sempre numa situação de escassez. Escassez inevitável e inafastável. Somente o pensamento utópico concebeu sociedades livres do anátema da escassez.

Todas as sociedades que conhecemos, no nosso tempo e através da história, foram e são organizações coletivas destinadas a enfrentar coletivamente o problema da escassez. Ora, a escassez implica sempre em fazer alocações estratégicas de recursos, o que equivale a dizer que nunca será possível satisfazer a todos por igual, e mais ainda, que o mais das vezes alguns serão mais prejudicados que outros para viabilizar o objetivo buscado.

Napoleão sabia disso por experiência própria. Ao dirigir o “Grande Arméé” francês – o maior e mais poderoso exército da Europa – ele sabia os sacrifícios que estava impondo ao povo francês. O objetivo, entretanto, era: primeiro, defender a revolução, e depois exportá-la, e mais tarde expandir o Império. Objetivos que não se conseguiriam alcançar com o coração. Objetivos que somente seriam alcançados por um governante para o qual “o seu coração estivesse localizado na sua cabeça”.